«Quando penso no momento em que tomei a minha decisão, percebo que, se fosse 20 anos mais nova, talvez não tivesse recusado uma audiência à porta fechada», escreve Gisèle Pelicot no seu livro de memórias, que acaba de ser publicado a 17 de fevereiro, com lançamento mundial em 22 línguas.
O relato na primeira pessoa tem o título original em francês Et la joie de vivre, em inglês, A Hymn to Life: Shame Has to Change Sides, e, em português, Um Hino à Vida (ed. Companhia das Letras).
As memórias de Gisèle Pelicot - a francesa que sobreviveu a violações em massa organizadas pelo marido na casa de família, no sul de França - revelam detalhes íntimos sobre o seu casamento e sobre a decisão de tornar público o julgamento, decisão que a transformou num ícone do movimento para pôr fim à violência contra as mulheres. A obra foi escrita em colaboração com a jornalista e romancista francesa Judith Perrignon.
O julgamento de Dominique Pelicot e de outros 50 homens, condenados por violação e agressão sexual, prolongou-se por quatro meses de intensa exposição mediática e atraiu a atenção do mundo inteiro. Sobre este julgamento falámos com Manon Garcia, que passou por Lisboa para o lançamento do livro Viver com Homens - Reflexões sobre o caso Pelicot, editado pela Zigurate, no final do ano passado. Dessa entrevista daremos conta mais adiante.
Por agora, regressemos ao testemunho de Gisèle Pelicot, uma mulher com mais de 70 anos que se recusa a ser vista como vítima. Sobre a decisão de manter o julgamento aberto ao público, disse, em entrevista à Vogue britânica: «Teria tido medo dos olhares, desses malditos olhares com que uma mulher da minha geração sempre teve de lidar. Talvez a vergonha desapareça mais facilmente quando se tem 70 anos e já ninguém presta atenção. Não sei. Não tive medo das minhas rugas nem do meu corpo.»
Gisèle Pelicot foi drogada com tranquilizantes durante uma década pelo então marido, Dominique Pelicot, condenado a 20 anos de prisão. No julgamento em 2024, em Avignon, recusou a possibilidade de sessões à porta fechada, afirmando que queria que o mundo soubesse aquilo a que tinha sido submetida.
A atriz Emma Thompson, que dá voz ao audiobook a ser lançado em simultâneo com a versão impressa, destacou o impacto profundo da obra, que aborda a experiência do trauma, sublinhando a sua força inspiradora, a mensagem de coragem e a necessidade urgente de mudança face a crimes que continuam a ser silenciados.
Num testemunho emocionado, Thompson afirmou que o livro transmite uma mensagem de desafio ao sistema que permite que este tipo de violência passe impune e sem indignação pública, rejeitando qualquer ideia de culpa atribuída às vítimas. «A vítima nunca deve sentir vergonha - essa pertence ao criminoso», afirmou a premiada atriz britânica.
Protagonista, entre muitas obras, da adaptação cinematográfica de Sensibilidade e Bom Senso, de Jane Austen, Emma Thompson reconheceu que a leitura é emocionalmente exigente, mas sublinhou o valor do livro ao mostrar que é possível continuar a viver, navegar a dor e encontrar formas de processar o trauma, crescer e seguir em frente.
Para Emma Thompson, a obra demonstra que um propósito extraordinário pode nascer de um sofrimento extraordinário, deixando uma marca profunda em quem a lê. «Acabei de terminar este livro e recomendo vivamente. É absolutamente extraordinário», afirmou, assumindo-se como uma «grande fã» da autora francesa e concluindo que o testemunho reforça o impacto social e humano da obra, apontada como um contributo relevante para o debate sobre violência, trauma, justiça e empatia.
«Viver com homens»
Numa altura em que os Ficheiros Epstein abalam, mais do que a moral, os próprios valores e nos remetem para uma reflexão individual, o testemunho de Gisèle Pelicot revela-se indispensável.
O então marido, Dominique Pelicot, foi detido após ser visto a fotografar por baixo das saias de mulheres num supermercado, perto de casa - um comportamento ofensivo, mas quase estupidamente inofensivo relativamente ao que viria a revelar-se. O eletricista reformado francês mantinha, afinal, uma prática muito mais devastadora: ao longo de uma década, documentou como ele próprio, pelo menos um vizinho e vários homens recrutados na dark web violaram e abusaram sexualmente da mulher, mãe dos seus três filhos, de forma sistemática, depois de a drogar com um cocktail de substâncias que incluía lorazepam.
No livro de Manon Garcia lê-se: «A sua atitude ao longo do processo é surpreendente. Confessou tudo, reconheceu tudo. Desde a primeira vez que tomou a palavra, a sua linha é clara: ‘Sou um violador como estes que estão presentes nesta sala’, diz ele. E, ao longo de quatro meses, mantê-la-á: reconhecerá o mal que fez à esposa e esforçar-se-á por que nenhum dos seus cúmplices escape à justiça.»
A filósofa e autora Manon Garcia escreveu Viver com homens, publicado no ano passado, após ter assistido presencialmente, durante quatro meses, às sessões do julgamento. A comparação com Hannah Arendt no julgamento de Adolf Eichmann surge quase inevitavelmente. Garcia não a rejeita, mas prefere relativizá-la: há poucas filósofas reconhecidas e as associações tornam-se automáticas. «Se fosse homem, não diriam: ‘faz como Hannah Arendt’; mas como sou mulher e filósofa, dizem: ‘ah sim, igual à Hannah Arendt’», observa. E acrescenta: «Tenho a sorte de não pertencer à mesma geração de Hannah Arendt e de poder - ou pelo menos dizer a mim própria que posso - escrever sobre as minhas emoções sem que se diga que isso prova que não sou capaz de raciocinar».
Alguns jornalistas franceses, admiradores dos seus livros anteriores, disseram-lhe que Viver com homens não foi escrito como filósofa, mas como mulher - uma leitura que a incomoda. Garcia responde com ironia: «Immanuel Kant escreve como homem. Theodor Adorno escreve como homem. Michel Foucault escreve como homem. A nenhum deles se diz que ‘escreve como homem’».
Ainda assim, são as mulheres que mais a interessam no livro nascido do julgamento dos homens que agrediram Gisèle Pelicot. «Como fui socializada como mulher, presto atenção, por exemplo, ao que isto fez às mulheres desses homens. A emoção que sinto pelas mulheres da família presentes no julgamento vem do facto de eu ser mulher e imaginar o trabalho invisível», disse. E acrescentou: «Há um momento no livro em que conto como elas prepararam as malas para os que foram para a prisão. Tenho a certeza de que os homens presentes no julgamento não viram essas malas. Eu vi a roupa passada a ferro, o saco novo, o cuidado, o amor nesses gestos - amor apesar do que esses homens fizeram».
Sobre o caso de Gisèle Pelicot, Garcia sublinhou: «Penso que a verdade desta história reside no facto de ela ser como um bloco: quanto mais pontos de vista tivermos, mais compreendemos a sua complexidade. Como um copo sobre uma mesa fotografado de ângulos diferentes, pintado, modelado - é uma questão de perspetiva e de meios. Quanto mais perspetivas, mais compreensão.»
«Uma questão fundamental é compreender que a sexualidade não é uma força natural, mas uma construção social. A biologia conta, mas o desejo - até o mais físico - varia ao longo dos séculos. Na intimidade de um quarto está presente toda a sociedade. Não existe um problema eterno da sexualidade masculina; existe antes um problema de poder masculino, um problema social transposto para a sexualidade. Quando vemos homens poderosos exibirem mulheres como símbolos de estatuto, como se fossem bens de luxo, percebemos essa lógica. Em certos contextos de luxo, a violência simbólica das relações de género pode ser tão forte quanto noutros meios», sublinhou Garcia, deixando também um alerta: «Hoje vemos movimentos que promovem modelos tradicionais de submissão feminina e um uso político dessas tensões. A violência crescente entre jovens preocupa. Durante muito tempo, o feminicídio era sobretudo o assassinato de companheiras, hoje há cada vez mais casos de filhos que matam as mães. O mecanismo é semelhante: a frustração de um direito imaginado ao amor incondicional e ao serviço. É preciso falar com os jovens sobre consentimento, respeito e igualdade. Nada disso deve ser tratado como evidente.»
«No caso de Gisèle Pelicot, o interesse público deve-se ao carácter extraordinário do caso. Mas ele revela a realidade da violência sexual, que ocorre na esfera privada, organizadas por pessoas conhecidas», concluiu Garcia, sobre uma realidade que, infelizmente, os factos continuam a confirmar.
Nem vítima, sem heroína, mas sobrevivente
Gisèle Pelicot afirmou, numa entrevista recente, que não se reconhece na palavra ‘vítima’. Rejeita também os termos ‘heroína’ ou ‘ícone’ e prefere ver-se como ‘sobrevivente’. No limite, aceita ser um ‘símbolo’ da voz que tem de ser dada às mulheres - e não é por acaso que o seu livro é também considerado um manifesto feminista mobilizador.
Admite que «todos temos direito à felicidade» e que não se pode apagar o passado e é preciso reconhecer que ele faz parte do que somos. No presente, há um novo companheiro, um antigo comissário de bordo da Air France.
Nascida Gisèle Guillou, em 1952, passou parte da infância na Alemanha Ocidental, ainda em reconstrução no pós-guerra, onde estava colocado o pai, um militar. Mais tarde, a família muda-se para Azay-le-Ferron, em França, onde Gisèle voltou às suas origens camponesas e às brincadeiras em castelos habitados por fantasmas.
A mãe morreu de cancro quando Gisèle tinha nove anos, e o pai voltou a casar. Como nas histórias infantis, Gisèle não gostava da madrasta, cruel e avarenta. Na escola, a sua melhor amiga previu que ela se tornaria como Colette, a célebre escritora francesa de memórias íntimas e femininas.
Gisèle e Dominique conheceram-se aos 19 anos, num dia em que Gisèle foi «picada entre os olhos por uma vespa», escreve nas suas memórias, e «as pálpebras estavam tão inchadas que mal conseguia ver.» O casamento foi feliz durante décadas, embora financeiramente precário e marcado por exigências sexuais cada vez mais extravagantes por parte do marido.
Com 30 anos, e com um emprego mais estável e gratificante do que o eletricista Dominique tinha, Gisèle teve um caso com um colega. Na altura, Dominique reagiu de forma violenta, mas o casamento sobreviveu - embora Gisèle possa ter ignorado sinais da violência.
Quando os abusos começaram, o corpo de Gisèle passou a enviar sinais confusos: falhas de memória, problemas ginecológicos provocados pelas lavagens vaginais que o marido lhe administrava. Ele acompanhava-a às consultas médicas, brincando que talvez ela o estivesse a trair enquanto ele estava a trabalhar. No que diz respeito à manipulação psicológica (gaslighting), o eletricista mostrou competência assustadora.
No seu conjunto, trata-se de uma das mais hediondas histórias de abuso sexual da história recente. Os abusos começaram em 2011, mas Gisèle só teve conhecimento deles em 2020. Quatro anos depois, teve início o julgamento dos agressores, realizado à porta aberta - uma decisão que transformou Gisèle num ícone feminista... ou numa sobrevivente que insiste em ser feliz.