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Um dos três portugueses a bordo da Flotilha Global Sumud que ia a caminho de Gaza quando foi intercetada por Israel denunciou ter sido torturado física e psicologicamente pelo exército israelita.
Foi em declarações à agência Lusa que Nuno Gomes, um ativista de 56 anos, antigo motorista de mercadorias internacionais, revelou que o exército israelita "travou a campanha marítima" no dia em que intercetou a maioria das 58 embarcações onde seguiam 181 ativistas para Gaza, com o objetivo de romper com o bloqueio israelita e criar um corredor humanitário. Segundo ele, Israel "sequestrou todos os envolvidos".
"A intercessão por parte do exército israelita foi feita em águas internacionais, 50 milhas a sul da costa da Grécia. Foi muito violenta, tanto do ponto de vista psicológico como do ponto de vista físico. [...] Apontaram-nos armas com lasers, armas carregadas com munições reais. Não pediram autorização para entrar dentro das embarcações. A partir daquele momento, ficamos com a certeza absoluta que estávamos a ser raptados", começa por explicar, acrescentando o momento em que teve medo: "Apoderaram-se dos nossos passaportes e deram-nos ordens específicas para que, se não cumpríssemos as ordens, que iam disparar e poderiam inclusivamente matar-nos".
Foi nas 48 horas seguintes à intervenção que Nuno Gomes considera ter sido torturado, revelando que o exército não deixava os ativistas dormir. Confessou ainda ter sido "atacado fisicamente" várias vezes. "Intercedi em ajuda perante camaradas meus, não cumpri com algumas ordens que eles me deram e [...] fui penalizado severamente e fui torturado fisicamente, acabando por sofrer lesões graves no meu corpo, incluindo uma costela rachada em dois sítios diferentes, uma lesão também grave que me causa bastantes dores na coluna vertebral e tenho algumas nódoas negras e arranhões pelo meu corpo todo, incluindo esta, que espero que mostre nas câmaras, que está aqui na minha testa. E aqui ainda tenho a cara um pouco inchada", indicou à Lusa.
Nuno Gomes é um conhecido ativista por, em agosto de 2025, ter passado por uma greve de fome diante do parlamento português num protesto contra a interveção militar na Faixa de Gaza. Neste sentido, continua a criticar a abordagem portuguesa no conflito. "Tenho de apelidar esta abordagem do Consulado como absolutamente vergonhosa, mas, também tendo em conta a posição do nosso governo, que continua a negociar com um país [Israel] genocida, isso não me admira", admitiu. Neste sentido, Nuno explica que o consulado lhe disse que "não podia fazer nada", que era um "cidadão livre" e que podia contactar os familiares para comprarem um bilhete de viagem para regressar ao seu país. "Disse-lhe boa noite, obrigado pela sua presença, e fui-me embora", recorda. Nuno chegou a Portugal no passado dia 2 deste mês.
Embora descreva aquilo por que passou como "tortura", Nuno Gomes garante que faria tudo de novo: "Voltaria a fazer tudo outra vez e essa seria sempre a minha opção e a razão por que o faria é precisamente por isso". "Fazendo ou não fazendo algo, tenho sempre uma opção. E o povo palestiniano não tem opções. É tratado como sendo um povo de segunda classe. Isto não é justo, é ilegal. Não lhes é dada qualquer oportunidade de se defenderem. Eu, como cidadão responsável, lá estaria novamente ao lado deles, porque eles são uma lufada de ar fresco para a humanidade", frizou, acrescentando que deve-se olhar para os palestinianos como um povo que "sofre um genocídio há quase 80 anos" e que, mesmo assim, "continuam a ser amáveis, a ter empatia, a mostrar amor pelo próximo". "É um exemplo para mim, para a minha família e acho que devia ser um exemplo para todos os portugueses e para a humanidade em geral", afirmou.
Recorde-se que o Ministério dos Negócios Estrangeiros revelou que estariam três portugueses a bordo da flotilha, que se comprometeu em ser a "maior missão marítima rumo à Palestina".