Ficheiros Epstein. A queda de dois artistas

O ex-príncipe André esteve detido durante 11 horas no dia do seu aniversário e o ex-ministro socialista francês Jack Lang demitiu-se da liderança do Instituto do Mundo Árabe. Estas são as duas mais recentes e famosas “vítimas” do já falecido agressor sexual Jeffrey Epstein
Ficheiros Epstein. A queda de dois artistas

Mais de seis anos após a sua morte, Jeffrey Epstein continua a fazer vítimas. Não do mesmo matiz, é evidente, mas o leque de visados na sequência da publicação dos ficheiros vai-se alargando. Muitos são os nomes da alta sociedade – da política à cultura, atravessando outras áreas de elevado interesse – que se encontram agora sob um apertado escrutínio público, uns com mais e outros com menos vigor.

Dois dos que têm estado na ordem do dia são o ex-príncipe André Mountbatten-Windsor, filho da falecida Rainha Isabel II e irmão do atual monarca Carlos III, e Jack Lang, um nome central da arena cultural francesa e ex-ministro da educação e da cultura de François Mitterrand. A sua estreita relação com Epstein fê-los cair. E não sem estrondo.

Chamem-me André

André Mountbatten Windsor. É este o nome pelo qual assinará, e será tratado, o ex-príncipe André, também ex-duque de Iorque. Mas esta destituição por parte do seu irmão não é nova. De facto, ocorreu em 30 de outubro do ano passado quando o Rei Carlos emitiu um comunicado oficial a dar conta da decisão. «Sua Majestade iniciou hoje um processo formal para retirar o título, os títulos nobiliárquicos e as honras do príncipe Andrew», pode ler-se na primeira frase da declaração emitida pelo Palácio de Buckingham. Para que não restassem dúvidas, a Casa Real britânica reforçou que o «príncipe Andrew passará a ser conhecido como Andrew Mountbatten Windsor».

Para além da perda dos títulos, o ex-príncipe foi também forçado a deixar o Royal Lodge, a sua residência desde 2004 e onde também havia residido Isabel, a Rainha-Mãe, até à sua morte em 2002. Na sequência das declarações de Carlos III, foi «entregue [a André] uma notificação formal para rescindir o contrato de arrendamento» para que se mudasse «para um alojamento privado alternativo». Foram medidas «necessárias», independentemente de o ex-príncipe «continuar a negar as acusações contra si». «Suas Majestades desejam deixar claro que os seus pensamentos e mais sinceras condolências estão e permanecerão com as vítimas e sobreviventes de todas e quaisquer formas de abuso», concluiu, à data, a Casa Real.

Foi precisamente neste novo alojamento privado alternativo, a Wood House em Sandringham, para o qual André se mudou no passado dia 2 – não sem alguma resistência, como dá nota uma notícia do Nascer do SOL publicada na segunda-feira –, que a polícia o abordou, levando à sua detenção que durou cerca de 11 horas no dia em que cumpriu o seu sexagésimo sexto aniversário. A detenção foi levada a cabo pela Polícia do Vale do Tamisa por suspeitas de conduta imprópria no exercício de um cargo público. Um crime que, quando provado, pode implicar uma pena máxima de prisão perpétua, de acordo com o Crown Prossecution Service. Após quase meio-dia de detenção, o ex-príncipe saiu «como um homem livre — sem restrições à sua liberdade de movimentos, sem a obrigação de permanecer num endereço acordado — mas ainda assim como um suspeito de crime», escreveram Sean Sheldon e Dominic Casciani para a BBC.

O caso de Jack Lang

Se as ondas de choque provocadas pela publicação dos Ficheiros Epstein foram fortemente sentidas em terras de Sua Majestade – com o primeiro-ministro Keir Starmer também na corda bamba por causa das ligações de Peter Mandelson, quem nomeou para embaixador em Washington, com Epstein –, também atravessaram o Canal da Mancha. E o visado é um ex-ministro de Mitterrand que liderava até há pouco tempo o Instituto do Mundo Árabe em Paris.

Agora com 86 anos e estabelecido como uma das principais figuras da cultura francesa, Lang demitiu-se do cargo no dia antes de uma reunião de urgência convocada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros francês com vista a apurar a sua ligação ao já falecido agressor sexual. O seu advogado, Laurent Merlet, citado pelo The Guardian, disse que o seu cliente se encontrava «muito triste e profundamente magoado por deixar um cargo que ama», reforçando que Lang havia sempre colocado «os interesses do Instituto do Mundo Árabe em primeiro lugar».

Também a sua filha, a produtora cinematográfica Caroline Lang, foi visada e, de acordo com o mesmo jornal britânico, o Ministério Público abriu uma investigação por «suspeita de “fraude fiscal agravada e branqueamento de capitais”». Enquanto Lang continua a negar as alegações, sublinhando que não tem nada a esconder, a polícia continua a investigar o Instituto ao qual o ex-ministro socialista presidiu após ser mencionado mais de 700 vezes nos documentos publicados.

Assim, estas são as duas quedas mais recentes, sonantes e mediáticas que decorrem das investigações sobre as ligações de membros da elite mundial a Jeffrey Epstein. Investigações que, ao que tudo indica, não ficarão por aqui.