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O julgamento de Lindsay Clancy, um dos casos criminais que mais atenção tem despertado nos Estados Unidos, ficou marcado por dois episódios insólitos, que envolvem pessoas que acompanhavam as sessões no tribunal de Plymouth, em Massachusetts.
Dawn Light, uma mulher de 56 anos que se descreve como uma "verdadeira fã de casos de true crime", foi detida no parque de estacionamento, esta terça-feira depois de alegadamente ter filmado jurados à saída do Plymouth Superior Court, onde decorre o julgamento de Clancy. Segundo o Boston.com, a mulher foi posteriormente acusada de intimidação de testemunhas, jurados ou pessoas que prestam informação no âmbito de processos criminais.
Light, residente em Sutton, Massachusetts, declarou-se inocente durante a audiência judicial. A defesa classificou o episódio como um "completo mal entendido" alegando que a mulher pretendia apenas fotografar Lindsay Clancy e não os jurados.
"Tem 56 anos e tem sido uma cidadã exemplar”, disse a advogada Jennifer White. “Isso é um completo mal-entendido, meritíssimo.”
Segundo os documentos apresentados em tribunal, Light terá entrado numa zona reservada a funcionários e apontado o telemóvel para pessoas que deixavam o edifício. Quando foi confrontada por um funcionário do tribunal, terá recusado entregar o telefone.
As autoridades encontraram posteriormente, na pasta de ficheiros eliminados do dispositivo, uma gravação dos jurados a abandonar o tribunal. A polícia considerou que esse elemento contrariava a versão inicial de Light, que tinha negado ter filmado alguém.
A mulher terá explicado que estava no local para tentar ver Lindsay Clancy sair do tribunal.
Light disse ainda que não tinha percebido que estava numa zona restrita e que não tinha intenção de filmar os jurados. "Realmente não vi nenhum sinal a dizer que era apenas para funcionários. Isso não me teria impedido", terá dito às autoridades, segundo o relatório policial citado em tribunal.
Tribunal reforçou regras para proteger jurados
O episódio levou o juiz William Sullivan a reforçar as regras impostas durante o julgamento.
Já existia uma ordem judicial que proibia fotografar ou filmar os jurados e que impedia qualquer pessoa de os contactar, seguir ou assediar enquanto o júri não fosse dispensado.
Na quarta-feira, depois da detenção de Light, o juiz voltou a alertar todos os presentes para a necessidade de respeitar essas regras.
Os jurados foram ainda chamados individualmente para responder se tinham visto ou ouvido alguma coisa relacionada com o episódio que pudesse afetar a sua capacidade de analisar o caso de forma imparcial.
A defesa de Light argumentou que a mulher, uma enfermeira reformada sem antecedentes criminais, não pretendia interferir com o processo. O tribunal não impôs uma caução em dinheiro, mas determinou que permanecesse afastada do tribunal, dos jurados e das testemunhas.
Jornalista também foi afastada após sorrir para a câmara
O caso de Dawn Light não foi o único episódio invulgar a marcar o julgamento.
Dias antes, a jornalista Brittany Romano tornou-se alvo de críticas depois de aparecer numa transmissão televisiva a sorrir e a piscar o olho para a câmara instalada no tribunal.
A imagem surgiu quando a câmara, que integra o sistema de transmissão permitido durante o julgamento, percorreu a galeria onde estavam jornalistas e membros do público. Enquanto várias pessoas mantinham uma expressão séria, Romano olhou para a câmara, sorriu e chegou a piscar o olho. O momento rapidamente se espalhou nas redes sociais.
Romano estava no julgamento a trabalhar numa história para a Vanity Fair. A ligação da jornalista ao caso era, contudo, particularmente pessoal: conhecia Lindsay Clancy desde a infância e a publicação tinha interesse num ensaio sobre essa experiência.
Depois da repercussão do episódio, a Vanity Fair decidiu retirar a credencial de Romano e abandonar o projeto.
"Ontem, após claros conflitos com os nossos padrões e processos editoriais, informámos Romano de que não iríamos prosseguir o seu ensaio e comunicámos ao tribunal que ela já não tem acreditação na Vanity Fair.", pode ler-se no comunicado citado pelo New York Post.
"Sorrio quando estou desconfortável"
Romano acabou por responder às críticas nas redes sociais e explicou que o sorriso não pretendia demonstrar desprezo pela gravidade do processo.
"Eu sorrio mesmo ansiosa. Sorrio quando estou desconfortável. Isto não é indiferença, é o sistema nervoso a lidar com a tensão da única forma que sabe.", escreveu a jornalista na rede social Instagram.
A jornalista revelou também que conhecia Clancy desde a infância, uma circunstância que acrescentava uma dimensão pessoal à sua presença no julgamento. A ligação entre as duas foi, aliás, uma das razões pelas quais a Vanity Fair tinha demonstrado interesse no trabalho que Romano pretendia desenvolver.
Julgamento continua sem veredicto
Os episódios acontecem numa altura particularmente delicada do processo contra Lindsay Clancy.
Clancy, de 36 anos, é acusada de matar os três filhos, Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan, de oito meses, na casa da família em Duxbury, Massachusetts, em janeiro de 2023.
A própria Clancy não contesta que estrangulou os filhos, mas declarou-se inocente por falta de responsabilidade criminal. A defesa sustenta que sofria de psicose pós-parto e outras perturbações psiquiátricas que a terão impedido de compreender plenamente os seus atos. A acusação, por sua vez, defende que Clancy sabia o que estava a fazer e que os crimes foram deliberados.
Depois de cinco dias de deliberações, os jurados continuam sem conseguir chegar a uma decisão. O grupo informou o juiz duas vezes de que estava num impasse, mas foi instruído a continuar a analisar o caso.
O julgamento já envolveu mais de 80 testemunhas e centenas de peças de prova e tornou-se um fenómeno mediático, atraindo jornalistas, equipas de televisão, defensores da saúde mental, apoiantes de Clancy e também seguidores de conteúdos de true crime.
A atenção em torno do processo acabou, assim, por ultrapassar as paredes do tribunal. Entre detenções, transmissões televisivas e polémicas nas redes sociais, o julgamento passou também a ser palco de episódios que obrigaram o juiz a reforçar os limites impostos para proteger a integridade do processo e, sobretudo, a imparcialidade dos jurados.