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A Europa atravessa este verão uma das vagas de incêndios florestais mais graves das últimas décadas, alimentada por temperaturas historicamente elevadas e por uma seca prolongada que já provocou a morte de milhares de pessoas em todo o continente. O balanço, feito com dados do Global Wildfire Information System e do European Forest Fire Information System (EFFIS), confirma o que bombeiros e cientistas temiam, e avisaram desde o início da estação: 2026 é um dos piores dos últimos 15 anos em área ardida na União Europeia.
Segundo os dados mais recentes, citados pela Comissão Europeia, a área total já ultrapassa os 529 mil hectares, um valor superior ao registado em igual período de 2025, que já tinha sido um ano recorde – apenas superado por 2012, 2022 e 2017 – e que fica 13% acima da média registada entre 2012 e 2025 para o mesmo período do ano.
Espanha continua a ser o país mais afetado, com quase 186 mil hectares consumidos pelas chamas, mais do dobro da média histórica para o mesmo espaço temporal. Um incêndio na região de Ávila, a oeste de Madrid, tornou-se o maior da história espanhola, tendo obrigado à evacuação ou confinamento de mais de 100 mil pessoas.
França regista o pior ano desde 2012, com mais de 99 mil hectares ardidos, depois de um incêndio em Saumos – o maior desde a Segunda Guerra Mundial – ter destruído cerca de 42 mil hectares e forçado a retirada de mais de 220 mil pessoas. O país chegou a combater 30 a 40 incêndios em simultâneo, todos os dias. Itália, Portugal e Grécia também sofreram este verão perdas expressivas, e na Grécia três bombeiros morreram no combate às chamas em Creta.
Mas mais preocupante é a expansão do fenómeno para regiões tradicionalmente poupadas a este flagelo. Áustria, Alemanha, Dinamarca, Países Baixos e Reino Unido registaram este ano áreas ardidas muito acima das respetivas médias históricas, em alguns casos mais do triplo.
Simone Varotto, professor da Henley Business School, da Universidade de Reading, alertou que Londres deveria olhar para o sul da Europa «como um sistema de alerta precoce», sublinhando que «o risco de incêndio já não se limita ao Mediterrâneo».
Resposta europeia
Perante a gravidade da situação, Bruxelas ativou repetidamente o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, com o envio de helicópteros e bombeiros para diferentes países. O sistema Copernicus tem fornecido cartografia de emergência para apoiar as autoridades na Bélgica, Alemanha, Montenegro, Albânia, Grécia e França. «Nenhum país deve enfrentar incêndios sozinho», afirmou a comissária europeia para a Gestão de Crises, Hadja Lahbib, recordando que a reserva estratégica rescEU dispõe este ano de 22 aeronaves e cinco helicópteros de prontidão.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou a situação como «alerta elevado de incêndios florestais», assinalando o agravamento da pressão sobre os países da Europa de Leste.
Uma vez que o risco dos incêndios florestais é cada vez mais transnacional, a capacidade para deslocar bombeiros, meios aéreos e informação através das fronteiras é tão importante como os recursos que cada país tem.
Fatura a pagar
Se a área ardida é fácil de medir, o verdadeiro custo dos incêndios revela-se muito mais difícil de calcular. Segundo Varotto, «a fatura final incluirá habitações, empresas e colheitas destruídas, perturbações no turismo e na indústria, efeitos na saúde relacionados com o fumo, maior pressão sobre as finanças públicas e, potencialmente, prémios de seguros mais elevados». A Agência Europeia do Ambiente estima que os fenómenos climáticos extremos causaram perdas económicas próximas dos 822 mil milhões de euros na União Europeia entre 1980 e 2024, um quarto dos quais apenas nos últimos quatro anos.
O problema é agravado pela reduzida cobertura seguradora: apenas cerca de um quarto das perdas ligadas a catástrofes climáticas está segurado na UE, percentagem que em alguns países não chega aos 5%. Analistas finaceiros alertam, à imprensa internacional, que este tipo de catástrofe, outrora encarado como despesa pontual, tornará-se-á um encargo orçamental recorrente, com impacto direto nas contas públicas de países já pressionados pelo aumento da despesa em defesa e pelo envelhecimento populacional.
Prevenir sem fundos
Os especialistas são unânimes: apagar incêndios já em curso é politicamente mais visível do que investir na prevenção. Uma análise ao financiamento do Mecanismo de Proteção Civil da UE revela que 80% dos 368,4 milhões de euros destinados a incêndios florestais foi canalizado para resposta reativa, contra apenas 20% para prevenção, que passa pela limpeza de vegetação à gestão florestal e ao pastoreio em zonas de risco.
É um facto que cerca de 90% dos incêndios na Europa têm origem humana, da negligência ao fogo posto, mas o aquecimento global cria as condições que transformam uma simples fagulha em catástrofe.
Dados do Copernicus Climate Change Service indicam que 95% do continente europeu registou temperaturas acima da média nos últimos anos, com o abandono rural a agravar o problema, uma vez que fez desaparecer práticas tradicionais de gestão do território.
Resiliência e reseguro
Bruxelas prepara para o outono propostas sobre resiliência climática, incluindo um possível regime público-privado de resseguro contra catástrofes naturais, ideia já defendida pelo Banco Central Europeu. Portugal anunciou, após as inundações de início de 2026, um seguro habitacional obrigatório, apoiado por um fundo de catástrofes naturais e um mecanismo de solidariedade nacional. Espanha e Grécia estudam soluções semelhantes, incluindo obrigações catástrofe e reforço de infraestruturas hídricas e energéticas nas zonas turísticas.
As ondas de calor afetam cada vez mais a economia europeia, reduzindo a produtividade, travando o consumo e aumentando os custos operacionais. Dados compilados pela plataforma de divulgação ambiental CDP revelaram que 35% das empresas – em particular dos setores da indústria transformadora, dos serviços, das infraestruturas e do setor alimentar – identificaram as ondas de calor como um fator de risco. A Moody’s calcula que as ondas de calor do último verão custaram 43 mil milhões de euros em produção perdida na Europa. Só França enfrenta custos que podem chegar a 15 mil milhões de euros numa altura em que tenta reduzir o défice de 3,5 biliões e aumentar as despesas com a defesa.
A pergunta recorrente, que se ouve um pouco por todo o Velho Continente – aquele que está a aquecer mais rapidamente – é se este incêndios geraram vontade política para financiar, de forma consistente, a prevenção – ou continuará a Europa a pagar a fatura de combater o fogo depois de alastrar.