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Pouco mais de um ano depois de assumir de novo as rédeas da Casa Branca, o Presidente norte-americano Donald Trump fez, na quarta-feira, o discurso anual do Estado da Nação. Uma intervenção que vem na sequência de uma derrota no Supremo Tribunal, que, e ainda que com uma maioria conservadora, declarou as suas tarifas inconstitucionais por considerar que cabe ao poder legislativo, e não ao executivo, a «maioria das decisões importantes que afetam os direitos e responsabilidades do povo americano», como escreveu o juiz Neil Gorsuch.
Através de uma retórica à qual nos tem habituado, Trump tocou nos seus tópicos de eleição: imigração, crime e guerra cultural. Neste último ano, a economia não apresenta os resultados que certamente Trump gostaria, mas ainda assim o Presidente norte-americano não se inibiu de dizer que «a nossa nação está de volta» e o seu discurso, neste tema, foi marcado também por uma boa dose de populismo económico, que se traduz em perorações assistencialistas.
Neste último ano, e com a reconfiguração da ordem internacional a todo o gás, a política externa foi um dos temas mais quentes e sobre os quais a administração Trump se tem debruçado mais. Das negociações para a paz na Ucrânia, uma bandeira da campanha de Trump, à captura de Nicolás Maduro, passando pelo cessar-fogo em Gaza, pelos bombardeamentos e tensões crescentes com a República Islâmica do Irão e pela criação do Conselho da Paz, foi um ano que deixou clara a abordagem de Trump em relação ao que acontece no resto do mundo. Todavia, provocando naturalmente alguma surpresa, o Presidente dos EUA não se alargou nestes temas. Mencionou brevemente a inevitável questão iraniana, mas o discurso, que se estendeu por cerca de duas horas – o mais longo da história –, foi vincadamente interno. John Kennedy, senador republicano pelo Louisiana, disse, no rescaldo do discurso do Presidente, que «esperava que ele falasse sobre as coisas que preocupam as mães e os pais quando se deitam à noite para dormir e não conseguem». «E foi isso que [Trump] fez», concluiu.
É natural que a postura republicana, a esta altura do campeonato, seja de colocar o foco nos cidadãos estadunidenses. Isto porque, importa notar, estamos a nove meses das midterms, ou eleições intercalares, que definirão a composição do Congresso dos Estados Unidos. Nestas eleições estarão em disputa todos os (435) assentos da Câmara dos Representantes e alguns (35 de 100) dos lugares do Senado, e os republicanos são detentores, neste momento, da maioria em ambas. Trump, cuja popularidade tem vindo a registar uma queda relevante no último ano, não se poderá dar ao luxo de perder estas maiorias.
Para este efeito, o 47.º Presidente dos Estados Unidos, num dos vários momentos provocatórios da intervenção anual, decidiu jogar a um jogo que sabia não poder perder. Trump pediu aos legisladores americanos que se levantassem caso concordassem com um «princípio fundamental»: «Se concordam com esta afirmação, levantem-se e mostrem o vosso apoio: o primeiro dever do governo americano é proteger os cidadãos americanos, não os estrangeiros ilegais». Ora, não é necessário aprofundar a tensão entre democratas e republicanos acerca das políticas de imigração de Trump. E esta foi a armadilha inescapável que Trump colocou aos adversários, que se mantiveram sentados, permitindo ao chefe da Casa Branca acusá-los, perante o povo norte-americano, de não estarem a proteger, em primeiro lugar, as pessoas que os elegeram. Caso se tivessem levantado, o Presidente ganharia de igual forma. Diria, então, que afinal concordam com ele em matéria de imigração, desqualificando todos os protestos que até agora têm feito.
É este o Estado da União em fevereiro de 2026. Esperemos pelos próximos episódios, que são prometedores.