quarta-feira, 15 jul. 2026

EUA-Israel. Líbano provoca tensão

Na semana passada, Israel voltou a intensificar os seus ataques no Sul do Líbano independentemente dos esforços de Washington para os travar. O Irão continua a suspender as negociações com os EUA até que os ataques ao Líbano parem, o que levou Donald Trump a dizer diretamente a Netanyahu que este último está ‘completamente louco’.
EUA-Israel. Líbano provoca tensão

Os Estados Unidos são o aliado histórico de Israel. As relações entre Washington e Telavive, ainda que nem sempre tenham sido um mar de rosas, como nenhuma relação entre Estados é, sempre foram fortes. Tão fortes que levam especialistas – como foi o caso de John J. Mearshimer e Stephen Walt – a concluir que são o elemento central da política norte-americana para o Médio Oriente. Não só por «interesses estratégicos comuns ou (…) imperativos morais imperiosos», mas «principalmente [pelas] atividades do ‘lobby israelita’». O tema é complexo, carregado de nuances, mas a força da aliança é indisputável.

Mas, naturalmente, as políticas dos Estados dependem em boa medida de quem ocupa, em determinado momento, os lugares de topo do poder. E, nos últimos anos, ficou claro que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, preferia Donald Trump na Casa Branca que o seu sucessor, e ao mesmo tempo antecessor, Joe Biden. Na visita a Washington, D.C, em fevereiro do ano passado, Netanyahu chegou a afirmar que Trump «é o melhor amigo que Israel alguma vez teve na Casa Branca». Mas muita coisa acontece em 12 meses.

No passado mês de fevereiro, ambos uniram forças para atacar o regime iraniano, a grande ameaça regional à segurança de Israel. As palavras de Netanyahu no ano anterior estavam a materializar-se e Trump apoiou Israel numa ofensiva complexa e de sucesso incerto. Tão incerto que a situação acabou por complicar-se e a guerra ainda hoje se arrasta, tendo pelo meio causado efeitos negativos tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa. Trump, que fez do fim das intervenções externas uma das grandes bandeiras da sua reeleição, terá de enfrentar um eleitorado insatisfeito com a intervenção em breve. Os problemas da Europa são, mais que políticos, que também o são, económicos.

Não foi muito tempo depois de a primeira bomba ter sido largada em Teerão que os objetivos dos EUA e Israel se tornaram diferentes. Jordan Bardella, o presidente dos Patriotas e do Rassemblement National, disse em entrevista ao Nascer do SOL, no dia 24 de abril, que «os objetivos de Trump são erráticos, mas os interesses de Israel são perfeitamente compreensíveis. Israel, enquanto democracia praticamente única no Médio Oriente, está a travar uma guerra contra o Irão porque está a lutar pela sua própria segurança e pela segurança da sua nação. Mais uma vez, a posição americana é difícil de interpretar». Com o passar do tempo, as diferenças tornam-se cada vez mais visíveis. E audíveis.

O insulto

Donald Trump está a tentar salvar a face, forjando um acordo com o regime iraniano que lhe permita proclamar vitória. As negociações têm sido intensas, mas não têm chegado a bom porto. Quando o Presidente dos EUA anunciou um cessar-fogo, que acabaria por ser rejeitado por Teerão, em março, Netanyhu não ficou agradado com a possibilidade de paz e disse que «apesar do que é noticiado nos meios de comunicação social», a guerra iria «continuar com toda a força». O discurso não poderia ser mais diferente do de Donald Trump.

Na semana passada, Israel voltou a intensificar os seus ataques no Sul do Líbano independentemente dos esforços de Washington para o travar. Trump já havia travado um ataque israelita a Beirute, capital libanesa, e falado com Netanyahu e representantes do Hezbollah, tendo concordado que «todos os disparos cessarão». Não foi o caso. E o Irão continua a suspender as negociações com os EUA até que os ataques ao Líbano parem. Naturalmente, desta vez foi Donald Trump que ficou desagrado com Netanyahu. E, ao seu estilo, acabou por ofendê-lo.

Em declarações à Axios, dois responsáveis norte-americanos e uma terceira fonte a par da conversa entre o Presidente e o primeiro-ministro, revelaram algumas das palavras que Trump enviou a Netanyahu. A mais marcante foi a seguinte: «És completamente louco [fucking crazy, na versão original em inglês]. Estarias na prisão se não fosse por mim. Estou a salvar-te. Agora toda a gente te odeia. Toda a gente odeia Israel por causa disto». «Um responsável», continua o texto da Axios, «afirmou que esta foi uma das piores conversas telefónicas entre Trump e Netanyahu desde que este regressou ao cargo». É certamente difícil ficar pior que isto. Quanto à resposta de Netanyahu, «o segundo responsável norte-americano afirmou que, na realidade, Trump tinha ‘passado por cima’ de Netanyahu durante a chamada» e que «Bibi [alcunha de Netanyahu] disse: ‘OK, OK, certifica-te apenas de que tudo fica resolvido’».

Perspetivas de futuro

E ficará mesmo tudo resolvido? É incerto. E o próprio Presidente dos Estados Unidos reconhece isso.

Em entrevista ao New York Post, no podcast Pod Force One, Donald Trump voltou a frisar um dos objetivos principais da intervenção americana: «Tive de dizer que temos de fazer alguma coisa em relação ao Irão, porque, independentemente do nosso bom desempenho [económico], não podemos deixar que eles tenham uma arma nuclear». E deu também algumas indicações positivas das negociações, ao dizer que «eles já concordaram que não vão ter armas nucleares». Porém, nem tudo o que é dito por Teerão se escreve: «Quer dizer, agora podem mudar de ideias, mas essa foi uma das coisas que tiveram de aceitar, e concordaram com isso. Essa foi a questão principal».

À CNBC, um responsável iraniano disse que as palavras de Trump eram «enganosas», acrescentando que «o Irão é um membro de longa data do TNP, e o seu programa nuclear sempre foi exclusivamente pacífico». «O Irão nunca procurou armas nucleares», continuou, «e, por isso, não há nada de novo no facto de o Irão ‘ter concordado em não as possuir’».

Assim, o impasse mantém-se.