EUA-China. Escapar à armadilha de tucídides

Trump e Xi reforçaram a necessidade de cooperação porque, caso contrário, poderão cair numa armadilha milenar. Taiwan será a peça-chave do futuro da relação Washington-Pequim.
EUA-China. Escapar à armadilha de tucídides

Foi a ascensão de Atenas, e o medo que isso inspirou em Esparta, que tornou a guerra inevitável», concluiu Tucídides na sua obra História da Guerra do Peloponeso, publicada em 431 a.C. A Guerra do Peloponeso foi há mais de 2400 anos, mas as suas lições não deixam ter um forte eco na atualidade das relações entre Estados. A visita de Donald Trump à China marca mais uma reunião bilateral entre os líderes das duas superpotências do século XXI. E a China representa a potência que vem desafiar a outra que, até então, havia sido hegemónica, pelo menos desde o colapso da União Soviética, os Estados Unidos.

Esta rutura no equilíbrio de poder estabelecido levou o politólogo e professor norte-americano Graham Allison a realizar um exercício de história aplicada. Num ensaio que publicou na revista The Atlantic em setembro de 2015, intitulado A Armadilha de Tucídides: Estarão os EUA e a China a caminhar para a guerra?, Allison refere-se à capacidade que os Estados Unidos e a China terão, ou não, para evitarem a dita armadilha como a «questão determinante sobre a ordem global para esta geração». O texto mostra também os resultados de um estudo realizado por uma equipa, liderada por Allison, do Centro Belfer de Ciência e Assuntos Internacionais de Harvard, onde foram analisados todos os casos, ao longo dos últimos cinco séculos, em que uma grande potência emergente ameaçou destronar uma grande potência dominante. Conclusão: dos 16 casos avaliados, que começaram com a rivalidade entre Portugal e Espanha em finais do século XV, 12 acabaram em guerras que prejudicaram ambas as nações envolvidas. Então, «a julgar pelos registos históricos», escrevia há 11 anos o especialista, «é mais provável que haja guerra do que o contrário», ainda que essa possibilidade seja vista como improvável nos círculos políticos. E Xi Jinping sabe-o.

Para o encontro com Trump, o Presidente chinês também convidou Tucídides. «O mundo chegou a uma nova encruzilhada», disse Jinping, que depois se questionou quanto à capacidade de Washington e de Pequim para «ultrapassar a chamada Armadilha de Tucídides». Mas esta não foi a primeira vez que Xi aludiu ao historiador e general ateniense. Em 2015 disse que «não existe no mundo a chamada Armadilha de Tucídides. Mas se os principais países cometerem repetidamente erros de cálculo estratégico, poderão criar tais armadilhas para si próprios». De qualquer das formas, Xi parece estar a querer passar a mensagem que, se algo acontecer, a culpa não será de Pequim.

De volta à détente?

Talvez por terem consciência de que um conflito entre as duas potências dominantes não é inconcebível, a abordagem de ambas as lideranças foi cautelosa. Ainda a bordo do Air Force One, o avião presidencial, o secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional Marco Rubio disse que a China representa «o principal desafio político em termos geopolíticos», mas que, ao mesmo tempo, «é a relação mais importante que temos de gerir». «Teremos interesses nossos», acrescentou Rubio, «que entrarão em conflito com os interesses deles; para evitar guerras e manter a paz e a estabilidade no mundo, teremos de gerir essas relações». Também Donald Trump, já cara-a-cara com Xi Jinping, reforçou a necessidade de cooperação, chegando até a assumir-se como admirador da liderança do Presidente chinês. «Tivemos uma relação fantástica», disse o líder da Casa Branca. «E quando surgiram dificuldades», acrescentou, «conseguimos resolvê-las. [...] Sempre que tivemos um problema, resolvemo-lo muito rapidamente e vamos ter um futuro fantástico juntos».

O discurso de Xi foi menos pessoal, mas foi também no sentido da coexistência, podendo resumir-se nas seguintes palavras: «Devemos ser parceiros, não rivais. Devemos ajudar-nos mutuamente a ter sucesso e a prosperar juntos, e encontrar a forma correta de os principais países se darem bem uns com os outros nesta nova era». Assim, o reconhecimento de que existe realmente um risco considerável de ambos caírem na Armadilha de Tucídides não poderia ter ficado mais claro. Mas conseguirão evitar esse desfecho?

Para responder a esta questão, é necessário olhar para um estreito. Não para o de Ormuz, neste caso, mas para o de Taiwan. Taiwan é o ponto crucial que pode colocar as tentativas de forjar uma détente, como a que foi forjada por Richard Nixon e por Henry Kissinger na década de 1970, em xeque. Como escreveu o historiador escocês Niall Ferguson para o The Free Press, «Trump quer a détente. Xi quer Taiwan».

A crise de Taiwan

Ferguson escreveu ainda que a «Crise dos Semicondutores de Taiwan» será o «momento definidor da II Guerra Fria». Este texto foi escrito antes da reunião entre Xi e Trump no Grande Salão do Povo, em Pequim, e, tendo em consideração uma das declarações do líder chinês, Ferguson parece ter razão no seu argumento central. A China quer Taiwan. E Xi Jinping não podia ter sido mais claro: «A questão de Taiwan é o tema mais importante nas relações entre a China e os EUA». «Se for mal gerida», avisou ainda, «os dois países poderão enfrentar um confronto ou mesmo um conflito, levando toda uma relação sino-americana a uma situação altamente perigosa». «O Presidente Trump», acrescentou Niall Ferguson, «pensa que estamos novamente em 1972. Mas e se for 1962? Dez anos antes do ano da détente de Nixon, o seu arquirrival John F. Kennedy e Nikita Krushchev [secretário-geral da URSS] levaram o mundo à beira de Terceira Guerra Mundial na Crise dos Mísseis de Cuba». 

Voltando ao texto de Graham Allison: «Quando as partes evitaram a guerra, isso exigiu ajustes enormes e dolorosos nas atitudes e ações, não só por parte do desafiante, mas também do desafiado», porque «um risco associado à Armadilha de Tucídides é que o curso normal dos acontecimentos – e não apenas um evento inesperado e extraordinário – pode desencadear um conflito em grande escala». Por outras palavras, para que tudo continue como está, isto é, sem guerra, é necessário mudar muita coisa.

goncalo.nabeiro@nascerdosol.pt