sexta-feira, 17 abr. 2026

Estreito de Ormuz fechado divide NATO

Presidente dos EUA ameaça "futuro muito mau" para aliança se não enviarem navios. Rangel categórico: "Portugal não está nem vai estar envolvido". Irão controla rota de 21% do petróleo mundial e UE enfrenta "crise de preços"
Estreito de Ormuz fechado divide NATO

O fecho do Estreito de Ormuz pelo Irão está a provocar uma divisão profunda na NATO, com Donald Trump a ameaçar que a aliança terá "um futuro muito mau" se os países membros não enviarem navios de guerra para reabrir a via marítima que transporta 21% do petróleo mundial — mas Alemanha e Portugal recusam categoricamente participar.

Entretanto, a situação no estreito de Ormuz está a agravar-se, com a intensificação dos ataques e um navio tendo sido recentemente atacado, resultando na morte de quatro tripulantes.

A crise energética provocada pelo bloqueio já se faz sentir em Portugal, onde o preço do gasóleo subiu quase 20% desde 27 de fevereiro, apesar dos descontos fiscais do Governo. A Agência Internacional de Energia (AIE), que há poucos dias anunciou a libertação de 400 milhões de barris de reservas de emergência para acalmar os mercados de energia, afirma que pode liberar mais reservas, se necessário.

Esta segunda-feira, o Presidente dos EUA, Donald Trump, reafirmou que a guerra no Irão deverá terminar em breve, o que levará a uma queda acentuada nos preços do petróleo. As declarações foram feitas antes de uma conferência de imprensa, e resultaram num impacto imediato nos mercados energéticos, onde os preços do petróleo caíram quase 5%.

A crise no Médio Oriente está a repercutir-se em outras partes do mundo, com países como a China e o Japão a tomar medidas face ao conflito. A China instou ao fim das operações militares na região, enquanto o Japão anunciou a libertação das suas reservas estratégicas de petróleo mas recusou enviar navios de guerra para o estreito de Ormuz

Rangel: "Portugal não vai estar envolvido"

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, foi categórico: "Portugal não está, nem vai estar, envolvido neste conflito", afirmou em Bruxelas.

Questionado directamente se Portugal vai responder ao apelo de Trump, Rangel foi claro: "Não. Aquilo que eu posso dizer é que nós não vamos participar neste conflito, isso está muito claro desde o início".

Também a Alemanha considerou que a “guerra iniciada por Israel e Estados Unidos contra o Irão não tem nada a ver com a NATO", O porta-voz do Governo alemão, Stefan Kornelius, acrescentou que “a NATO é uma aliança para a defesa do território dos seus membros, e falta um mandato para envolver a NATO", sublinhando que o Estreito de Ormuz "está fora da área" da Aliança Atlântica.

UE propõe "modelo Mar Negro"

A alta-representante da UE revelou ter discutido com o secretário-geral da ONU, António Guterres, a criação de uma iniciativa internacional — à semelhança do acordo que permitiu exportar cereais da Ucrânia.

"O encerramento do Estreito de Ormuz é realmente perigoso", alertou Kaja Kallas, sublinhando impacto em fertilizantes e futura produção alimentar.

Ao mesmo tempo, Kallas isse na segunda-feira que iria propor a alteração do mandato da missão naval do bloco. A operação Aspides da UE foi criada em fevereiro de 2024 como uma operação defensiva na sequência de repetidos ataques dos Houthis, alinhados com o Irão, contra a navegação internacional.

O seu mandato consiste em "proteger os navios", salvaguardar a liberdade de navegação e "monitorizar a situação marítima no Estreito de Ormuz e nas águas circundantes, incluindo o Mar Vermelho, o Golfo de Aden, o Mar Arábico, o Golfo de Omã e o Golfo Pérsico", de acordo com o Conselho.

No entanto, o mandato pode ter de ser revisto para lidar com uma crise muito maior ao longo do Estreito de Ormuz. "É do nosso interesse manter o Estreito de Ormuz aberto", disse Kaja Kallas.