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Para Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol, esta semana bem que poderia ser apagada da memória coletiva. Como se o pior resultado eleitoral da história do PSOE desde 1977 não bastasse, as graves acusações da Justiça a José Luis Rodríguez Zapatero, ex-presidente do governo socialista, vieram selar mais um duro golpe num governo que há muito se colocou numa posição, no mínimo, desconfortável. A teia de corrupção que envolve o círculo político e familiar de Sánchez é cada vez mais densa e, tendo em conta alguns testemunhos de peso, o escândalo de Zapatero poderá mesmo ser a gota de água para um executivo que, além de resistir com uma maioria parlamentar contranatura, não aprova um orçamento do Estado há três anos.
Vejamos primeiro a débâcle eleitoral do passado domingo. Os eleitores andaluzes deram mais um sinal de mudança. Os resultados não foram substancialmente diferentes dos das eleições de 2022, mas foram suficientemente diferentes para alterar a arquitetura política da região. O Partido Popular manteve-se como a força mais votada (41,6% dos votos, 53 assentos parlamentares) a uma larga distância da segunda, o PSOE (22,71%, 28 assentos), com o Vox a cimentar o terceiro lugar (13,82%, 15 assentos). Mas o impacto desta ligeira variação não pode ser menosprezado. Os três deputados perdidos pelos populares retiram-lhe a maioria absoluta e o deputado conquistado pelo Vox confere-lhe o estatuto de decisivo para a formação dessa mesma maioria. Para o PSOE a derrota foi dura. Primeiro, porque a Andaluzia era um reduto histórico dos socialistas; depois, foi mais uma, e talvez a maior, aposta de Pedro Sánchez numas regionais, apresentando à cabeça María Jesús Montero, até então vice-primeira-ministra e ministra das Finanças.
As eleições regionais dos últimos seis meses apontam para uma tendência clara: o PP vence sem maioria absoluta, o PSOE cai, o Vox cresce. E estes resultados, a cerca de um ano das próximas eleições gerais, podem servir de barómetro nacional. A autocrítica da cúpula socialista é inexistente, mas já alguns barões e líderes locais do partido manifestaram o seu descontentamento para com o roteiro que tem vindo a ser seguido por Ferraz (sede do PSOE).
Do outro lado, o vencedor da noite, Juanma Moreno, enfrenta uma situação delicada que o líder do PP, Alberto Nuñez Feijóo, provavelmente também terá de resolver num futuro próximo. Sem maioria absoluta, terá de se sentar à mesa com o Vox, mas tentará manter as suas credenciais de baluarte da moderação ao formar um governo regional no qual apenas populares terão assento.
Mas estes dilemas estão nos antípodas dos que enfrenta o PSOE, partido de um governo em evidente declínio. E, tendo em conta as últimas notícias, os problemas só deverão agravar-se. Para Feijóo, os resultados andaluzes foram um «não, obrigado» dos eleitores ao legado de Sánchez, e «as cortinas de fumo», concluiu o líder popular, «já não funcionam, porque são eles que estão queimados».
Machadada final?
E quem contribuiu para aumentar a intensidade da fogueira foi José Luis Zapatero. O ex-primeiro-ministro espanhol, que mantém uma estreita ligação ao executivo atual, foi formalmente acusado pela Justiça de branqueamento de capitais, tráfico de influências, falsificação de documentos e de liderar a uma organização criminosa . O despacho de 88 páginas, como noticiou a Euronews, conclui que «o círculo de Zapatero terá recebido alegadas comissões ilegais de quase dois milhões de euros, posteriormente branqueadas através do que a decisão descreve como empresas fantasma, faturas fictícias e testas-de-ferro». A acusação mostra que Zapatero terá recebido em comissões cerca de 1 milhão e 500 mil euros, tendo as suas filhas recebido também um valor que ronda os 400 mil euros. «O suposto objetivo do enredo», explicou o jornalista Vicente Vallés, «seria conseguir, como finalmente conseguiram, os 53 milhões de euros do resgate da Plus Ultra [companhia aérea espanhola], e essa decisão tinha de ser adotada pelo governo (…) e foram desviados fundos para pagar comissões ilegais». E os Estados Unidos também tão envolvidos. Como escreveu o correspondente do ABC em Washington, David Alandete, a unidade norte-americana «especializada em crimes contra a segurança nacional», que já havia fornecido «ao ABC detalhes sobre uma transferência suspeita ligada à Plus Ultra», «afirma abertamente que está a cooperar com a Polícia Nacional na investigação sobre os ramos venezuelanos e norte-americanos da trama que envolve o ex-presidente [do governo]».
No próximo dia 2 de junho, Zapatero apresentar-se-á na Audiência Nacional. Um acontecimento histórico, porque será o primeiro líder do executivo de Espanha a sentar-se no banco dos réus.
Como se vê, as proporções do escândalo são enormes. Um dia após a publicação do despacho, Sánchez disse perante o Congresso dos Deputados que dá todo o seu apoio a Zapatero, o que lhe mereceu aplausos da sua bancada, enquanto teve de enfrentar uma oposição feroz. Feijóo disse que «basta ler o despacho para se dar conta de que sem o seu Conselho de Ministros o senhor Zapatero não poderia ter cometido os crimes. Nem ele, nem Ábalos, nem Santos Cerdán, nem o seu núcleo, ninguém. Essa é a chave de tudo». E Ábalos disse, desde a prisão, como notou o El Mundo na sua capa de ontem, que «se cai Zapatero, cai tudo». E pode mesmo cair.
Para o jurista Gonçalo Dorotea Cevada, a acusação formal de Zapatero no caso Plus Ultra «é politicamente devastadora para o PSOE. Não apenas pela gravidade objetiva dos factos e dos crimes em causa, mas porque atinge uma das figuras tutelares do sanchismo e deste socialismo espanhol». «Naturalmente», continua, «há presunção de inocência e a justiça deverá seguir o seu curso. Mas o dano político está feito: depois da derrota na Andaluzia, o PSOE deixa de parecer apenas um partido em dificuldades eleitorais e passa a parecer um partido cercado por escândalos e crimes». E o que deverá fazer o PP perante a derrocada do seu partido rival? Para Dorotea Cevada, a estratégia passa por «dar tempo ao tempo», deixando que «a Justiça faça o seu trabalho, que a verdade se apure e que o desgaste político se aprofunde» e, «em paralelo, apresentar um projeto de país». Porque o «PP não pode limitar-se a ser o partido que denuncia o sanchismo; tem de ser o partido que mostra que há vida política depois do sanchismo». «Por isso», concluiu o jurista, o PP deve demonstrar «firmeza total na oposição», mas não deve apresentar uma «moção de censura neste momento». Porque se «a primeira desgasta o governo», «a segunda poderia salvá-lo».