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Erika Hilton tem estado no centro da polémica após tentativas de boicote da oposição à sua eleição. Agora é oficial: Erika Hilton é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. É a primeira mulher trans a assumir o cargo.
A eleição ocorreu em duas voltas, de acordo com a Globo. Na primeira eleição, dos 22 votos, 10 foram a favor e 12 em branco, como forma de protesto contra Hilton. Na segunda volta, dos 21 votos, 11 foram favoráveis, elegendo a deputada.
A polémica em torno de Erika Hilton está relacionada com ser transgénero. Deputados contra a escolha de Hilton para o cargo argumentam que esta não vivenciou as mesmas experiências que mulheres cisgénero (mulheres cuja identidade de género corresponde ao seu sexo biológico).
No seu discurso após ser eleita, Erika Hilton garantiu preocupar-se com a "pluralidade" da Câmara, garantindo que um dos seus focos é a luta "contra a violência patriarcal e misoginia". "Eu espero que na pluralidade dos partidos que aqui compõem essa comissão não nos preocupemos com a condição de género da presidente da comissão da mulher. Mas que o que valha de facto sejam as problemáticas que precisamos de enfrentar no país", sublinhou.
Hilton reforça ainda a defesa perante mulheres travestis e transsexuais. "Queira ou não queira, mulheres travestis e transexuais não serão abandonadas nesta discussão e não me importa a vontade de quem quer que seja. Se antes esmagaram a nossa dignidade, este tempo acabou. Nós chegámos para ficar e para fazer uma reparação histórica", concluiu.
Após o discurso, várias outras deputadas tiveram oportunidade de falar. "Como posso eu ser representada por uma pessoa que não entende o que eu passo?", criticou Clarice Tércio.
No entanto, outras deputadas defenderam a agora presidente, acusando muitos daqueles discursos de "transfobia".
As críticas consideradas transfóbicas e a reação de Erika Hilton
A eleição de Erika Hilton levantou uma onda de reações fora do hemicírculo, inclusive do apresentador de televisão Carlos Massa, conhecido como "Ratinho", agora alvo de uma investigação do Ministério Público de São Paulo pela prática de transfobia.
"Podem espernear. Podem latir. (...) A opinião de transfóbicos e imbecis é a última coisa que me importa. Hoje fiz história por mim, que tive minha adolescência e minha dignidade roubada pelo preconceito e discriminação. Fiz história pela minha comunidade, que ainda enfrenta os piores índices em praticamente todos os aspectos da vida social", escreveu nas redes sociais.
"O discurso de Ratinho foi, sim, para me atacar e atacar as pessoas trans. Mas demonstrou a misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo", sublinhou.
O apresentador de televisão começou por dizer não ter nada contra a deputada, mas garante que a escolha foi "injusta". Referiu-se ainda a Erika como "deputada ou deputado, não sei" e afirmou que o nome escolhido para o cargo "deveria ter sido uma mulher". "Temos que ter inclusão, mas não vamos exagerar. Se for a um restaurante, se tiver um "casal normal", homem e mulher, eles ficam normais. Agora, se for dois homens ou duas mulheres, eles ficam a beijar-se para provocar os outros. É isso que não concordo, esses exageros", disse.
Além disso, Ratinho afirmou ainda que "para se ser mulher tem que ter útero e menstruar". De acordo com Erika, o raciocínio do apresentador é "retrógado".
A denúncia chegou rapidamente ao Ministério Público, que abriu uma investigação. "As declarações proferidas pelo apresentador não se limitaram a uma crítica política ou a um debate institucional acerca da atuação da parlamentar, mas consistiram na negação explícita da sua identidade de género e na afirmação reiterada de que ela não seria uma mulher. Esse elemento constitui o núcleo da conduta aqui narrada e evidencia o caráter discriminatório do discurso proferido", pode ler-se na denúncia.