quarta-feira, 22 jul. 2026

Epidemia de Ébola na RDCongo pode durar um ano e ainda não atingiu o pico

A epidemia de Ébola na República Democrática do Congo poderá prolongar-se por mais um ano e o pior ainda pode estar por vir. A Cruz Vermelha alerta para a falta de capacidade de diagnóstico e admite que os números oficiais podem estar longe da realidade
Epidemia de Ébola na RDCongo pode durar um ano e ainda não atingiu o pico

A epidemia de Ébola que afeta a República Democrática do Congo (RDCongo) poderá prolongar-se durante mais um ano e ainda não atingiu o seu pico de propagação, alertou esta terça-feira a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV).

O aviso foi deixado por Bruno Michon, diretor de operações da organização, durante uma conferência de imprensa em que manifestou preocupação com a evolução do surto.

“Tememos que esta epidemia dure ainda um ano antes de terminar”, afirmou o responsável, acrescentando que os indicadores atuais sugerem que o momento mais crítico da crise sanitária ainda está por chegar.

“Acredito que o pico não está atrás de nós, mas à nossa frente”, sublinhou, citado pela agência Lusa.

Falta de diagnóstico dificulta avaliação da propagação

Segundo a Cruz Vermelha, uma das principais dificuldades no combate ao surto prende-se com a escassez de meios de diagnóstico.

Bruno Michon explicou que existe uma “grave falta de capacidades de diagnóstico”, o que impede uma avaliação precisa da dimensão real da epidemia.

Esta limitação tem levado várias organizações humanitárias a alertar que o número de casos poderá ser significativamente superior aos dados oficiais divulgados pelas autoridades.

Mais de 800 casos e quase 200 mortes

A República Democrática do Congo declarou o surto de Ébola a 15 de maio. Trata-se do 17.º surto da doença registado no país africano, que conta com mais de 100 milhões de habitantes.

Dois dias depois, a Organização Mundial da Saúde declarou a situação como uma emergência de saúde internacional.

Segundo os dados mais recentes citados pela OMS, e fornecidos pelas autoridades congolesas, foram registados até agora 808 casos de infeção e 192 mortes.

Os números apontam para uma taxa de letalidade de cerca de 24%.

Contudo, a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras alertou recentemente que os dados oficiais poderão representar apenas uma parte da realidade epidemiológica no terreno.

Não existe vacina para a estirpe responsável pelo surto

O atual surto está associado à rara estirpe Bundibugyo do vírus Ébola.

Ao contrário de outras variantes da doença, para esta estirpe não existe atualmente qualquer vacina aprovada nem tratamento específico autorizado pelas autoridades de saúde.

Esta circunstância aumenta os desafios enfrentados pelas equipas médicas e humanitárias no controlo da propagação da doença.

Cruz Vermelha denuncia ameaças a voluntários

Além da emergência sanitária, a Cruz Vermelha denuncia dificuldades operacionais no terreno.

Segundo Bruno Michon, vários voluntários da Cruz Vermelha congolesa têm sido alvo de insultos, ameaças e até agressões físicas durante as ações de sensibilização e apoio às populações.

O responsável defendeu que o combate à epidemia não pode limitar-se à resposta médica.

“Para travar a epidemia, é preciso investir não só na resposta sanitária, mas também na confiança das populações, nos voluntários locais, no envolvimento das comunidades e no acesso operacional ao terreno”, afirmou.

O que é o vírus Ébola?

O vírus Ébola transmite-se através do contacto direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infetados.

A doença provoca febre hemorrágica grave e pode causar sintomas como febre alta, vómitos, diarreia, dores intensas e hemorragias internas e externas.

Considerada uma das doenças virais mais letais do mundo, o Ébola apresenta taxas de mortalidade elevadas, sobretudo quando o acesso a cuidados médicos é limitado.

As autoridades sanitárias e organizações internacionais continuam a acompanhar a evolução do surto, numa corrida contra o tempo para evitar uma expansão ainda maior da doença na República Democrática do Congo.