Os debates em torno da energia nuclear, sobretudo na Europa, despertam sempre algum fervor ideológico. Num tempo histórico em que as alterações climáticas consomem um espaço importante no topo do debate público e político, a questão energética é fundamental. Como podemos libertar-nos dos combustíveis fósseis?
As energias renováveis têm sido uma das principais apostas de vários países, mas parecem revelar-se insuficientes. É por isso que vários especialistas apontam para o caminho da energia nuclear. A EDF, por exemplo, avança cinco argumentos a favor deste tipo de energia: 1) «É uma fonte de energia com baixas emissões de carbono»; 2) «Tem uma pegada de carbono reduzida em comparação com alternativas como os combustíveis fósseis»; 3) «É fundamental para combater as alterações climáticas e alcançar o objetivo de emissões líquidas nulas»; 4) «É segura e fiável - fornecendo-nos energia independentemente das condições meteorológica»; 5) «Os países que utilizam em conjunto a energia nuclear e as energias renováveis são os que têm mais sucesso no combate às alterações climáticas». A World Nuclear Association vai mais longe: «Sendo a única fonte de energia de baixo carbono comprovada, escalável e fiável, a energia nuclear terá de desempenhar um papel fundamental para que o mundo consiga reduzir a sua dependência dos combustíveis fósseis, com vista a combater as alterações climáticas e a poluição atmosférica crónica». «Ao expandir a sua utilização», escreve a associação num estudo publicado em 2024, «é possível fornecer energia moderna e acessível a todos aqueles que atualmente não têm acesso a ela, reduzindo simultaneamente o impacto humano no ambiente natural e garantindo que a capacidade do mundo para cumprir os seus outros objetivos de desenvolvimento sustentável não seja».
Mas a Europa, que quer liderar o combate às alterações climáticas pelo exemplo, reduziu consideravelmente o seu investimento em energia nuclear nos últimos, algo que a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen reconheceu como sendo um «erro estratégico» no passado dia 10 de março num discurso perante a Cimeira de Energia Nuclear em Paris. A Alemanha, reconhecida como o motor económico do continente, é o caso mais flagrante deste desinvestimento, tendo encerrado todas as suas infraestruturas nucleares num processo que começou em 2011 - quando Angela Merkel era chanceler e Von der Leyen ministra - e culminou em 2023 com o fecho dos reatores nucleares Isar 2, Emsland, e Neckarwestheim 2. Por outro lado, é a China que regista o maior crescimento a este respeito.
«Os preços da eletricidade na Europa são estruturalmente muito altos», começou por dizer a líder da Comissão na sua intervenção. «A energia nuclear é fiável», continuou, porque fornece «eletricidade durante todo o ano, 24 horas por dia. Por isso, o sistema mais eficiente combina a energia nuclear com as energias renováveis e assenta no armazenamento, na flexibilidade e nas redes de distribuição. A segunda razão é que a Europa tem sido pioneira na tecnologia nuclear e poderia, mais uma vez, liderar o mundo neste domínio. Os reatores nucleares de próxima geração poderiam tornar-se um produto de exportação europeu de alta tecnologia e elevado valor. E é isso que nos traz hoje a Paris». Após elencar algumas das iniciativas mais recentes da UE em matéria de energia nuclear, Von der Leyen disse que, ainda assim, e «após anos de investimento em declínio», «precisamos de mais para inverter a tendência» e apresentou a nova Estratégia Europeia para Reatores Modulares Pequenos. O objetivo «é simples»: «Queremos que esta nova tecnologia esteja operacional na Europa no início da década de 2030, para que possa desempenhar um papel fundamental ao lado dos reatores nucleares tradicionais, num sistema energético flexível, seguro e eficiente».
Ainda assim, o chanceler alemão, Friedrich Merz, diz que reverter a política alemã é uma tarefa difícil de concretizar após o encerramento de todas as centrais. «Lamento isto», disse o líder do Executivo, «mas é assim que as coisas são, e agora estamos a concentrar-nos na política energética que temos».