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Durante cinco dias, as famílias de oito jovens desaparecidos em Daule, cidade agrícola próxima de Guayaquil, no Equador, recusaram-se a perder a esperança. Na noite de quinta-feira, nas instalações de Medicina Legal de Guayaquil, essa esperança desmoronou. As autoridades confirmaram que os oito corpos encontrados dentro de sacos de juta numa zona rural, a cerca de 150 quilómetros das suas casas, pertenciam aos seus filhos, irmãos, maridos e amigos. Tinham saído no domingo, 1 de junho, em quatro motocicletas, com destino a Milagro, uma cidade a menos de uma hora de distância. Não voltaram.
O que aconteceu aos oito jovens de Daule?
Os relatórios forenses determinaram que os jovens morreram com tiros na cabeça. Os investigadores concluíram ainda que o local onde os corpos foram encontrados não corresponde ao local original do crime, o que aponta para que os cadáveres tenham sido transportados após os assassínios.
Milagro é um dos principais centros comerciais da província de Guayas e tornou-se num território disputado por grupos ligados ao narcotráfico. De acordo com o El País, as autoridades acreditam que os jovens foram capturados por membros de uma estrutura criminal que controla parte da cidade e que os confundiu com integrantes de um grupo rival. Um bilhete encontrado junto aos corpos sugere que se tratou de um ataque do grupo Los Lobos contra os Los Choneros, duas das principais organizações criminosas do Equador. Nenhuma das vítimas tinha antecedentes criminais ou processos judiciais em aberto.
Quem eram as vítimas?
Ali cresceram Anthony Martínez Sánchez, de 23 anos; Juan Carlos Martínez Sánchez, de 24; Roy Miller Martínez Bajaña, de 15; Jackson Geral Castro Oramas, de 17; Ariel Stalin Ponce Vera, de 20; Ricardo Arturo Castro Bajaña, de 28; Yeremi Arístides Castro López, de 23; e Andy Santiago Sáenz Figueroa, de 31.
Alguns eram irmãos. Outros, primos. Todos se conheciam desde crianças. Partilhavam apelidos, trabalhos e uma rotina marcada pelas lides do campo. Trabalhavam na colheita do arroz, na limpeza de terrenos e no transporte de produtos. Para dois deles, que já eram pais, o trabalho informal era a única forma de sustentar a família numa zona onde as oportunidades escasseiam.
Um velório que parou uma cidade
Na madrugada de sexta-feira, centenas de pessoas reuniram-se numa explanada de terra e pedras para o velório coletivo. Os oito caixões, embrulhados em plástico para impedir que fossem abertos, foram colocados lado a lado, cada um identificado com uma fotografia com rostos jovens e sorridentes. Coroas de flores rodeavam os caixões. Familiares, amigos e vizinhos desfilaram durante horas. Havia mães abraçadas, jovens que não conseguiam conter as lágrimas e crianças que observavam sem compreender a dimensão da tragédia.
Um país a afundar-se na violência
O massacre ocorre num contexto em que o Governo do presidente Daniel Noboa insiste que a violência diminuiu. Segundo as autoridades, os dois recolheres obrigatórios noturnos implementados terão reduzido os homicídios em 17%. Mas o Equador bateu o seu recorde de homicídios em 2025, com mais de 9.200 casos, e a violência das organizações criminosas continua a transformar a vida quotidiana em vastas zonas da costa do país.
O que antes eram disputas entre grupos armados confinadas a determinados bairros alargou-se a estradas, zonas rurais e pequenas cidades, onde a população fica presa entre fronteiras invisíveis impostas pelos gangues.
A Polícia anunciou uma recompensa para quem forneça informações que permitam identificar e capturar os responsáveis. Para as famílias, porém, a prioridade era outra. Esta sexta-feira começaram a enterrar os seus mortos.