terça-feira, 21 jul. 2026

Edgar Morin. Aproveitar o erro, ligar-se à resistência

1921-2026. Foi na Resistência que Morin fez a escola e sempre lhe foi fiel.
Edgar Morin. Aproveitar o erro, ligar-se à resistência

Tem de reconhecer-se uma firmeza extraordinária num homem que acolhe um erro como sobrenome, sendo que o ‘Morin’, pseudónimo que assumiu na clandestinidade, no período da Resistência, durante a II Guerra, surgiu de um desvio, quando à camarada que o pôs por escrito escapou a referência a Magnin, que remetia para A Esperança, de André Malraux. Edgar não quis corrigi-la, preferindo acatar a variação que o acaso introduz. Na sua vida, deixou-se sempre guiar por um instinto que o fazia escutar o inesperado, rompendo com as conveniências, dando provas de uma lucidez e sagacidade, de uma enorme capacidade de se adaptar que não era o mesmo do que sujeitar-se à disciplina, antes pelo contrário. Vinha antes da noção de que o pensamento é uma resistência, um modo de ir a contrapelo. Absorvendo as tensões da contemporaneidade, nunca se furtou a assumir uma posição difícil, resistindo às lógicas totalitárias, desde logo naquilo que estas implicam no que toca a fazer subordinar a realidade a um dispositivo de força e poder. Soube persistir até ao fim e preservar aquele perfil de um intelectual público total, sem se refugiar na segurança asséptica de uma especialização, antes arriscando qualquer favor numa leitura consequente das ameaças actuais. Posicionou-se contra os populismos e a violência política, mas também contra o nacionalismo, contra a colonização israelita da Palestina e dos países à volta, contra a degradação ambiental, contra a hegemonia do lucro e a desigualdade crescente, contra a estupidez e todos os enganos que alimentam divisões e nos conduzem à impotência. «Chegou o tempo de uma nova resistência!», chegou a anunciar em julho de 2024 no Libération. Aos 102 anos, exortava a tomar «o partido de Eros, a potência criadora, contra Pólemos e Tanatos, a guerra e a pulsão de morte». Reconhecia o perigo tremendo do mundo actual e procurava gerar ânimo para resistir «às mentiras, às ilusões, às histerias colectivas sobre as quais a extrema-direita cavalga» em todo o mundo.

Este filósofo nasce na resposta à calamidade do poder, à fúria com que a política invadia as existências no século XX, como o apanhou ainda na adolescência, confrontando-o com a ocupação nazi da França. Ao integrar os grupos da resistência, essa foi a sua verdadeira escola, tendo colhido ali um exemplo de audácia e fervor, uma indisciplina constitutiva, que depois o nortearia sempre nos confrontos intelectuais. O obituário do Le Monde destacava entre as suas declarações a este respeito umas palavras que deixam bem claro como estava consciente desse enraizamento no próprio combate: «Que teria eu sido sem a Resistência? Teria tido uma carreira? Graças à Resistência tive uma vida».

Comunista durante a guerra, logo rompeu com o estalinismo, vindo a afirmar-se, como destaca aquele diário, enquanto «sociólogo do presente, profeta do futuro, metafísico da era global». Edgar Morin morreu na sexta-feira, 29 de maio, aos 104 anos. Parecia ter convertido a morte em sua leitora, alcançando não a imortalidade, que corresponde a uma ideia de grandeza, implicando uma projecção mítica e um fundo religioso, mas a «amortalidade», um conceito que ele mesmo introduziu numa obra de 1951, L’homme et la mort, no qual se dedicava a «uma profunda reflexão sobre a concepção da morte desde as sociedades arcaicas», diz-nos António Guerreiro, sendo que «a amortalidade designa a ausência de morte natural ou por envelhecimento, significa que a ciência poderia fazer recuar a morte por um tempo indefinido».

Tinha boas razões para esperar dele ainda outros sobressaltos, a morte, sua leitora, uma vez que segurou essa extirpe em vias de extinção, a dos intelectuais, continuando a escrever, de forma infatigável, obras que iluminaram o pensamento sem espartilhos nem essa maneira de ver o mundo, como ele lhe chamava, pré-cozinhada pelos grandes meios de comunicação ocidentais. Assim, mantinha-se implicado, leal a um sentido de vida ou morte, de urgência fenomenal, como se o tempo não soubesse como introduzir-se nele, infectá-lo, devastar-lhe a intimidade e o propósito. Ele que conheceu e conviveu com todos os grandes resistentes, os grandes intelectuais e essas figuras que tiveram a definição e condução da política nas últimas largas décadas, resistiu desde logo a tornar-se cínico, e esse brio «humanista» que todos lhe reconheceram, preservou-o por nunca ter manifestado as suas posições como quem virasse costas, mostrando-se enojado da humanidade. Pelo contrário, manteve-se sempre vigilante em relação aos sinais desse estupor e decadência que avança à medida que as sombras do determinismo e do fatalismo envenenam o espírito. Parecia estar imune mesmo àquela lucidez que calcula as probabilidades do fracasso. Assim, ele que se considerava um «optipessimista», não renunciava a essa inversão que permite um golpe de rins no momento mais desesperado, dizendo que mantinha «a esperança num contexto de desesperança». Isto é: quanto mais graves os riscos de crise, maiores as hipóteses de encontrar soluções. Deste modo, pode preservar a frescura e o entusiasmo intactos.

É na sua origem que está, em grande medida, o desenho desse conflito essencial que marcou todo o seu percurso, uma vez que a própria vida só lhe foi dada contra todas as probabilidades. Como relata o obituário do Le Monde, quando Edgar Nahoum nasce em Paris, a 8 de Julho de 1921, no seio de uma família judaica oriunda de Tessalónica (Grécia), os seus primeiros minutos ficaram suspensos entre a vida e a morte. A mãe, Luna, escondera ao marido, Vidal, que os médicos lhe tinham proibido uma gravidez devido a uma afecção cardíaca provocada pela gripe espanhola que contraíra em 1917. Salvo pela obstinação de um médico que o fustigou até lhe arrancar o primeiro sopro, tanto ele como a mãe sobreviveram, unidos por uma adoração recíproca e inabalável. Vidal Nahoum e Luna Beressi decidiram então desafiar a tradição mórbida de o baptizar com os nomes dos avós falecidos e deram-lhe o nome de Edgar, numa homenagem ao historiador e político republicano Edgar Quinet. Mas a morte ficou latente, e viria a dar-lhe um golpe devastador e sem qualquer aviso. A 26 de junho de 1931, quando estava prestes a completar dez anos, a mãe morre de ataque cardíaco. Como diria mais tarde, isto significou para ele um «Hiroxima interior». A partir desse momento teve de «viver pela morte, morrer pela vida», segundo a fórmula de Heraclito que fez sua.

Não foi só a perda da mãe, o seu «astro protector», mas ter de engolir o silêncio com que o pai e a família envolveram essa perda, tentando impedir que consumisse inteiramente a infância de Edgar. O que acontece é que, por não encontrar espaço para ver reconhecida a dimensão daquela catástrofe, acabou por cavar em si mesmo um abismo de incompreensão que demoraria décadas a fechar-se. Assim, aquele livro que publicaria em 1951, sinalizou essa forma como a morte ocupou o lugar da mãe, e, por isso, nunca foi para ele uma abstração teórica, mas algo com uma presença física, violenta, que roubava o calor do mundo. Nesta ferida primordial reside a génese do ensaio seminal (L’Homme et la Mort), em que Morin tenta domesticar intelectualmente o monstro que lhe devastou a infância.

Tal como o sobrenome que adoptou, incorporando essa intuição de que o acaso e o erro são elementos fundamentais na produção da realidade, Morin sempre reclamou o desenraizamento, uma identidade múltipla ou até variante, ao sabor dessa confluência de tempos e origens misturadas, o francês, o espanhol, o italiano (por parte da mãe), no fundo, aquilo que fazia dele um ser propriamente europeu. Avesso à rigidez disciplinar, definiu-se também como um «filósofo selvagem», procurando preservar a virgindade do olhar. Assim, a filosofia permitia-se esse assalto transdisciplinar precisamente de modo a esquivar-se a um qualquer sistema que o encerrasse num conjunto de dogmas, preferindo um pensamento «biodegradável», pronto a ser superado pela própria evolução do real.

Desta identidade aberta e inquisitiva, desapegada de uma lógica de imposição e triunfo, emerge a relação com o judaísmo laico, sobre a qual se deteve num livro publicado em 2006, Le Monde moderne et la question juive, em que Morin coloca a sua condição de judeu a par da de «gentio», ou seja, formado no interior da cultura europeia moderna e humanista. Aí, como nos diz Guerreiro, confessa que é completamente estranho «a qualquer ideia de povo eleito» e revela-se muito crítico do governo israelita. Essa obra prenuncia a denúncia que veio a constituir o seu derradeiro testemunho, tendo-se pronunciado sem margem para qualquer ambiguidade, como fora o caso de outras luminárias da cultura europeia, como Jürgen Habermas, o filósofo alemão desaparecido em março, tendo publicado no ano passado um panfleto em que interroga no título: Y a-t-il des leçons de l’Histoire? E a lição da História que retira da devastação e do genocídio em Gaza é esta: «Não basta ter sido perseguido para não se tornar persecutor».