Edward, Dominic, Marie-Nicole e Aldo Cascio são os quatro irmãos que moveram agora um processo judicial contra os representantes legais do património de Michael Jackson. As acusações baseiam-se em abusos sexuais repetitivos ao longo de mais de uma década, quando ainda eram crianças. Além disso, relatam que alguns dos abusos aconteceram nas casas de Elton John e Elizabeth Taylor.
Os quatro faziam parte da conhecida "segunda família" de Jackson e revelam agora que foram sujeitos a anos de abusos sexuais, muitas vezes sob o efeito de álcool e drogas. Eram menores, com idades a partir dos sete anos.
Os advogados que representam o património do rei da pop negam veemente todas as acusações e acrescentam que a família Cascio sempre defendeu Jackson de todas as acusações semelhantes que têm surgido nos últimos anos. Marty Singer, um dos adovgados, classifica mesmo o processo como "uma tentativa desesperada de ganhar dinheiro". “A família defendeu Michael Jackson com firmeza durante mais de 25 anos, atestando a sua inocência em relação a condutas inapropriadas”, disse Singer ao L.A. Times. “Este novo processo é uma tática transparente de forum shopping no seu esquema para obter centenas de milhões de dólares do espólio e das empresas de Michael", acrescenta.
Singer recorda ainda testemunhos anteriores dos mesmos irmãos que contradizem o que estão agora a alegar.
As acusações a Michael Jackson
A relação com a família Cascio remonta à década de 1980, quando o cantor ficou num hotel de luxo em Nova Iorque onde trabalhava o pai dos irmãos Cascio, Dominic Cascio Sénior. De acordo com o processo judicial, citado pelo L.A. Times, Jackson aproximou-se da família com “atenção obsessiva, presentes luxuosos, acesso ao seu estilo de vida de celebridade e declarações de que os amava e de que precisava de cada um deles”. Michael Jackson convidava regularmente a família para viajar pelo mundo consigo e passava datas importantes, como o Dia de Ação de Graças, o natal e o seu aniversário junto deles.
O documento da acusação detalha as ações de Michael Jackson até chegar aos abusos: usava frases codificadas como “Posso ter uma reunião”, “Yogi Tea”, “Neverland” e “Ir à Disney” para incentivar as crianças a praticarem "atos sexuais extrempa" com ele. Dava-lhes ainda vinho, que dezia ser "sumo de Jesus" e outras bebidas espirituosas, a que chamava "sumo da Disney" e usava drogas para alegadamente tornar as crianças mais obedientes.
O artista é acusado de violar e abusar sexualmente de Edward Cascio na casa de Elizabet Taylor, na Suíça, bem como na casa de Elton John, no Reino Unido. Além disso, abusava alegadamente dos quatro irmãos em paragens de digressões, assim como na sua propriedade de Santa Barbara, o Rancho Neverland, que foi central na realização do documentário "Leaving Neverland", onde duas alegadas vítimas, Wade Robson e James Safechuck, detalham os abusos pelos quais acusam Michael Jackson.
Muitas vezes, em hóteis, reservava quartos longe dos pais das crianças para não se aperceberem do tempo que passava com eles. Ali, mostrava-lhes pornografia e fotografias de crianças nuas para os "dessenbilizar" e garantia que as suas vidas seriam destruídas se alguém soubesse o que ali acontecia. “Disse-lhes para se manterem afastados de terapeutas e evitarem mulheres, que considerava ‘más’, ‘ardilosas’, ‘mentirosas’ e que podiam ‘cheirar’ se algo de sexual tivesse acontecido”, afirma o processo.
A relação da família Cascio com o cantor tornou-se pública quando apareceram no programa Oprah, em 2010. Durante a emissão, mostraram-se relutantes em falar mas afirmaram querer "mostrar ao mundo quem Michael realmente era", garantindo que não acreditavam nas acusações de que era alvo. Singer, o advogado, usou este programa para contradizer as acusações mais recentes da família. "Infelizmente, na vida e na morte, os talentos e o sucesso de Michael continuam a torná-lo um alvo", disse.
Sabe-se ainda que, em 2019, os irmãos assinaram um acordo confidencial, comprometendo-se a manter o silêncio acerca da relação que mantinham com o cantor. Esse acordo previa que o espólio pagasse a cada irmão cinco pagamentos anuais de cerca de 690.000 dólares (quase 600 mil euros) como compensação “pelos muitos anos em que Jackson abusou de cada um deles e a Jackson Organization encobriu e permitiu os abusos”, segundo o processo.
Neste processo, os irmãos contestam o acordo, alegando terem sido coagidos a concordar. "O documento continha uma cláusula que supostamente libertava o espólio de responsabilidade pelos crimes de Jackson, proibindo os autores de reportarem os crimes às autoridades ou de dizerem algo negativo sobre Jackson, ou responsabilizar o espólio em tribunal pelos atos dele”, afirma o processo.
Singer volta a contestar as alegações dos irmãos, garantindo que foi a família Cascio que ameaçou apresentar acusações opostas às que já tinham prestado caso não recebesse milhões de dólares.
Os quatro irmãos pedem agora ao tribunal indemnizações financeiras pelas alegações de abuso e encobrimento, além da anulação do acordo de 2019.