A Moderada: Delcy Rodríguez, Vice-Presidente», foi assim que o New York Times (NYT) abriu o capítulo sobre a então vice-presidente de Nicolás Maduro no início de dezembro do ano passado. Com as pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a crescerem de dia para dia, a queda de Maduro parecia cada vez mais próximas. E é nesta peça que um dos jornais mais conhecidos dos EUA escreve que «a líder económica do Sr. Maduro, Delcy Rodríguez, seria a primeira na linha de sucessão para o substituir caso ele renunciasse ou ficasse incapacitado, de acordo com a Constituição Venezuelana». «Como presidente interina», continua o texto, «a Sra. Rodríguez seria obrigada a realizar novas eleições, embora o momento dependesse de quando o Sr. Maduro renunciasse».
Ora, Maduro não renunciou, mas os Estados Unidos incapacitaram-no. E, realmente, Rodríguez assumiu as rédeas do país quando a possibilidade de elevar a oposição ao regime chavista, liderada por María Corina Machado e Edmundo González Urrutia, ao poder ainda não tinha sido descartada por Trump (que rapidamente descartou). E como Maduro foi retirado de Miraflores à força por uma potência externa, não será Delcy Rodríguez a decidir se ou quando se marcam novas eleições.
Mas é no parágrafo seguinte que o artigo do NYT fica mais interessante: «Relativamente moderada, Rodríguez é a arquiteta de uma reforma favorável ao mercado que estabilizou a economia venezuelana após um colapso prolongado». «A sua privatização dos ativos estatais e a política fiscal conservadora deixaram Maduro mais bem preparado para resistir a esta ronda de pressão económica por parte de Trump». A utilização do advérbio de modo antes do adjetivo por parte do jornalista do NYT não deve ter sido um mero floreado estilístico. Poderá ser moderada quando o termo de comparação é Nicolás Maduro ou Diosdado Cabello, mas quem foi um dos principais rostos de um regime como o chavista e quem diz que a intervenção americana que resultou na captura de Maduro tem «tonalidade sionista», dificilmente poderá encontrar repouso no espetro da moderação.
Raízes e ascensão
As suas inclinações políticas terão sido o fruto de uma árvore cujas raízes estão fixadas no ambiente familiar. Delcy Rodríguez nasceu na capital venezuelana em 1969, filha de Jorge Antonio Rodríguez, um nome ligado ao movimento socialista venezuelano. Jorge Antonio foi acusado, em 1976, de ter raptado o americano William Niehous, executivo da Owens-Illinois, uma empresa americana que produz embalagens de vidro. Niehous esteve em cativeiro durante três anos e quatro meses. Na sequência deste caso, o pai de Delcy Rodríguez foi detido e, de acordo com a enciclopédia Britannica, foi «alegadamente torturado até à morte».
Delcy estudou direito na Venezuela e depois passou cerca de uma década na Europa, dividindo os seus estudos entre a França e o Reino Unido, antes de entrar na vida política. Com Hugo Chávez ao leme, Rodríguez ocupou diversos cargos, sendo que o de vice-ministra dos assuntos europeus é o que mais se destaca. Mas foi com Maduro que chegou ao topo. Ministra da Comunicação e Informação entre 2013 e 2014, Ministra das Relações Exteriores entre 2014 e 2017 e presidente da Assembleia Nacional de 2017 a 2018, ano em que Maduro a promoveu à vice-presidência, cargo que ocupou até à intervenção americana. Rodríguez, que nas palavras de Maduro é uma «tigresa» e uma «uma jovem corajosa, experiente, filha de um mártir, revolucionária e testada em mil batalhas», acumulou ainda as posições de ministra da Economia e Finanças (2020) e ministra do Petróleo (2024).
O futuro
Rodríguez é a herdeira de Maduro. Mas recebeu uma herança envenenada e é provável que seja a última líder do regime chavista na Venezuela. E, mesmo assim, não usufrui, de todo, do poder que os seus antecessores um dia usufruíram. Ao explicar o plano em três fases que os Estados Unidos elaboraram para a Venezuela, o Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, deixou claro o papel das autoridades interinas: «O resultado é que existe agora um processo em vigor que nos dá um enorme controlo e influência sobre o que essas autoridades provisórias estão a fazer e são capazes de fazer». O próprio Donald Trump avisou, pouco depois da captura de Maduro, que Delcy Rodríguez deve respeitar as ordens de Washington: «Se ela não fizer o que é certo, vai pagar um preço muito alto, talvez mais alto do que Maduro».
O plano americano passa pela estabilidade, recuperação e transição, com o petróleo e as relações entre Caracas e os rivais geoestratégicos dos EUA a ocupar uma posição central nestas primeiras fases, onde Rodríguez é vista como fundamental para não forçar uma rutura total com o antigo regime. Mas a sua posição parece meramente passageira, sendo que no processo de transição, no qual se prevê a realização de eleições verdadeiramente livres, é provável que a democracia volte à Venezuela.