terça-feira, 18 ago. 2026

"Declarações xenófobas". Perceba, ponto por ponto, a polémica das palavras de Rajoy sobre a seleção francesa

As afirmações do antigo primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy sobre a seleção francesa desencadearam uma onda de críticas em Espanha e França. Pedro Sánchez acusou o seu antecessor de fazer "declarações xenófobas" e vários membros do Governo francês classificaram as palavras como "absolutamente inaceitáveis".
"Declarações xenófobas". Perceba, ponto por ponto, a polémica das palavras de Rajoy sobre a seleção francesa

As declarações de Mariano Rajoy sobre a seleção francesa transformaram-se num caso político que já ultrapassou o futebol e provocou trocas de acusações entre responsáveis espanhóis e franceses, poucos dias antes da meia-final do Mundial entre os dois países.

Eis os principais pontos da polémica.

O que disse Mariano Rajoy?

Numa coluna de opinião publicada no jornal El Debate, o antigo primeiro-ministro espanhol elogiou a qualidade da seleção francesa, mas escreveu uma frase que rapidamente gerou indignação.

"Sem entrar em muitos detalhes, vale lembrar que França foi bicampeã mundial e finalista na última edição. Venceu todas as partidas que disputou neste Campeonato do Mundo e atualmente ocupa o primeiro lugar no ranking da FIFA. Além disso, possui um elenco de alto nível. Dito isso, não tem nenhum jogador francês. E está a jogar muito bem. Será um adversário formidável".

A referência aos jogadores franceses, muitos deles descendentes de imigrantes ou nascidos no estrangeiro, foi interpretada por vários responsáveis políticos como uma negação da sua nacionalidade.

Como reagiu Espanha?

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, respondeu diretamente a Rajoy através da rede social X, classificando as afirmações como "declarações xenófobas".

"Nunca faltam aqueles que medem a pertença pelo apelido, pelo local de nascimento ou pela cor da pele. Outros medem-na pelo compromisso com um país e pela vontade de contribuir para ele. Jogando futebol. Cuidando dos nossos idosos. Abrindo empresas."

Sánchez acrescentou que "Espanha pertence a quem a ama e trabalha por ela" e não "a quem a envergonha com declarações xenófobas".

A mensagem terminou com uma referência ao jogo entre Espanha e França.

"França, encontramo-nos nas meias-finais. Que ganhe o melhor e que perca o racismo".

Também o ministro dos Transportes, Óscar Puente, atacou Rajoy, chamando-lhe "racista" e "idiota pós-franquista corrupto".

Qual foi a resposta de França?

A embaixada de França em Madrid lembrou que "todos os jogadores da seleção francesa são franceses" e acrescentou que "dos 26 jogadores, 23 nasceram em França", sendo os restantes igualmente cidadãos franceses.

Já o ministro francês do Interior, Laurent Nuñez, considerou que as declarações são "absolutamente inaceitáveis".

"Se essa declaração for verdadeira, é absolutamente inaceitável. Não reflete, em absoluto, o que é a França."

O governante sublinhou ainda que "a França é um país diverso em que toda a gente pode desenvolver-se" e "uma República em que toda a gente pode encontrar o seu lugar".

Também a ministra responsável pela Igualdade entre Mulheres e Homens, Aurore Bergé, denunciou "repetidos deslizes racistas" que classificou como "intoleráveis".

Por sua vez, a ministra dos Territórios Ultramarinos, Naïma Moutchou, defendeu que a Federação Francesa de Futebol deve ponderar "todas as medidas legais adequadas" relativamente às declarações do antigo governante espanhol.

Como reagiram os partidos franceses?

O líder do Partido Socialista francês, Olivier Faure, respondeu que "a equipa francesa só tem franceses" e recordou que França "não é uma nação étnica, não tem cor de pele nem religião", mas sim "uma nação política unida em torno do lema republicano".

Já o secretário nacional do Partido Comunista Francês, Fabien Roussel, acusou Rajoy de recorrer a "um racismo flagrante" numa tentativa de atacar "a nossa maravilhosa equipa francesa".

Porque é que a polémica ganhou dimensão?

A controvérsia surgiu na véspera da meia-final do Mundial entre Espanha e França, envolvendo diretamente dois governos e vários dirigentes políticos dos dois países.

O episódio acabou por transformar um comentário sobre futebol num debate sobre nacionalidade, identidade e racismo, levando as declarações de Rajoy a serem classificadas por vários responsáveis como xenófobas e reacendendo a discussão sobre a diversidade da seleção francesa.