O mundo atravessa uma fase de reconfiguração. O sistema criado na ressaca da II Guerra Mundial está cada vez mais reduzido ao estatuto de memória e o poder puro e duro reaparece como o princípio orientador das relações internacionais. É precisamente com o objetivo de colocar os grandes temas globais em cima da mesa que o Fórum Económico Mundial (FEM) organiza uma cimeira anual, juntando num mesmo espaço um leque extenso de líderes políticos, empresariais, académicos e da sociedade civil.
Como é já habitual, o sítio escolhido é Davos, uma cidade com pouco mais de 10 mil habitantes nos Alpes suíços. A estância de ski, as paisagens, a exclusividade e discrição são os elementos que caracterizam a pequena localidade no Leste da Suíça. Mas a discrição esbate-se a cada janeiro, com todos os holofotes a recaírem sobre os grandes protagonistas da arena mundial. E em 2026, dadas as circunstâncias, as luzes são ainda mais fortes. É sob o lema «Um Espírito de Diálogo» que os intervenientes se reúnem «em Davos para participar de discussões prospetivas com o objetivo de abordar questões globais e definir prioridades».
A questão da Gronelândia
Um dos temas quentes da atualidade é a Gronelândia. Cobiçada pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem reforçado a importância estratégica da ilha gelada para a segurança nacional norte-americana, e defendida pela Dinamarca e por vários aliados europeus, a ilha localizada no Ártico foi um tema inevitável na Suíça.
Trump chegou com um enquadramento acordado com o Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, e aliviou as tensões que se vinham acumulando nas últimas semanas. «Provavelmente não obteremos nada [da NATO]», disse Trump, «a menos que eu decida usar força e violência excessivas, o que nos tornaria, francamente, imparáveis». «Mas não o farei. Esta foi provavelmente a minha afirmação mais forte, porque as pessoas pensavam que eu iria usar a força. Não preciso usar a força. Não quero usar a força. Não vou usar a força», disse o líder da Casa Branca, descartando uma guerra aberta entre as forças aliadas. Esta garantia foi acompanhada de outra: não serão impostas tarifas aos aliados europeus, um instrumento de pressão que Trump ameaçou utilizar a partir de fevereiro.
Este apaziguamento acontece na sequência do acordo entre os EUA e a NATO antes mencionado. Um «conceito de acordo» que Trump considera «muito bom para os Estados Unidos, também para [os aliados], e vamos trabalhar juntos em algo relacionado com o Ártico como um todo, mas também com a Gronelândia. E tem a ver com segurança, grande segurança, forte segurança e outras coisas».
Após as garantias de Trump, a porta-voz da NATO, Allison Hart, disse que o processo para garantir a segurança da região passará pelos «esforços coletivos dos Aliados, especialmente os sete aliados do Ártico». A declaração de Lars Løkke Rasmussen, ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, publicada na quarta-feira na rede social X, aponta também no sentido da cooperação: «O dia está a terminar melhor do que começou. Congratulamo-nos com o facto de o presidente dos Estados Unidos ter descartado a conquista da Gronelândia pela força e suspendido a guerra comercial. Agora, vamos sentar-nos e descobrir como podemos abordar as preocupações americanas em matéria de segurança no Ártico, respeitando as linhas vermelhas do Reino da Dinamarca».
O Conselho da Paz
Mas o prato principal da quinquagésima sexta cimeira do FEM foi o Conselho da Paz para Gaza apresentado por Trump, tendo sido já assinado ontem por vários países que aceitaram o convite do presidente norte-americano. A intenção de criar uma instituição à margem das organizações multilaterais criadas no pós-guerra (com principal destaque para a ONU), cristaliza-se no preâmbulo: «Declarando que uma paz duradoura requer julgamento pragmático, soluções sensatas e a coragem de abandonar abordagens e instituições que muitas vezes falharam (…), [e]nfatizando a necessidade de um órgão internacional de construção da paz mais ágil e eficaz, (…) [a]s Partes adotam, por meio deste, a Carta do Conselho da Paz».
A missão do Conselho será, de acordo com o texto oficial, «promover a estabilidade, restaurar uma governação fiável e legítima e garantir uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos». Mais, o «Conselho da Paz desempenhará essas funções de construção da paz de acordo com o direito internacional e conforme aprovado nos termos da presente Carta, incluindo o desenvolvimento e a divulgação das melhores práticas que possam ser aplicadas por todas as nações e comunidades que procuram a paz». Mas o que torna o Conselho da Paz realmente distinto de outras instituições é a questão da divisão, ou falta dela, do poder e as condições para a adesão. Apenas países que recebam o convite de Donald Trump, o presidente do Conselho, exercerão um mandato «não superior a três anos a partir da entrada em vigor da presente Carta, sujeito a renovação pelo Presidente. O mandato de três anos não se aplica aos Estados-Membros que contribuam com mais de mil milhões de dólares americanos em fundos em dinheiro para o Conselho da Paz no primeiro ano após a entrada em vigor da Carta». No Conselho Executivo estarão também presentes Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, Steve Witkoff, enviado especial de Trump, Jared Kushner, genro de Trump, Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, Marc Rowan, CEO da Apollo, Ajay Banga, presidente do Banco Mundial, e Robert Gabriel, conselheiro de segurança.
Muitas dúvidas continuam no ar quanto aos participantes – Trump convidou Vladimir Putin –, mas a cerimónia de assinatura que teve ontem lugar já dissipou algumas. Bahrein, Marrocos, Argentina, Arménia, Azerbaijão, Bulgária, Hungria, Indonésia, Jordânia, Cazaquistão, Kosovo, Paquistão, Paraguai, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Uzbequistão e Mongólia marcaram presença na cerimónia de assinatura. Os aliados europeus não compareceram e ainda estão reticentes. Portugal, que também foi convidado, seguiu o caminho dos parceiros europeus, junto dos quais fará consultas sobre a situação. Mais informações sobre a decisão de Lisboa não estão disponíveis de momento.
Por isto, parece seguro afirmar que estamos perante a criação de um novo modelo de organização internacional, uma dinâmica de rutura face ao sistema criado no pós-II Guerra Mundial. Ainda assim, Vasco Rato, professor de Relações Internacionais na Universidade Lusófona e autor do livro Tsunami – Trump, Trumpismo e a Europa, não acredita que a criação do Conselho da Paz seja «o último prego [no caixão da Ordem Liberal Internacional]», mesmo revelando «a intenção de esvaziar as instituições multilaterais que, nas últimas décadas, foram pilares da ordem liberal. Eis um objetivo partilhado pela Rússia e pela China». Mas, não obstante o objetivo partilhado, é «altamente improvável» que estas duas potências aceitem os moldes propostos pelo Presidente dos EUA. «A proposta de governança do Conselho sugere que será um instrumento de poder pessoal de Trump», acrescenta o professor universitário, concluindo que é precisamente neste ponto que reside «o calcanhar de Aquiles da proposta». Quanto à possível capacidade de resolução de questões mais complexas, algo que o Conselho de Segurança das Nações Unidas não tem demonstrado, Vasco Rato acredita que o Conselho da Paz a possa «vir a ter, mas falta-lhe legitimidade. Dito isto, pode ser um mecanismo para resolver problemas pontuais». «Neste momento», conclui, «não sabemos, até porque muito dependerá dos países que venham a aderir ao Conselho».