terça-feira, 18 ago. 2026

Daniel Siad. O fim de um elo

Num dos emails divulgados escreveu: ‘Nesta agitação, sinto-me como um pescador: às vezes pesco rápido, outras vezes não pesco nada’
Daniel Siad. O fim de um elo

1957-2026. Era um recrutador investigado no caso Epstein. A sua morte leva consigo muitas respostas.

Daniel Siad, antigo recrutador de modelos franco-argelino investigado pelas autoridades francesas devido às suas ligações ao norte-americano Jeffrey Epstein, foi encontrado morto na sua residência, em Colombes, nos arredores de Paris. Tinha 69 anos. A morte foi confirmada pelas autoridades francesas e determina o arquivamento dos processos-crime que pendiam contra Siad. No entanto, a investigação à alegada rede de tráfico de seres humanos associada a Epstein prossegue.

Nascido na Argélia e com nacionalidade francesa, Siad construiu carreira na indústria da moda como olheiro e caça-talentos. Ao longo de mais de uma década, manteve uma relação profissional com Jeffrey Epstein, sendo suspeito de ter recrutado jovens mulheres para o financista norte-americano.

O escrutínio sobre Siad intensificou-se após a divulgação de milhares de documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos relacionados com o caso Epstein. O seu nome surgia referido mais de mil vezes nesses registos, onde várias mensagens sugeriam que desempenhava um papel relevante no recrutamento de contactos para Epstein.

Num dos emails divulgados, escrito em inglês e com vários erros ortográficos, Siad escreveu: «Nesta agitação, sinto-me como um pescador: às vezes pesco rápido, outras vezes não pesco nada».

Na sequência dessas revelações, a justiça francesa abriu um inquérito por suspeitas de violação, abuso sexual e tráfico organizado de seres humanos. Até à data da sua morte, Siad não tinha sido detido nem constituído arguido. Segundo o Ministério Público de Paris, os elementos recolhidos através de escutas telefónicas e de outras diligências de investigação ainda não justificavam medidas de coação mais gravosas.

Antes de morrer, Siad rejeitou sempre qualquer envolvimento em atividades criminosas. Sustentava que a sua relação com Epstein era exclusivamente profissional e que desconhecia os abusos sexuais cometidos pelo financista. «Nunca violei ninguém na vida», disse recentemente ao canal BFMTV.

As circunstâncias da morte

O corpo de Daniel Siad foi encontrado na cozinha da casa onde vivia, por uma mulher de 28 anos que residia consigo. A advogada de Siad, Meyna Arab-Tigrine, afirmou que a morte terá resultado de uma paragem cardíaca, alegando que o cliente vivia sob forte pressão psicológica enquanto aguardava o desenrolar do processo judicial.

Ainda assim, o Tribunal Judicial de Nanterre abriu um inquérito para apurar as causas da morte e ordenou a realização de uma autópsia, que revelou não existirem sinais de violência.

Embora a morte de Siad extinga o procedimento criminal contra si, o Ministério Público francês sublinhou que as investigações destinadas a identificar outros eventuais envolvidos na alegada rede de tráfico humano continuam em curso.

A morte de Daniel Siad antes de prestar declarações formais ou de responder em tribunal volta a colocar em evidência um padrão que marcou vários protagonistas do caso Epstein: suspeitos ou alegados cúmplices que morreram antes da conclusão dos respetivos processos judiciais.

Um dos casos mais conhecidos é o de Jean-Luc Brunel. O agente de modelos francês acusado de violar menores e de recrutar jovens mulheres para Epstein foi encontrado morto na cela onde se encontrava em prisão preventiva, na prisão de La Santé, em Paris, em fevereiro de 2022. As autoridades concluíram que morreu por enforcamento.

Tal como aconteceu com o próprio Jeffrey Epstein e, agora, com Daniel Siad, a sua morte impediu que o processo chegasse a julgamento, frustrando as expectativas das alegadas vítimas.

A morte de Daniel Siad encerra um dos processos diretamente ligados à investigação europeia do caso Epstein, mas deixa por esclarecer o eventual alcance da rede de recrutamento que as autoridades acreditam ter funcionado durante vários anos.

É, pelo menos, para essa direção que apontam as várias reações à sua morte de quem diz ter sofrido nas suas mãos.

«Não temos palavras para descrever a raiva e a tristeza que sentimos», disseram os advogados da primeira ex-modelo que apresentou queixa contra Daniel Siad, acrescentando que as clientes serão «agora serão privadas de um julgamento criminal».

Os mesmos advogados, citados pela BBC, disseram sentir «uma enorme revolta contra o Ministério Público de Paris», que, segundo as suas palavras, «anunciou em fevereiro que abriria uma investigação sobre possíveis cúmplices franceses de Jeffrey Epstein». Falam em inação «escandalosa» e dizem que o facto de nunca ter acontecido nada «demonstra o desprezo das autoridades públicas pelas vítimas de crimes sexuais, mesmo quando esses crimes estão ligados à rede de tráfico de pessoas criada por Epstein e pelos seus cúmplices».

«Um elo importante da cadeia acaba de desaparecer no ar, sem que sequer tenha havido a oportunidade de recuperar as informações que Daniel Siad poderia ter», acusou uma das ex-modelos denunciantes.

E as críticas continuam: «É profundamente lamentável que a lentidão da investigação o tenha levado à morte antes mesmo dele poder ser interrogado... privando assim as vítimas de uma etapa crucial», disse Anne-Claire Le Jeune, advogada de seis vítimas.

Recorde-se que o mesmo aconteceu com o nome principal de toda esta teia. Jeffrey Epstein morreu em 2019 numa prisão de Nova Iorque enquanto aguardava julgamento por acusações relacionadas ao tráfico sexual.