quarta-feira, 15 abr. 2026

"Consegui abusar dela, mas não ficou suficientemente inconsciente". A rede online de abusos que persiste após o caso Pelicot

Dicas de como abusar das mulheres e vídeos destas adormecidas para "não sentirem nada". O site do marido de Pelicot já não existe, mas muitos outros substituem-no.
"Consegui abusar dela, mas não ficou suficientemente inconsciente". A rede online de abusos que persiste após o caso Pelicot

O caso de Dominique Pelicot, que foi drogada e violada mais de 200 vezes por 70 homens a pedido do marido durante décadas, chocou o mundo e trouxe a público formas de "abuso facilitado" até então pouco exploradas.

O site de encontros onde o marido de Dominique conseguiu contactar dezenas de outros homens para violarem a sua então esposa foi abaixo: mas os grupos que promovem esta prática continuam a surgir e a tornar cada vez mais mulheres em vítimas.

A investigação da CNN Internacional denuncia o site pornográfico "Motherless" com mais de 20 mil vídeos com conteúdo "sleep" (sono, em português) num grupo intitulado "Zzz". O que implica? Vídeos de mulheres inconscientes a serem violadas. Os vídeos têm centenas de milhares de visualizações.

O próprio site descreve-se como um "servidor de ficheiros sem moral, onde tudo o que é legal é alojado para sempre", de acordo com a CNN.

O conteúdo implica várias extensões: "passedout" (desmaiada, em português) ou "eyecheck" (verificação ocular, em português). Esta última mostra vídeos de homens a abrirem as pálpebras das mulheres à força para mostrar que estas estão adormecidas e que "não se lembrarão de nada". Dentro destas comunidades, os utilizadores trocam "dicas" de como drogar as suas mulheres.

A CNN Internacional divulgou algumas das mensagens a que teve acesso, inclusive de utilizadores que falam num "batido". "Ela ficou enjoada, então dei-lhe um comprimido de "Imodium". Consegui abusar dela, mas não ficou suficientemente inconsciente", pode ler-se.

Além deste, há ainda um outro utilizador que admite gerir um negócio de "venda de líquidos para dormir": uma garrafa custaria 150 euros. "A tua mulher não vai sentir nem lembrar-se de nada", garante.

Os conteúdos são publicados em grupos com centenas de utilizadores e muitos implicam o pagamento para assistir a abusos em direto. Todos os utilizadores neste grupo, que normaliza o abuso, são protegidos pelo anonimato.

A CNN refere ainda uma vítima, Zoe Watts, que descobriu que o marido lhe colocava medicamentos no chá e a violava inconsciente. “Preocupamo-nos com estranhos na rua… mas não com quem dorme ao nosso lado. Eu não sabia que devia”, lamentou. “Disse-me que colocava medicação no meu chá, amarrava-me, tirava fotos e violava-me", explicou a confissão do ex-marido. O homem foi condenado a 11 anos de prisão.

“Há vergonha e culpa… como se eu devesse ter percebido", admite.

Uma outra vítima, Amanda Stanhope, revelou que durante anos acordava com nódoas negras sem saber porquê. "Ele dizia que eu estava a imaginar, que era louca", explica.

No entanto, revela que foi difícil utilizar os vídeos como prova: “A polícia disse que não era prova clara porque parecia que eu fingia dormir”, explicou. O homem foi acusado, mas suicidou-se antes do julgamento.

A terceira vítima revelada é Valentina, italiana, que descobriu os vídeos gravados pelo marido. "Eu era como carne num matadouro", disse. O ex-marido foi condenado a oito anos de prisão.

Especialistas explicam que certos tipos de pornografia normalizam a violência contra mulheres e que estes homens criam um "sentimento de irmandade" que reforça os comportamentos abusivos. Alertam ainda para a propagação destes grupos por falta de responsabilização das plataformas.

A dimensão desta rede é difícil de medir, mas sabe-se que usam medicamentos cada vez mais difíceis de detetar. À medida que as técnicas ficam mais sofisticadas, a investigação torna-se cada vez mais importante, mas também mais complexa. A formação de profissionais de saúde e forças de segurança deve acompanhar a evolução das técnicas para garantir que as vítimas estão protegidas no momento em que recorrem à denúncia.