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Uma alteração significativa na circulação de calor nos oceanos está a colocar em risco as plataformas de gelo que rodeiam a Antártida, segundo um estudo liderado pela Universidade de Cambridge divulgado esta terça-feira.
A investigação, realizada em colaboração com a Universidade da Califórnia, analisou dados recolhidos ao longo de duas décadas por navios e dispositivos robóticos. Os resultados mostram que a chamada água profunda circumpolar — uma massa relativamente quente — se expandiu e avançou em direção à plataforma continental antártica.
Até agora, a escassez de dados dificultava a identificação desta tendência de aquecimento. No entanto, as novas medições confirmam uma mudança que preocupa a comunidade científica. “É preocupante, porque esta água quente pode fluir sob as plataformas de gelo antárticas, derretendo-as por baixo e desestabilizando-as”, alertou Joshua Lanham, autor principal do estudo.
As plataformas de gelo desempenham um papel crítico na estabilidade do continente gelado, funcionando como barreiras naturais que travam o avanço das calotes polares e dos glaciares. Em conjunto, estas massas de gelo armazenam água doce suficiente para elevar o nível médio do mar em cerca de 58 metros.
Os investigadores destacam que esta é a primeira vez que a mudança de temperatura é observada de forma clara, confirmando previsões de modelos climáticos que apontavam para este cenário devido ao aquecimento global.
Grande parte dos novos dados resulta da rede global Argo, composta por flutuadores autónomos que monitorizam continuamente o oceano. Estes registos, mais detalhados e consistentes, contrastam com medições anteriores, mais espaçadas e limitadas.
“No passado, as massas de gelo estavam protegidas por uma camada de água fria. Agora parece que a circulação do oceano mudou, como se alguém tivesse aberto a torneira da água quente”, explicou Sarah Purkey, uma das autoras do estudo.
Os cientistas recordam que mais de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global é absorvido pelos oceanos, sendo o Oceano Antártico um dos principais reservatórios desse calor.
As implicações desta descoberta vão além da Antártida. Segundo Ali Mashayek, também autor do estudo, alterações na distribuição de calor nesta região podem afetar todo o sistema climático global.
No centro destas preocupações está a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), uma corrente oceânica fundamental que transporta calor dos trópicos para o Atlântico Norte e ajuda a regular o clima na Europa.
Os modelos climáticos já indicavam que o aumento das temperaturas e a entrada de água doce proveniente do degelo poderiam enfraquecer este sistema. Agora, os cientistas alertam que estas mudanças já não são apenas projeções: estão em curso e são observáveis.
O estudo reforça assim a urgência de monitorizar as alterações nos oceanos e de compreender melhor os seus efeitos no equilíbrio climático global, num momento em que os sinais de transformação se tornam cada vez mais evidentes.