segunda-feira, 09 fev. 2026

Cilia Flores. A ex-primeira-combatente

Flores esforçou-se sempre para passar a imagem esposa-suporte, algo que conseguiu com sucesso. Mas esta imagem projetada para o exterior não invalida o facto de ter sido extremamente influente no exercício de poder por parte do marido. Mais, encaixa na categoria das mulheres que, superiorizando-se em muitos aspetos ao seu marido, se remetem à sombra, algo que choca com a visão ocidental de liberdade e progresso
Cilia Flores. A ex-primeira-combatente

A política internacional entrou no novo ano a todo o gás. Os Estados Unidos intervieram militarmente na Venezuela e o resultado foi a detenção do líder do regime chavista, Nicolás Maduro. Os soldados da Delta Force americana entraram no Palácio de Miraflores durante a madrugada, apanhando de surpresa o sucessor de Hugo Chávez, que dormia. Junto a ele estava a sua esposa, Cilia Flores, que teve o mesmo destino que o marido. Foi capturada e transportada para os Estados Unidos onde também enfrentará a Justiça norte-americana. Mas Cilia Flores é mais que esposa de Maduro. Era, também e sobretudo, uma das principais caras do regime que se instalou na Venezuela há vinte e cinco anos.

Cilita, como lhe chama o marido, é uma figura incontornável do chavismo. Nascida em Tinanquillo há setenta anos, formou-se em direito na Universidade de Santa María em Caracas. Um background académico que acabaria por se revelar de extrema importância para o sucesso da revolução bolivariana – movimento liderado por Chávez. Após a tentativa de golpe de estado falhada em 1992 contra o então presidente Carlos Andrés Pérez, a prisão foi o destino do socialista e a assistência de Cilia Flores foi fundamental durante este período. Por esta altura, Maduro era um sindicalista que se ocupava em defender o líder revolucionário. Chávez acabaria por ser libertado dois anos mais tarde e a porta do poder começava a abrir-se para os socialistas, que acabariam por entrar em 1999.

O seu estatuto enquanto peça-chave do regime foi-se consolidando e, um ano após a eleição para um segundo mandato enquanto deputada em 2005, foi a escolhida para assumir a presidência da Assembleia Nacional. Pelo meio, foi chefe do grupo parlamentar bolivariano e liderou a Contraloría Geral da República, um órgão responsável pelo controlo da transparência e aplicação dos recursos do Estado. 

Na sombra

Através desta breve nota curricular, parece seguro afirmar que Cilia Flores nunca foi uma mera jarra decorativa em Miraflores desde que “assumiu” o cargo de primeira-dama. Ou, como Maduro gostava de dizer, primeira-combatente revolucionária, talvez porque primeira-dama possa ser um título demasiado ocidentalizado e, consequentemente, mau. Mas antes de dar o nó com Maduro ainda passou brevemente pela liderança da Procuradoria-Geral em 2012. Em abril de 2013, Maduro foi o escolhido para suceder a Chávez após a sua morte e, apenas três meses depois, abandona a mais alta instância de Justiça e junta-se ao herdeiro revolucionário. Seria a primeira-combatente até à detenção no início deste ano.

Cilita esforçou-se sempre para passar a imagem esposa-suporte, algo que conseguiu com sucesso. Chegou até, como escreveu Tom Bennet na BBC, a apresentar «um programa de TV, Con Cilia en Familia, e fez aparições ocasionais na televisão estatal para dançar salsa com o marido». Mas esta imagem projetada para o exterior não invalida o facto de ter sido extremamente influente no exercício de poder por parte do marido. Mais, encaixa na categoria das mulheres que, superiorizando-se em muitos aspetos ao seu marido, se remetem à sombra, algo que choca com a visão ocidental de liberdade e progresso. «Ela aceita esse papel que a torna invisível», disse uma ativista feminista sob a condição de anonimato ao El Mundo, «porque, além disso, não seria a primeira vez que uma mulher tem as ideias, define a estratégia, mas o rosto visível é o do marido. Por mais que Maduro se esforce, todo o mundo político sabe que ela é a cabeça pensante. Ela está sempre cinco passos à frente». Na mesma peça, o correspondente do diário espanhol em Caracas, Daniel Lozano, para além de mencionar o «nepotismo puro» e o escândalo dos sobrinhos de Cilia que iriam aproveitar as instalações presidenciais em Maiquetá para traficar oitocentos quilogramas de cocaína para os Estados Unidos, cita o sociólogo e especialista em propaganda chavista Gianni Finco, que aprofunda esta questão: «Flores assumiu o papel de primeira-dama em sintonia com o machismo ambiental de um país refratário às ideologias liberais e progressistas. Silenciosa, discreta, sempre direcionando os olhares e as câmaras para o marido, incapaz de cometer um deslize além da perda da dentadura ao vivo e em direto. Cilia é apresentada por Maduro com o diminutivo de Cilita, a mãe, a avó, a conselheira, o amor da sua vida, a ex-funcionária policial e a mente mais perspicaz do seu círculo». Outro testemunho importante, e que vai no mesmo sentido dos outros, incluído no texto de Lozano é o de Carmen Beatriz Fernández, consultora e especialista em ciberpolítica: «De facto, Cilia continua a ser muito importante, fundamental. Enquanto a grande virtude de Maduro é fingir-se de tolo, a grande virtude de Cilia é fingir-se de recatada e rir das piadas do marido, bem diferente do que ela realmente é. Cilia é uma mulher inteligente, sabe exercer o poder e gosta de o fazer». 

O último combate?

Assim, a cabeça que ajudou Maduro em todas as suas ações por cerca de doze anos, terá agora mais um combate. Desta vez não para fazer avançar ou perpetuar o regime venezuelano, mas sim para tentar defender-se perante a Justiça dos EUA por todas as responsabilidades que tem nos efeitos provocados pelo mesmo. 

Flores, Maduro e o filho, Nicolás Maduro Guerra, enfrentam várias acusações, sendo as mais notáveis as de tráfico de droga e posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos. O casal declarou-se inocente na primeira vez que se apresentou em tribunal e aguarda-se pelo desfecho do caso.

Foi assim, com uma intervenção militar americana que durou pouco mais de duas horas, que uma das personagens fortes do regime chavista, a nove meses de cumprir setenta anos, caiu. Tendo sempre ocupado altos cargos nos últimos vinte anos, agora Cilia Flores é apenas a ex-primeira-combatente revolucionária.