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Um dos motivos para o ataque de Israel e Estados Unidos ao Irão baseia-se, segundo especialistas, no receio de expansão de influência do Teerão no Médio Oriente, além do armamento nuclear.
O Irão possui um dos maiores arsenais de mísseis do Médio Oriente, com mais de três mil mísseis balísticos, de acordo com uma estimativa de 2022 do Comando Central dos EUA. No entanto, o seu arsenal é extremamente convencional: não dispõe de armas nucleares, o receio dos seus inimigos, nem de um míssil balístico intercontinental, estando os seus mísseis restritos a um alcance de dois mil quilómetros.
Com um arsenal convencional, o Irão entra neste conflito com outra fragilidade: o desgaste da Guerra dos 12 dias em junho do ano passado. Nessa altura, Israel destruiu grande parte do equipamento que permite lançar mísseis.
De forma a combater (ou atenuar) estas fragilidades, o Irão usou outra estratégia, agora explicada pelo jornal espanhol El País: as "cidades de mísseis".
O que são "cidades de mísseis"
O termo designa bases subterrâneas escavadas nas montanhas do Irão a grande profundidade, de acordo com o analista militar Guillermo Pulido, citado pelo mesmo jornal. As instalações, espalhadas por todo o país, estão preparadas para albergar mísseis de longo alcance. Dos cerca de três mil mísseis, segundo Pulido, “cerca de 2.000 podem atingir outros países do Médio Oriente”.
A maior cidade de mísseis, de acordo com o El País, é Khorramabad, na província iraniana de Lorestan. Esta funciona como local de armazenamento e lançamento de mísseis superfície e de cruzeiro e já tinha sido atacada em junho do ano passado por Israel.
Desde sábado, primeiro dia da Operação "Fúria Épica", o Irão já atingiu com mísseis Israel, Bahrein, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Jordânia e Arábia Saudita (países aliados de Washington).
Embora o Teerão já tenha utilizado centenas de mísseis para responder aos ataques da guerra dos 12 dias, acredita-se que não só tenha produzido mais, como ainda tenha várias munições para manter o conflito aceso. Além disso, o Irão controla o tráfego da maior rota marítima do mundo, o estreito de Ormuz, estando também a tirar proveito disso. No segundo dia de conflito foi registado o primeiro ataque direto a um petroleiro naquele estreito, do qual resultou um morto.
Contudo, o analista sublinha que a eficácia da resposta iraniana dependerá se Israel e os EUA tiveram danificado ou destruído as "bases a partir das quais os mísseis são lançados".
"Se Israel e os Estados Unidos conseguirem danificar as facilmente identificáveis entradas e saídas destas cidades subterrâneas, ou as aberturas por onde os projéteis são lançados, estas cidades de mísseis transformar-se-ão em sepulturas", explica Pulido. No sábado, o exército israelita anunciou que atingiu uma base na zona de Tabriz, a segunda maior "cidade de mísseis" a partir da qual "estavam previstos o lançamento de dezenas de mísseis contra Israel”. Nessa base, estavam armazenados mísseis com alcance para chegar aos países mais orientais da Europa.
A região de Terrão alberga vários locais de lançamento e centros de comando, como as bases de Kenesht e Bakhtaran, estrategicamente posicionadas para atingir alvos em Israel e no Golfo, como se tem verificado. Além destas, a província central de Isfahan acolhe o maior centro de montagem e produção de mísseis do país, segundo a Nuclear Threat Initiative.
“Atacar essas bases não é muito complicado”, sublinha Guillermo Pulido, "mas enquanto os ataques israelitas e norte-americanos não conseguirem destruir os veículos lançadores, o Irão manterá a capacidade de causar danos”, continuou. "A chave desta guerra", conclui o analista militar Jesús Pérez Triana, estará “na informação de inteligência para localizar e destruir essas cidades de mísseis”.