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A China é o principal desafio à ofensiva económica lançada pelos Estados Unidos contra o Irão, numa altura em que Washington procura aumentar a pressão sobre Teerão sem colocar em risco a frágil trégua comercial com Pequim.
A China é o maior parceiro comercial do Irão e o principal comprador do petróleo iraniano, recebendo mais de 80% das exportações de crude do país, embora uma parte significativa seja comercializada através de canais indiretos.
O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, anunciou na segunda-feira a operação “Economic Outcast”, destinada a intensificar a pressão sobre as ligações financeiras do Irão em todo o mundo.
No entanto, Washington evitou revelar medidas específicas contra Pequim, numa altura em que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deverá receber o homólogo chinês, Xi Jinping, em setembro.
O encontro pretende preservar a atual trégua comercial entre as duas maiores economias mundiais.
Washington evita confronto direto com Pequim
“O anúncio foi muito cuidadoso ao evitar pormenores [sobre medidas contra a China], que poderiam ter provocado perturbações na cimeira”, afirmou Edgard Kagan, especialista em China do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, citado pela Associated Press.
Segundo o analista, os Estados Unidos terão agora de decidir até onde podem pressionar a China para reduzir as relações económicas com o Irão sem levar Pequim a considerar as exigências norte-americanas inaceitáveis.
A resposta chinesa surgiu através do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
“A cooperação entre a China e o Irão não deve ser perturbada nem prejudicada”, afirmou o porta-voz da diplomacia chinesa, Lin Jian, reiterando a oposição de Pequim a “sanções unilaterais ilegais”.
A China sustenta que a cooperação com Teerão decorre “no quadro do direito internacional”.
Pequim poderá contornar algumas sanções
Edgard Kagan considera que a China deverá procurar evitar um confronto direto com Washington, fazendo apenas as concessões necessárias para reduzir a pressão norte-americana.
Entre as práticas que poderão continuar estão as transferências de petróleo entre navios, que dificultam a identificação da origem do crude e podem permitir contornar algumas sanções.
Sun Yun, diretora do programa para a China do Stimson Center, considera que Pequim não apoiará uma campanha norte-americana que tenha como objetivo destruir a economia iraniana e provocar o colapso do regime.
Por outro lado, se a estratégia de Washington passar por pressionar Teerão a fazer concessões sobre o Estreito de Ormuz e terminar o conflito, a China poderá mostrar alguma cooperação sem cortar completamente os seus laços económicos com o Irão.
Uma eventual redução das importações de petróleo iraniano seria, nesse cenário, uma das possibilidades.
“Com a cimeira Trump-Xi a poucas semanas de distância, nenhum dos lados deseja uma grande escalada bilateral neste momento”, afirmou Sun Yun.
EUA já sancionaram empresas ligadas ao Irão
Apesar da cautela em relação a Pequim, a administração Trump já começou a atingir entidades chinesas e de Hong Kong relacionadas com a economia iraniana.
O Departamento do Tesouro norte-americano anunciou na segunda-feira sanções contra cerca de 60 entidades ligadas ao Irão, incluindo indivíduos e empresas na China continental e em Hong Kong que Washington acusa de apoiar os programas nuclear e de mísseis de Teerão.
Os Estados Unidos sancionaram também um petroleiro de propriedade chinesa, acusado de transportar milhões de barris de petróleo iraniano para a China.
Uma empresa sediada em Hong Kong foi igualmente alvo de sanções por alegada ligação à chamada “frota fantasma”, utilizada para exportar petróleo iraniano.
Até agora, contudo, Washington tem evitado atingir grandes empresas ou bancos chineses diretamente ligados ao sistema financeiro norte-americano.
Trump poderá voltar à China em novembro
A questão iraniana poderá tornar-se um dos temas delicados da relação entre Washington e Pequim nas próximas semanas.
O encontro entre Trump e Xi está previsto para setembro e poderá servir também para preparar uma eventual visita do Presidente norte-americano à China em novembro, por ocasião da cimeira de líderes do Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC).
A margem de manobra de Washington é, contudo, limitada: pressionar demasiado a China para cortar relações económicas com o Irão poderá comprometer a própria relação comercial que Trump tenta estabilizar com Pequim.