Há dois julgamentos a decorrer em torno de Lindsay Clancy.
Um acontece numa sala do Tribunal Superior de Plymouth, em Massachusetts, onde um júri terá de determinar se Lindsay Clancy pode ser considerada criminalmente responsável pela morte dos três filhos.
O outro acontece diariamente nas redes sociais.
No TikTok, no Instagram e noutras plataformas, milhares de pessoas analisam imagens do julgamento, ampliam documentos, discutem os testemunhos dos especialistas e tentam reconstruir os últimos minutos antes da morte de Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan, de oito meses.
Alguns chegam a conclusões que não fazem parte da acusação nem da defesa. Outros questionam a versão apresentada pela polícia e pelo Ministério Público. E há quem tenha transformado o advogado de Lindsay, Kevin Reddington, numa espécie de personagem do próprio julgamento.
A hashtag #clancy acumula centenas de milhares de vídeos, segundo os dados citados pelo CT Insider. O fenómeno tornou-se tão grande que já há quem questione se as câmaras dentro da sala de audiências estão a contribuir para transformar um processo criminal numa espécie de espetáculo de true crime.
Mas o que está a alimentar estas teorias?
O ponto de partida: uma mãe, três mortes e uma questão jurídica
Há elementos fundamentais da história que não estão em discussão.
Lindsay Clancy está a ser julgada pela morte dos três filhos. Tudo aconteceu na casa da família, em Duxbury, em Massachusetts a 24 de janeiro de 2023. As crianças foram estranguladas na cave, com bandas elásticas de exercício físico.
Depois, Lindsay tentou suicidar-se, atirando-se de uma janela do segundo andar. Sobreviveu, mas ficou paralisada numa cadeira de rodas.
O que o julgamento procura determinar não é simplesmente se foi ela quem matou as crianças.
A defesa não nega os homicídios, mas sustenta que Lindsay sofria de psicose pós-parto e que, naquele momento, não tinha capacidade para compreender a natureza errada dos seus atos.
A acusação apresenta uma interpretação diferente. Rejeita o surto psicótico e considera que Lindsay continuava a perceber o que estava a fazer e que tinha consciência de que matar os filhos era errado.
É neste impasse que está a verdadeira batalha jurídica. E é precisamente aqui que começa a confusão nas redes.
Quando o julgamento saiu da sala de audiências
A transmissão do processo permitiu que qualquer pessoa acompanhasse os testemunhos em direto.
A consequência foi previsível: momentos de segundos transformaram-se em vídeos de vários minutos, testemunhos complexos passaram a ser explicados em pequenos clips e determinadas frases começaram a circular isoladamente.
O Boston Globe descreveu o fenómeno como um “julgamento paralelo”, com utilizadores a tentarem resolver o caso por conta própria. Há pessoas convencidas de que Patrick Clancy, o marido de Lindsay, teve um papel nas mortes dos filhos, apesar de não existir prova apresentada no julgamento que sustente essa acusação.
A questão tornou-se tão intensa que até a atriz, Lisa Rinna, afirmou publicamente ter chegado a uma conclusão sobre o caso depois de discutir a investigação com o seu terapeuta.
A partir daí, qualquer detalhe passou a poder transformar-se numa nova teoria.
O Apple Watch que passou a ser tratado como uma “testemunha”
Um dos melhores exemplos é o Apple Watch.
Durante o julgamento, o perito em informática forense, Ian Whiffin, apresentou a análise dos dados digitais dos dispositivos de Lindsay para tentar reconstruir a sequência de acontecimentos daquela tarde.
Entre esses dados existem registos relacionados com movimentos e subida de escadas.
Nas redes sociais, esses registos foram rapidamente transformados numa pergunta: Quem estava a subir as escadas?
A cronologia dos acontecimentos
O Apple Watch deixou de registar dados de frequência cardíaca às 17h23. O último valor registado foi de 57 batimentos por minuto. No entanto, continuaram a existir registos de atividade após essa hora.
Segundo Whiffin, o sistema de saúde da Apple registou duas subidas de escadas num curto intervalo de tempo: a primeira às 17h33 e a segunda às 17h38. O especialista explicou em tribunal que o algoritmo da marca considera um lance quando identifica uma subida equivalente a cerca de três metros (ou dez pés), distribuída por 16 degraus.
Há, porém, um detalhe crucial nesta sequência temporal: às 17h33, precisamente no minuto do primeiro registo da subida, Patrick tentou contactar a esposa. A chamada não foi atendida. Cerca de um minuto depois, houve uma chamada de volta, que Patrick atendeu. Segundo o seu testemunho, a conversa foi curta e Lindsay pareceu-lhe normal, embora desse a impressão de estar ocupada.
Cinco minutos depois, às 17h38, surgiu o segundo registo de subida de escadas.
É esta sucessão de acontecimentos que alimenta uma das principais teorias nas redes sociais: se Lindsay já não estaria em condições de utilizar o dispositivo naquele momento, quem ou o que terá provocado os registos de atividade?
A questão foi colocada de forma particularmente incisiva por Kevin Reddington durante o interrogatório de Whiffin.
O advogado perguntou ao perito se conseguia saber quem estava efetivamente a usar o dispositivo depois das 17h38. A resposta foi negativa: a tecnologia forense reconstrói as ações do aparelho, mas não identifica biologicamente o seu portador.
Reddington insistiu, então, nos cenários alternativos: o telemóvel poderia ter sido pousado? O relógio poderia ter sido retirado? Poderia alguém ter continuado a mover-se pela casa sem transportar nenhum dos dispositivos? Whiffin concordou que, olhando apenas para aqueles dados, não era possível saber.
A ausência de quase uma hora de Patrick
Outro dos pontos mais discutidos online é o tempo em que Patrick esteve fora de casa.
Naquela tarde, Patrick saiu para ir à farmácia buscar medicação para Cora e comida para a família. Para a acusação, esta dinâmica não foi um mero acaso, mas sim a criação de uma oportunidade para Lindsay ficar sozinha com os filhos e concretizar o plano que, segundo os procuradores, tinha formado.
A defesa, por sua vez, tem explorado repetidamente a cronologia dessa deslocação.
Os registos apresentados no julgamento colocam Patrick na farmácia por volta das 17h32. Foi aí que tentou contactar Lindsay depois de não encontrar imediatamente a medicação que procurava. Ela ligou-lhe de volta e falaram durante alguns segundos.
Depois, Patrick dirigiu-se ao restaurante 3V, em Plymouth, para ir buscar o jantar. Imagens de videovigilância colocaram-no no restaurante pouco antes das 18h00. Regressou posteriormente a casa, onde chegou por volta das 18h09, momento em que se depara com o cenário trágico.
Ou seja, o intervalo total entre a saída e o regresso foi inferior a uma hora.
Nas redes sociais, este período é muitas vezes apresentado como se existisse uma "grande janela temporal inexplicada". A cronologia apresentada no tribunal é, contudo, mais complexa: existem registos da passagem pela farmácia, imagens no restaurante, recibos e dados telefónicos.
E a questão da hipotermia?
Um dos argumentos que circulam nas redes está relacionado com a temperatura corporal de Lindsay quando chegou ao hospital.
A mãe foi encontrada no exterior da casa depois de ter saltado da janela do segundo andar. No hospital, apresentava uma temperatura corporal de cerca de 27,8 graus Celsius (82,1 graus Fahrenheit), valor compatível com hipotermia grave. Muitos internautas questionaram como poderia ter atingido uma temperatura tão baixa durante o período em que esteve no exterior.
Contudo, os especialistas apresentaram outras possíveis explicações para aquele valor. O médico Sohaib Imtiaz explicou que há vários fatores que poderiam contribuir para uma descida tão acentuada da temperatura: a exposição ao frio e à neve, a perda de sangue, o choque provocado pelos ferimentos e a lesão da medula espinal. Além disso, o chamado afterdrop faz com que a temperatura continue a descer mesmo já dentro do hospital.
Há ainda outro detalhe importante: a hora exata a que foi medida aquela temperatura é relevante para interpretar o valor. Por isso, utilizar os 27,8 graus como uma espécie de cronómetro para determinar quanto tempo Lindsay esteve no exterior seria ir além do que a prova permite concluir.
A mesma cautela deve ser aplicada à temperatura das crianças: não existe, nos elementos públicos que sustentam o julgamento, uma conclusão que permita afirmar simplesmente que o período em que Patrick esteve fora de casa é “incompatível” com a condição em que as crianças foram encontradas.
O que existe é uma discussão médico-legal sobre os tempos de perda de consciência, asfixia e morte, que foi apresentada através dos testemunhos dos especialistas e que a acusação utiliza para sustentar a sua reconstrução dos acontecimentos.
As bandas de exercício e o ADN
Outro detalhe que ganhou enorme dimensão nas redes sociais diz respeito às bandas elásticas utilizadas nos crimes.
A determinada altura, começou a circular uma afirmação simples: “não havia ADN de Lindsay nas bandas elásticas”. Contudo, a realidade apresentada no tribunal é bastante mais complicada.
A analista de ADN Katarina Stashyn explicou que foram encontrados perfis genéticos mistos em diferentes partes das bandas. O problema é que as pessoas envolvidas no caso são familiares próximos e, por isso, partilham uma quantidade significativa de material genético. Isso torna a interpretação de misturas muito mais complexa.
Na banda elástica amarela, por exemplo, o ADN isolado numa das extremidades apontava para um perfil fortemente compatível com o filho Dawson. Noutra zona da mesma banda, os testes indicaram sinais que podiam pertencer a Dawson, Callan ou ao pai, Patrick. Contudo, a perita fez uma ressalva importante: aquela amostra continha vestígios de apenas duas pessoas. A presença de múltiplos nomes deve-se, simplesmente, ao facto de a enorme semelhança genética entre familiares baralhar os resultados.
Na banda preta, o cenário foi igualmente ambíguo. Uma das análises revelou-se inconclusiva devido à forte degradação do material genético. Noutra amostra da mesma corda, a filha Cora foi identificada como a principal origem de uma mistura que continha vestígios de três pessoas.
Portanto, a afirmação de que “as bandas não tinham ADN de Lindsay” é uma simplificação "enganadora".
O que os resultados mostram é que diferentes amostras produziram diferentes combinações genéticas e que a relação familiar entre todos os envolvidos tornou a interpretação particularmente difícil.
Fora da discussão sobre as bandas, o depoimento da analista trouxe outro dado que passou quase despercebido: os testes feitos às manchas encontradas na parede de madeira exterior da casa revelaram um perfil genético puro e exclusivo de Lindsay. Este resultado é consistente com a presença da Lindsay naquele local após a queda da janela.
“Mas Lindsay era enfermeira”
Outro argumento repetido nas redes sociais parte de uma característica biográfica verdadeira: Lindsay era enfermeira obstetra.
A partir daí, alguns utilizadores questionam a versão segundo a qual ela terá tentado suicidar-se através de cortes nos pulsos e de uma overdose de medicamentos.
A lógica apresentada online é esta: sendo profissional de saúde, Lindsay teria conhecimentos sobre medicamentos e sobre os efeitos de determinadas formas de administração. Essa associação, contudo, não permite concluir por si só qual era a sua intenção.
O julgamento não estabelece que uma enfermeira, por definição, saberia exatamente que dose de determinado medicamento seria fatal ou que qualquer tentativa de suicídio teria obrigatoriamente de produzir ferimentos profundos.
Na verdade, a própria prova médica é mais complexa. Os relatórios clínicos revelam que o corte no pulso direito tinha cerca de três centímetros de profundidade e precisou de três pontos. No pulso esquerdo, existia outro corte, com cerca de dois centímetros de profundidade, que também precisou de sutura. Os ferimentos do pescoço foram considerados superficiais.
A acusação utiliza precisamente estas características para questionar a verdadeira intenção suicida.
A defesa interpreta os mesmos acontecimentos de outra forma: Reddington argumenta que não se pode avaliar o estado mental de uma pessoa em pleno surto psicótico apenas pela quantidade de sangue ou pela profundidade das feridas.
Para acrescentar complexidade, os próprios socorristas também explicaram em tribunal que o frio intenso daquela noite poderia ter influenciado a circulação e a aparência dos ferimentos.
O mistério dos comprimidos esmagados
A questão dos medicamentos ganhou uma nova dimensão durante o testemunho do psiquiatra da acusação, Gregory Saathoff.
Segundo o especialista, Lindsay descreveu ter sofrido uma overdose, mas não lhe contou inicialmente que tinha esmagado os comprimidos.
Patrick terá dito que encontrou medicação triturada num copo no quarto. Lindsay, por sua vez, explicou que tinha misturado os medicamentos com limonada. Patrick contestou essa versão, afirmando que não era habitual haver limonada em casa.
Para a acusação, a omissão deste detalhe é relevante porque demonstra uma capacidade de tomar decisões sequenciais e de apresentar posteriormente uma versão incompleta dos acontecimentos.
Mas também aqui é importante não transformar a interpretação de um perito numa conclusão factual.
Não existe no julgamento uma conclusão de que Lindsay, por ser enfermeira, não poderia ter esmagado os comprimidos. O que existe é um debate sobre a forma como preparou a medicação, a quantidade ingerida e o significado desse comportamento para avaliar a sua intenção e o seu estado mental.
Os exames toxicológicos também não apontaram para uma intoxicação letal. O toxicologista forense, Dr. Justin Brower, explicou que, embora a concentração do antipsicótico "quetiapina" estivesse elevada, os valores não atingiram um nível considerado tóxico ou letal. Os restantes medicamentos psiquiátricos estavam em níveis terapêuticos ou abaixo do esperado.
Os pais de Patrick e a imagem de Lindsay como mãe
Há também uma dimensão emocional que ajuda a perceber porque razão o julgamento provocou uma reação tão forte.
Algumas das pessoas que testemunharam sobre Lindsay descreveram uma mulher profundamente ligada aos filhos.
A antiga ama das crianças, Elaine Rossi, descreveu-a como uma mãe carinhosa e atenta, que mantinha instruções detalhadas sobre as rotinas dos filhos. Amigos e familiares também falaram da sua dedicação às crianças.
Christopher Clancy, pai de Patrick, também testemunhou sobre a forma como via Lindsay enquanto mãe: “muito, muito boa”. O testemunho ganha particular peso porque Christopher Clancy perdeu três netos e, ainda assim, a defesa procura mostrar que a família de Patrick continua a distinguir a mulher que conhecia da pessoa que, segundo a acusação, cometeu os homicídios.
A defesa utiliza estes relatos para mostrar a transformação psicológica que ocorreu nos meses anteriores às mortes: uma mulher que, segundo pessoas próximas, amava os filhos e cuidava deles passou a apresentar sinais graves de sofrimento psíquico.
A acusação não precisa necessariamente de negar que Lindsay fosse uma boa mãe, aliás, esse é um dos aspetos mais difíceis do processo. A questão jurídica não é saber se ela amava os filhos, mas sim determinar se, no momento em que os matou, compreendia o que estava a fazer e conseguia distinguir que aquilo era errado.
Patrick Clancy: testemunha, viúvo e alvo de uma teoria
É aqui que surge uma das teorias mais controversas das redes sociais.
Patrick Clancy tornou-se, para uma parte da internet, mais do que uma testemunha. Passou a ser apresentado como uma possível peça escondida na história.
Vários internautas apontam para diferenças entre alguns dos seus relatos, para a cronologia das deslocações e para os dados dos dispositivos. O escrutínio online intensificou-se após o tribunal confirmar que Patrick se mudou para Nova Iorque e voltou a casar-se com a médica Rachel Danis.
No entanto, nenhuma prova apresentada em tribunal aponta para o envolvimento de Patrick nas mortes. As investigações da polícia e do Ministério Público tratam-no como testemunha e vítima da tragédia.
A própria estratégia da defesa de Lindsay não consiste em culpar o marido. O argumento de defesa baseia-se no estado de saúde mental da ré e na alegação de que sofria de psicose pós-parto no momento do crime.
O advogado que se tornou personagem do julgamento
Kevin Reddington também acabou por se transformar numa personagem deste caso. O advogado veterano de 75 anos, que representa Lindsay, não passa despercebido em tribunal.
Reddington tem uma forma particularmente física de conduzir os interrogatórios: aproxima-se das testemunhas, utiliza cartazes e documentos para construir visualmente os seus argumentos e, em vários momentos, reage de forma expressiva às respostas dos especialistas.
Uma das suas estratégias mais visíveis tem sido desmontar a cronologia apresentada pela acusação, sobretudo quando esta depende de dados digitais. Foi isso que aconteceu com Ian Whiffin: em vez de tentar provar que os dados estavam errados, Reddington concentrou-se numa pergunta mais simples: o que é que esses dados não conseguem dizer?
A estratégia é importante porque a defesa não precisa necessariamente de apresentar uma explicação alternativa completa para cada minuto daquela tarde.
Precisa de convencer o júri de que existem dúvidas suficientes sobre a interpretação apresentada pela acusação.
O que sabemos e o que continua a ser uma teoria
À medida que o julgamento se aproxima do fim, talvez a distinção mais importante seja esta: sabemos que Cora, Dawson e Callan morreram depois de serem estrangulados com bandas de exercício. Sabemos, também, que Lindsay sobreviveu depois de saltar de uma janela do segundo andar e que ficou com uma lesão grave na coluna.
Sabemos que Patrick saiu de casa para ir buscar medicação e comida e regressou pouco depois das 18h00. Sabemos, ainda, que existem dados digitais registados pelo telemóvel e pelo Apple Watch.
Sabemos que existem misturas de ADN nas bandas, mas que a interpretação dessas misturas é complicada pela relação familiar entre todos os envolvidos. Sabemos que Lindsay apresentava um historial de problemas de saúde mental, múltiplos medicamentos, pensamentos suicidas e uma passagem por tratamento psiquiátrico.
E sabemos que a própria defesa não contesta que Lindsay matou os filhos. O que contesta é a responsabilidade criminal pelos atos.
O que não sabemos, pelo menos com base na prova pública apresentada no julgamento, é se existiu uma segunda pessoa na casa, se Patrick teve qualquer envolvimento nos homicídios ou se alguma das teorias que circulam na internet correspondem à realidade.
E essa distinção é essencial, porque uma coisa é encontrar uma pergunta sem resposta, outra, muito diferente, é encontrar a resposta.