quinta-feira, 12 fev. 2026

Carney em Davos: Tucídides, Havel e a escolha das médias potências

Na semana passada, os holofotes recaíram sobre uma pequena cidade nos Alpes suíços. E se Donald Trump foi o grande protagonista em Davos com a criação do ‘Conselho da Paz’, Mark Carney também se fez ouvir. Através de um discurso que desenterrou Tucídides e Václav Havel, o líder canadiano tentou mostrar o rumo que as médias potências devem percorrer nesta nova ordem internacional
Carney em Davos: Tucídides, Havel e a escolha das médias potências

«Estamos no meio de uma rutura, não de uma transição», disse o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no seu discurso em Davos. A intervenção vem a propósito da já amplamente reconhecida queda da Ordem Liberal Internacional que pautou as relações internacionais desde o pós-II Guerra Mundial. Uma ordem que encontrou no multilateralismo o seu grande pilar para promover a estabilidade nos setores político, económico, comercial e legal. Mas este liberalismo internacional dependia do estatuto de superpotência dos Estados Unidos. Por outras palavras, o liberalismo precisava de uma ordem, e os EUA, mesmo que guiados pelos seus próprios interesses, proporcionavam-na. Mas isso acabou.

Os sucessos do liberalismo e da globalização, que se tornaram ainda mais evidentes após o colapso da União Soviética, alimentaram um otimismo cada vez maior de que seria apenas uma questão de tempo até que o mundo inteiro abraçasse as ideias da democracia, da liberdade e do multilateralismo. Era o fim da história (Francis Fukuyama, o cientista político americano que apresentou esta tese, é frequentemente mal interpretado, mas isso não é o assunto importante aqui). Bem, como é sabido, não foi isso que aconteceu. Os Estados Unidos, arquitetos, executores e um dos principais, se não o principal, beneficiários desta ordem agora antiga, sentiram que esta última já não servia os seus interesses, também porque fortaleceu os seus adversários geopolíticos diretos, particularmente a China, proporcionando-lhes, assim, uma boa dose de alavancagem num sistema que sempre tencionaram subverter.

Sendo esta a conjuntura atual, onde o poder puro e as esferas de influência substituem as diretrizes desenhadas em 1945, os líderes mundiais, em particular os líderes das chamadas médias potências, são obrigados a redefinir a sua estratégia. Têm de tomar decisões. Dormir à sombra de uma árvore que caiu não é uma opção. E é principalmente por isto que o discurso de Carney tem dado que falar.

Um pragmatismo baseado em princípios

Depois de utilizar uma expressão retirada de um clássico – «The strong do what they can and the weak suffer what they must», uma frase de Tucídides que escrevia sobre a dura realidade das relações internacionais no contexto da Guerra do Peloponeso em 418 a.C. –, Carney rejeita acreditar que se trate de uma fatalidade. Para este efeito, recorre a outro exemplo: o merceeiro de Václav Havel, um dissidente checoslovaco que acabaria por se tornar presidente depois da queda do regime comunista. «Todas as manhãs», disse Carney relembrando o exemplo de Havel, «o merceeiro coloca um cartaz na sua vitrine: “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. Ele não acredita nisso. Ninguém acredita. Mas ele coloca o cartaz mesmo assim para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se dar bem». «E como todos os merceeiros de todas as ruas fazem o mesmo», continuou o líder canadiano, «o sistema persiste — não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que elas sabem, no fundo, serem falsos». Porque, no final de contas, argumentava Havel (The Power of the Powerless, 1978), o pilar do regime «é viver uma mentira». Logo, «não é surpreendente que a ameaça fundamental a ele seja viver a verdade». É por isto que Carney conclui que «o poder do sistema não vem da sua veracidade, mas da disposição de todos em agir como se fosse verdadeiro».

O raciocínio do primeiro-ministro do Canadá desagua, naturalmente, num apelo: «Quando apenas uma pessoa deixa de atuar, quando o merceeiro retira a sua placa, a ilusão começa a desmoronar-se. Amigos, é hora de as empresas e os países retirarem as suas placas».

Então, qual é o rumo traçado por Carney? De forma resumida, e aproveitando o título do discurso, é um pragmatismo baseado em princípios. Ou, como o cunhou o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, num artigo publicado na mais recente edição da Foreign Affairs e no seu livro recém-publicado (Triangle of Power: Rebalancing the New World Order), um realismo assente em valores. Esta doutrina consiste, por um lado, e nas palavras de Carney, no compromisso «com valores fundamentais, soberania, integridade territorial, proibição do uso da força, exceto quando consistente com a Carta das Nações Unidas, e respeito pelos direitos humanos» e, por outro, no pragmatismo em «reconhecer que o progresso é muitas vezes gradual, que os interesses divergem e que nem todos os parceiros compartilham todos os nossos valores». «Estamos a calibrar as nossas relações», continuou o PM do Canadá, explicando como o seu país tentará equilibrar a tensão entre realismo e princípios, «para que a sua profundidade reflita os nossos valores e estamos a priorizar um amplo envolvimento para maximizar a nossa influência, dada a fluidez do mundo neste momento, os riscos que isso representa e o que está em jogo para o futuro. E já não dependemos apenas da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força».

Um multilateralismo de coligações

A doutrina de Carney, que é também uma crítica aberta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (importa notar que a eleição de Carney foi potenciada pela retórica agressiva de Trump em relação ao Canadá, o que fez com que a larga vantagem dos conservadores liderados por Pierre Poilievre se esfumasse), confere especial importância às coligações em detrimento do «multilatearlismo ingénuo». A seguinte passagem do famoso discurso de Davos deixa esta posição clara: «Para ajudar a resolver problemas globais, procuramos uma geometria variável. Por outras palavras, diferentes coligações para diferentes questões com base em valores e interesses comuns». «Não se trata de um multilateralismo ingénuo, nem de confiar nas instituições deles», mas sim de «construir coligações que trabalhem questão por questão com parceiros que partilhem pontos em comum suficientes para agirem em conjunto. Em alguns casos, isso será a grande maioria das nações. O que se está a fazer é criar uma densa rede de conexões entre comércio, investimento e cultura, na qual podemos recorrer para desafios e oportunidades futuros. A nossa opinião é que as médias potências devem agir em conjunto, porque se não estivermos à mesa, estaremos no menu».

Na parte final da intervenção, Mark Carney apresentou a escolha que esta conjuntura, onde a rivalidade entre potências é o fio condutor das relações entre nações, impõe às médias potências como o Canadá: ou competem «entre si por favores», ou unem-se «para criar um terceiro caminho com impacto». «Os poderosos têm o seu poder», concluiu, «mas nós também temos algo: a capacidade de parar de fingir, de nomear realidades, de construir a nossa força internamente e de agir em conjunto».

Os aplausos e as críticas continuam a multiplicar-se. Mas, independentemente dos problemas que se possam levantar quanto à aplicabilidade de algumas soluções apresentadas por Carney, a forma tem sido vista como um feixe de luz no ambiente escuro dos discursos que têm primado, sobretudo, pela banalidade.