sexta-feira, 10 jul. 2026

Carlo Ginzburg: sofrer a História na própria carne

Ginzburg cortou de vez com viés aristocrático da História.
Carlo Ginzburg: sofrer a História na própria carne

Centenas estão mortos sem ter dito nada. E se muitos falaram tanto como se quisessem, com todo o seu ruído sufocar a história dos demais, alguns desses só puderam salvar as suas coisas por dinheiro, por poder, influência, os mais comuns estratagemas. Mas um acerto de contas não deixa de ser possível quando surge um historiador empenhado em ‘nadar contra a corrente’, servindo-se de meios inquisitivos audazes, de uma articulação de saberes discretos, de um estilo por vezes lancinantemente irónico, com a sua concisão astuta, a alusividade impiedosa. Assim, com o murmúrio do sangue, certas páginas oferecem o chamejante açoite de uma verdade que volta, erguendo-se do pó e da noite. Carlo Ginzburg aprendeu muito com aquela tradição pagã, os enredos necessários e crenças camponesas diabolizadas pela Igreja, voltou-se tantas vezes para esse mundo antigo de forma a opor-se ao classicismo batizado, ao catolicismo na vida italiana. Viu assim a mancha de sangue que fora deposta num horizonte ocultado, e muitas vezes parece ter sido levado a tantas das suas decisivas descobertas empurrado pelo acaso, sendo capaz de reclamar essa herança inesperada do destino, desde logo por ter tido no seu avô do lado materno um grande histólogo. Giuseppe Levi, que deu aulas em Turim, viu três dos seus alunos ganharem o Prémio Nobel, e foi importantíssimo na formação do neto, que recordava como, aos 12 anos, fora levado por ele ao seu laboratório, onde passava o dia inteiro, e que nunca esqueceu uma impressionante mancha que viu quando o avô o instigou a olhar pelo microscópio. A essa expansão que aguarda no ínfimo, como um segredo, ficaria ele a dever tantas das intuições que o projetaram como um dos nomes de maior destaque, à escala mundial, na historiografia contemporânea.

Carlo Ginzburg gozou a reputação de um historiador com aquela sanha vertiginosa de um detetive, e das suas investigações se reconheceu o mérito de se darem a ler como romances, pelo fôlego, esse lado meio instintivo, o seu entusiasmo diante dos ‘casos’, reconhecendo tanto a influência dos ‘casos clínicos’ de Freud como do ‘método indiciário’ a que chegou reivindicando a influência de Sherlock Holmes. Assim, cerziu a psicanálise e o romance policial, tendo sabido valer-se desses sinais que outros descontam, apercebendo-se de que o homem não deixa também ele de ser meio real, meio fictício, deixando-se abalar por dores de dentes como embalar por ilusões, e, assim, a propósito dos casos anómalos, recordou a importância da anomalia pelo seu efeito exemplar, sendo esta mais rica do que a norma, uma vez que aquela inclui sempre a norma, ao passo que esta não inclui necessariamente a sua transgressão. A este historiador italiano, que morreu nesta quarta-feira em Bolonha, aos 87 anos, ficou a dever-se um efeito revolucionário nas metodologias da investigação histórica, e que se liga frequentemente à noção de ‘micro-história’, nome pelo qual foi designada a corrente historiográfica a que Ginzburg ficou indelevelmente associado, sendo o seu principal teórico e praticante. Ora, a novidade que ele introduz surge pela dimensão narrativa na escrita da história, com um sério empenho tanto a nível estilístico como retórico, valendo-se de sofisticados instrumentos metodológicos e de análise vindos de outras áreas disciplinares (a antropologia, a filologia, a narratologia, etc., numa desassombrada aprendizagem feita no campo das ciências humanas, dos estudos literários e da história da arte, passando ainda pela história da cultura). Em vez de alguém que assume uma distância um tanto fria em relação ao passado, Ginzburg parece lançar-se sobre ele como quem resolvesse um mistério com sérias implicações para o presente, e, deste modo, no seu ofício contribuiu decisivamente para fazer da escrita da história um campo de saber unitário, envolvendo e cativando leitores desses que seguem o apelo das narrativas que os intrigam. Por isso, colheu as suas ‘personagens’ em zonas impróprias, exumando figuras inesperadas, bruxas, curandeiros, subalternos, dando atenção a factos e ocorrências fora do horizonte onde a historiografia tradicional encontra os seus heróis e protagonistas. É o caso do moleiro friulano do século XVI conhecido como Menocchio, que, por ter sustentado que o mundo tinha a sua origem na putrefação, atraiu os processos da Inquisição, que por duas vezes o perseguiu, acabando condenado à morte por heresia. De seu verdadeiro nome Domenico Scandela é o protagonista da mais célebre obra de Ginzburg, O Queijo e os Vermes, publicado originalmente em 1976, uma obra que tem uma edição brasileira, mas que, como a maior parte dos seus livros, aguarda ainda uma edição portuguesa. O que atraiu sobre ele a ira do Santo Ofício foi o facto de Menocchio ter uma relação muito própria com a cultura livresca, não se limitando a gozar de uma erudição inesperada entre a classe a que pertencia, mas por ter desenvolvido um filtro ou um crivo na relação com os textos que lhe caíram nas mãos, o que pressupunha, como veio a revelar Ginzburg, a influência na sua formação de uma cultura oral que não era apenas património seu, mas de um vasto segmento da sociedade do século XVI.

Tendo sempre criticado a visão muito aristocrática da cultura, que, em seu entender, sempre limitou o trabalho dos historiadores, Ginzburg reconheceu a enorme dívida à sua mãe, a escritora Natalia Ginzburg, por tê-lo guiado na sua relação com a narrativa, não descontando também a importância que teve para ele o trabalho do pai, Leone Ginzburg, escritor, professor e tradutor de literatura russa, fundador da editora Einaudi, e uma lenda da resistência ao fascismo, que acabou por morrer na prisão, aos 39 anos, na sequência das torturas que foi sujeito depois de ser detido pela Gestapo por se recusar a prestar juramento ao regime. Nascido em Odessa, no seio de uma família judia que veio a emigrar para o Ocidente, primeiro para Berlim e depois para Turim, onde Carlo viria a nascer em 1939, Leone morreu quando o filho tinha apenas cinco anos. Assim, com esta idade, Carlo Ginzburg vivia já sob o signo da perseguição fascista e antissemita à sua família, e muitos anos mais tarde, quando era já um historiador consagrado internacionalmente, viria a dar-se conta de como isto o levou a empenhar-se no estudo dos processos da Inquisição e dos da bruxaria. Mas outra influência crucial ficou a dever-se ao trabalho de tradutor do pai, uma vez que a obra literária que maior peso teve na sua formação foi Guerra e Paz, que lera muito jovem numa tradução revista por Leone. «Escrevi um ensaio sobre a micro-história onde falei daquilo que aprendi com Tolstói e do desafio que ele constituiu para mim», disse numa entrevista à revista Electra, em 2020. «Foi ele quem me ensinou que para contar uma batalha devemos contar a experiência de todos os que nela participaram. Não só a experiência do general, mas também a do mais humilde soldado. Retrospetivamente, percebo que a minha ideia de micro-história vem daí».

Além da literatura, também o cinema foi importante na sua omnívora aventura enquanto narrador, e naquela entrevista recorda o caso de Eisenstein e de um ensaio em que este falava sobre a montagem, defendendo que o close-up, inventado por Griffith, foi inspirado por Charles Dickens. Por sua vez, Ginzburg admitia que a ideia de montagem e de close-up foi muito importante para que chegasse à metodologia da micro-história, reconhecendo que o seu percurso se liga ainda à pintura e à filologia, e assinalando a centralidade de Erich Auerbach e do seu livro Mimésis, sobre a representação da realidade na literatura ocidental, nas suas investigações. Assim, e como vincava Vítor Serrão, «com Ginzburg, penetrámos no mundo das possibilidades de uma leitura microscópica - histórica, estética, sociológica, iconológica, mental e micro- e macro-analítica - aplicada ao campo das artes, i. e., uma História vista de baixo (utilizando o conceito marxista de António Gramsci de ‘classes subalternas’), para melhor se alcançar o âmbito da ‘circularidade cultural’ por que a História da Arte anseia para melhor dialogar com as obras, individualmente e no seu conjunto».

Titular de uma cátedra até 2010 na Scuola Normale Superiore, com um percurso académico que teve também etapas importantes nas universidades americanas de Harvard e Yale, a sua influência assume um apelo fundamental nos nossos dias por ter reconhecido como a parte mais importante do trabalho do historiador se liga a uma suspeita constante em relação à veracidade dos testemunhos e documentos, tendo chegado a definir-se, enquanto historiador, como aquele que faz de advogado do diabo. Lembrando que se trata de uma expressão técnica que foi introduzida nos processos de canonização pela Igreja, no início do século XVII. «Na canonização de uma pessoa, havia a figura do advogado do diabo, cuja tarefa consistia em formular objeções de maneira a levantar dificuldades aos defensores da beatificação da pessoa em causa, pondo à prova o caráter legítimo e acertado dessa canonização. Ora, eu digo que é preciso introjetar a figura do advogado do diabo, é preciso ter continuamente um diálogo com o advogado do diabo que combata o nosso narcisismo, por exemplo, que coloque questões difíceis, insidiosas, inquietantes».