terça-feira, 16 jun. 2026

Boatos sobre desaparecimento de órgãos genitais fazem 55 mortos

Polícia e autoridades de Moçambique negam qualquer base científica e alertam para onda de violência e linchamentos
Boatos sobre desaparecimento de órgãos genitais fazem 55 mortos

Pelo menos 55 pessoas morreram e 111 ficaram feridas em episódios de violência associados a boatos sobre o alegado desaparecimento de órgãos genitais masculinos em Moçambique.

Segundo o comandante-geral da Polícia da República de Moçambique (PRM) foram registados 132 casos de violência nas últimas semanas relacionados com estas crenças e superstições.

“Tivemos um total de 55 óbitos, tivemos 111 feridos, entre graves e ligeiros, num total de 132 casos. O trabalho feito pela polícia resultou na detenção de 149 cidadãos”, afirmou Joaquim Sive durante uma visita à província de Gaza.

Os rumores começaram a circular a 18 de abril na província de Cabo Delgado e espalharam-se rapidamente para outras regiões do país, alimentados sobretudo pelas redes sociais.

As superstições assentam na ideia de que o simples toque ou aperto de mão de determinadas pessoas poderia provocar o atrofiamento, encolhimento ou desaparecimento dos órgãos genitais masculinos.

A polícia moçambicana insiste, contudo, que não existe qualquer mecanismo físico ou científico capaz de provocar tais efeitos.

“Qualquer que seja a morte, é preocupação nossa. E quando uma morte é violenta, essa preocupa não só a polícia, mas a todos os órgãos da Administração e da Justiça”, afirmou Joaquim Sive.

Também o presidente moçambicano classificou recentemente os rumores como “boatos e mentiras”, garantindo que não existe qualquer registo clínico que confirme os alegados casos.

“É tudo boato, é tudo mentira e as pessoas estão a agredir outras pessoas, estão a linchar pessoas, estão a matar pessoas com base no boato”, afirmou Daniel Chapo.

Especialistas moçambicanos defendem que o fenómeno deve ser analisado no contexto social e cultural do país.

O antropólogo Alberto Chimoio que estas situações resultam de fenómenos de “histeria social” ligados ao medo e ao desconhecimento.

“Numa perspetiva antropológica é preciso entender em que contexto surge, quais são os atores envolvidos e a quem convém que isso continue dessa forma”, explicou, citado pela agência Lusa.

Também o sociólogo Roque Tembo considerou importante analisar o fenómeno numa perspetiva histórica, lembrando que Moçambique já enfrentou no passado outras ondas de crenças semelhantes.

Especialistas de saúde têm reiterado que os rumores não têm qualquer base científica e associam os casos reportados a situações de medo, stress coletivo e perceções erradas alimentadas pelo clima de pânico social.