terça-feira, 16 jun. 2026

As eleições, Starmer e o futuro do bipartidarismo

As eleições foram um duro golpe para o PM. A sua liderança está a ser contestada e o sistema político britânico atravessa uma reconfiguração.
As eleições, Starmer e o futuro do bipartidarismo

Os britânicos foram chamados às urnas na quinta-feira passada e deram um sinal claro: o Partido Trabalhista e o Partido Conservador caíram em desgraça. Os dois partidos clássicos e dominantes do sistema bipartidário britânico registaram perdas significativas nas eleições locais em Inglaterra e nas eleições legislativas na Escócia e no País de Gales. O grande vencedor foi o Reform UK, partido à direita dos conservadores, liderado por Nigel Farage, e os Verdes, partido à esquerda dos trabalhistas.

Inglaterra foi o país onde a derrota dos partidos centrais se sentiu com maior vigor. O Partido Trabalhista perdeu um total de 1498 vereadores. Uma queda tão pronunciada do centro-esquerda significa, normalmente, uma ascensão clara do partido da oposição. Não foi o caso. Os conservadores também perderam. E bastante. O seu poder local foi reduzido em 563 vereadores.

Starmer na corda bamba

Como foi mencionado mais acima, Keir Starmer é o primeiro-ministro britânico mais impopular desde que se mede a aprovação, ou falta dela, dos líderes do executivo. Há já algum tempo que o tema da sua substituição tem sido discutido e, naturalmente, esta derrocada eleitoral foi uma dura machadada na sua liderança. Já cerca de 100 deputados pediram a sua demissão e quatro membros do governo que se demitiram propuseram que fizesse o mesmo. O PM prometeu resistência.

Para André Azevedo Alves, professor catedrático no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, existe uma «elevadíssima probabilidade» de que Starmer já tenha caído de facto, ainda que não se tenha demitido. «E existe uma coisa que, curiosamente, joga a favor do Partido Trabalhista e contra Starmer», acrescenta: «os trabalhistas, obviamente, não querem eleições, e falta bastante tempo para, no calendário normal, haver eleições. E é esse calendário que o Partido Trabalhista vai tentar que seja cumprido o mais possível, porque está perfeitamente consciente que ir para eleições seria, neste momento, catastrófico. Ou seja, o calendário, por um lado, é bom para os trabalhistas, mas para Starmer é pior, porque se as eleições estivessem para breve, até podia não haver condições para trocar a liderança tão eficazmente».

O futuro do bipartidarismo

Ao olhar para os resultados das últimas eleições em Inglaterra, é possível identificar um fenómeno raro na política britânica. Existem, neste momento, quatro a cinco partidos que podem ser considerados médios. O Reform, os trabalhistas, os Liberal-Democratas, os conservadores e os Verdes. Esta disposição, extrapolada para umas eleições legislativas, representaria um parlamento fragmentado, à semelhança do que tem acontecido noutros países. Mas o sistema eleitoral britânico é distinto, apresentando, de acordo com André Azevedo Alves, «fortes incentivos, com o first past the post, ao bipartidarismo. Portanto, no Reino Unido, é difícil que se forme uma situação estável com quatro ou cinco partidos». No fundo, conclui o professor do IEP, «há um desgaste grande dos dois partidos tradicionais, dominantes desde o início da década de 1920, e a própria governação do Partido Conservador deixou uma marca muito negativa da qual nenhuma liderança foi capaz de recuperar. Somando a isto a impopularidade de Starmer, conclui-se que o eleitorado está cansado quer de uns quer de outros. Este cansaço gera abertura a alternativas à direita, no caso do Reform, e à esquerda, no caso dos Verdes, que traz também um fenómeno novo que é uma aliança, que me parece bastante instável e perigosa, entre a esquerda mais radical e movimentos identitários islâmicos».

«Num futuro não muito distante», conclui Azevedo Alves, «vamos ter um novo bipartidarismo que pode ter ou não algum destes dois partidos que dominaram nos últimos cem anos. Porque mesmo que a situação não esteja boa para eles, quer o Reform quer os Verdes têm desafios de credibilidade grandes».