Se as eleições na Estremadura no final do ano passado deram o pontapé de saída para o declínio eleitoral da esquerda em Espanha, as eleições em Aragão no domingo passado podem ser vistas como uma natural continuação desse processo. A comunidade autónoma no noroeste espanhol, vizinha da Catalunha, foi a votos de forma antecipada após a decisão do presidente da região, o popular (PP) Jorge Azcón, de dissolver a Assembleia. Uma deliberação que decorreu de um impasse político no momento de aprovar o orçamento da comunidade numas cortes onde o espaço da direita não detinha a maioria absoluta. A tentativa de negociação com o Partido Socialista (PSOE) fracassou e os aragoneses foram chamados às urnas.
O Partido Popular, partido do governo, não conseguiu superar a barreira imposta por uma composição parlamentar onde os seus 28 assentos faziam frente a 23 do PSOE, com o Vox na terceira posição com apenas sete. Mas esta realidade alterou-se de forma considerável no passado dia 8. O PP venceu as eleições, ainda que sendo penalizado marginalmente pelos eleitores (perdeu 1,3% dos votos e dois assentos parlamentares), o Vox registou um crescimento significativo (mais 6,6% dos votos que se traduzem em mais 7 assentos, um crescimento de 100%), e o PSOE colecionou mais uma débâcle ao ver a sua bancada reduzida a 18 assentos. Quanto às outras forças de esquerda, a força regionalista CHA viu a sua representação subir para seis assentos (um crescimento também de 100%) e o Sumar manteve o seu representante único. Já o Podemos, que não atingiu sequer a fasquia de 1% dos votos, foi expulso das cortes, perdendo o único deputado que por lá mantinha.
Assim, a direita conquistou a maioria absoluta e liberta o PP de negociar à sua esquerda, acantonando o PSOE. O próprio presidente Azcón chegou a avisar os socialistas após terem sido conhecidos os resultados: «Tic-tac, o sanchismo está a acabar». A derrota do PSOE foi o chão-comum de várias declarações do PP na ressaca das eleições. O líder, Alberto Nuñez Feijóo disse que o «PP consolida a sua liderança e o governo» e deixou a questão: «quantas débâcles mais precisa Sánchez para entender que já chega?». Miguel Tellado, secretário-geral dos populares, atirou que «quem perdeu as eleições foi o sanchismo e a sua porta-voz, Pilar Alegría», acrescentando que foi obtido «o resultado que os aragoneses desejavam: o PP ganhou e o PSOE perdeu».
Todavia, esta aritmética parlamentar não se traduz automaticamente numa navegação tranquila para os populares neste novo mandato. Há que ajustar a estratégia perante um Vox claramente fortalecido. Negociações que serão «difíceis», de acordo com fontes do PP de Aragão citadas pela RTVE. O primeiro «termómetro» à relação PP-Vox será, aponta a empresa pública de rádio e televisão de Espanha, no dia 3 de março, data na qual ficará evidente «se existem os primeiros acordos políticos entre o PP e o Vox para eleger os cinco cargos da Mesa do parlamento regional». Feijóo insistiu que os nacional-populistas não devem «tornar-se um muro» e tentou piscar o olho ao partido liderado por Santiago Abascal. Mas este último não escondeu a tensão evidente entre as duas forças que agora, em conjunto, formam uma maioria absoluta nas cortes aragonesas: «O senhor Feijóo diz sempre palavras que ele interpreta de alguma forma, mas que são difíceis de compreender. Os cidadãos disseram claramente que querem o dobro do Vox, que querem que as políticas do Vox tenham muito mais importância do que têm tido até agora». Está aberta, à semelhança do que vai acontecendo noutras regiões e que deverá acontecer a nível nacional num futuro próximo, a luta pelo entendimento das direitas.
Conclusões principais
Em declarações ao Nascer do SOL, o jurista Gonçalo Dorotea Cevada não hesita em identificar quatro tendências destes resultados, em linha com o que foi mencionado acima. Primeiro, e mais evidente, «o PP venceu, e aumentou a sua distância em relação ao PSOE». Segundo, «o PSOE, a cada eleição que passa, bate recordes de derrotas eleitorais históricas». Depois, «o Vox duplica o número de votos e de deputados regionais». Por fim, «a esquerda radical - do Sumar ao Podemos - apesar do ruído mediático constante, vai desaparecendo». E mesmo que o PP tenha registado uma ligeira queda na votação, Dorotea Cevada considera que «o problema não o tem o PP, mas o PSOE, que neste momento disputa o segundo lugar com o Vox». Mais: «Olhando para os estudos pós-eleitorais, o crescimento do Vox explica-se, sobretudo, pelo eleitorado ‘tipo’ e ‘típico’ do PSOE». «No fundo», acrescenta, «o clima, o feminismo, o antirracismo, etc., não mobilizaram o eleitorado histórico do PSOE, que se transferiu diretamente para o Vox».
Quanto aos entendimentos à direita, o jurista que viveu vários anos em Madrid considera que «não restará outra alternativa ao PP, a bem da estabilidade, que fazer um acordo pragmático e de governo com o Vox. Assunto aliás que não gera grandes paixões no PP, que já afirmou que a sua única linha vermelha é com o Bildu». Para além disto, Gonçalo Dorotea Cevada retira o ónus dos populares e coloca-o no partido de Abascal: «O dilema das linhas vermelhas está, em bom rigor, no Vox, que teme que entrando nos governos regionais perca força eleitoral». «O certo é que PP e Vox», diz ainda, «estão condenados a sentar-se à mesma mesa», algo que considera extrapolável para o contexto nacional: «Este exercício poderá ser útil e servir de ensaio ao que provavelmente acontecerá a nível nacional em 2027. Isto, claro, se não houver eleições antecipadas até lá». Dorotea Cevada não deixou passar em claro «a crise profunda do PSOE». Uma crise «de protagonistas, de ideias - para lá da polémica do dia - de barões e baronesas, enfim, numa crise de poder sem precedentes».