terça-feira, 10 fev. 2026

“Apesar de tudo, a vida é bela”. Sobrevivente do Holocausto faz apelo no Parlamento Europeu (com video)

Na mesma sessão, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, sublinhou que o Holocausto “não foi algo que aconteceu de um dia para o outro”, mas “passo a passo, lei a lei, comboio a comboio”.
“Apesar de tudo, a vida é bela”. Sobrevivente do Holocausto faz apelo no Parlamento Europeu (com video)

Foi numa sessão extraordinária realizada no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto que Tatiana Bucci, sobrevivente do Holocausto deportada para o campo de extermínio de Auschwitz aos seis anos, deixou um apelo no Parlamento Europeu: "Gostaria que todas as crianças do mundo, porque morrem em todo o lado, e fala-se pouco de África, para dar apenas um exemplo, possam ter a vida” idêntica àquela que ela própria construiu depois da guerra.

No parlamento europeu, Tatiana Bucci recordou a madrugada de março de 1944 em que foi detida juntamente com a família, na então cidade italiana de Fiume, atualmente Rijeka, na Croácia. Tatiana e a irmã, Andra, foram acordadas pela mãe e levadas pelas autoridades, numa operação que culminou na deportação para Auschwitz-Birkenau.

“Tinham vindo prender-nos. A minha mãe vestiu-me a mim e à minha irmã e a primeira coisa que eu recordo vivamente dessa noite foi que, quando entrámos na sala, vi a minha avó de joelhos diante do chefe da operação a pedir para deixar que as crianças ficassem em casa. Estava eu, a minha irmã e o meu primo Sergio”, lembrou.

A viagem foi feita num comboio com vagões destinados a animais, que partiu da estação central de Trieste. À chegada ao campo nazi, na Polónia ocupada, Tatiana foi separada da avó, que viria a ser assassinada numa câmara de gás. A criança escapou à morte imediata por ter sido confundida com uma gémea pelo médico nazi Josef Mengele, responsável por experiências com prisioneiros.

Tatiana, a irmã e o primo Sérgio foram encaminhados para o barracão reservado a gémeos, onde lhes foi tatuado um número no braço - o da mãe era o 76.482, recordou. Durante os cerca de dez meses que passou em Birkenau, Tatiana tomou consciência da sua identidade judaica e da violência a que os prisioneiros eram sujeitos.

“Percebi que era judia porque sentia, ou ouvia, as poucas mulheres que ali estavam a tomar conta de nós a chamarem-nos assim. Era hebraica e nós, hebreus, tínhamos de ter aquela vida, diziam-nos. Uma vida que era uma morte”, explicou.

Em novembro de 1944, Sérgio aceitou juntar-se a um grupo de crianças transferidas para outro campo de concentração, perto de Hamburgo, onde acabou por ser submetido a experiências e “barbaramente assassinado”, “preso em ganchos do talho”, a 20 de abril de 1945, menos de um mês antes de a guerra acabar. Tatiana e a irmã permaneceram em Birkenau até à libertação pelas tropas soviéticas, apenas porque relembravam o aviso que outras priosineiras lhes fizeram: deveriam dizer que não caso lhes perguntassem se queriam ir ter com a sua mãe.

Após a libertação, as duas crianças foram enviadas para a Checoslováquia e depois para Inglaterra, onde acabariam por descobrir que os pais tinham sobrevivido. O reencontro familiar aconteceu em dezembro de 1946, mais de dois anos depois da deportação.

"Já não sou pequenina agora, já tenho mais de 80 anos e gostaria que todas as crianças do mundo possam ser velhas como eu sou velha hoje”, disse, emocionada. A sua intervenção terminou com um minuto de silêncio no Parlamento Europeu em homenagem às vítimas do Holocausto.

Na mesma sessão, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, sublinhou que o Holocausto “não foi algo que aconteceu de um dia para o outro”, mas “passo a passo, lei a lei, comboio a comboio”, alertando para a importância da memória e da responsabilidade coletiva para evitar que tragédias semelhantes se repitam. “É por isso que o Parlamento Europeu irá sempre recordar e falar [sobre o Holocausto]. A memória não é passiva, impõe-nos uma responsabilidade a todos”, disse.

Veja aqui o discurso completo de Tatiana Bucci.