Foi numa sessão extraordinária realizada no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto que Tatiana Bucci, sobrevivente do Holocausto deportada para o campo de extermínio de Auschwitz aos seis anos, deixou um apelo no Parlamento Europeu: "Gostaria que todas as crianças do mundo, porque morrem em todo o lado, e fala-se pouco de África, para dar apenas um exemplo, possam ter a vida” idêntica àquela que ela própria construiu depois da guerra.
No parlamento europeu, Tatiana Bucci recordou a madrugada de março de 1944 em que foi detida juntamente com a família, na então cidade italiana de Fiume, atualmente Rijeka, na Croácia. Tatiana e a irmã, Andra, foram acordadas pela mãe e levadas pelas autoridades, numa operação que culminou na deportação para Auschwitz-Birkenau.
“Tinham vindo prender-nos. A minha mãe vestiu-me a mim e à minha irmã e a primeira coisa que eu recordo vivamente dessa noite foi que, quando entrámos na sala, vi a minha avó de joelhos diante do chefe da operação a pedir para deixar que as crianças ficassem em casa. Estava eu, a minha irmã e o meu primo Sergio”, lembrou.
A viagem foi feita num comboio com vagões destinados a animais, que partiu da estação central de Trieste. À chegada ao campo nazi, na Polónia ocupada, Tatiana foi separada da avó, que viria a ser assassinada numa câmara de gás. A criança escapou à morte imediata por ter sido confundida com uma gémea pelo médico nazi Josef Mengele, responsável por experiências com prisioneiros.
Tatiana, a irmã e o primo Sérgio foram encaminhados para o barracão reservado a gémeos, onde lhes foi tatuado um número no braço - o da mãe era o 76.482, recordou. Durante os cerca de dez meses que passou em Birkenau, Tatiana tomou consciência da sua identidade judaica e da violência a que os prisioneiros eram sujeitos.
“Percebi que era judia porque sentia, ou ouvia, as poucas mulheres que ali estavam a tomar conta de nós a chamarem-nos assim. Era hebraica e nós, hebreus, tínhamos de ter aquela vida, diziam-nos. Uma vida que era uma morte”, explicou.
Em novembro de 1944, Sérgio aceitou juntar-se a um grupo de crianças transferidas para outro campo de concentração, perto de Hamburgo, onde acabou por ser submetido a experiências e “barbaramente assassinado”, “preso em ganchos do talho”, a 20 de abril de 1945, menos de um mês antes de a guerra acabar. Tatiana e a irmã permaneceram em Birkenau até à libertação pelas tropas soviéticas, apenas porque relembravam o aviso que outras priosineiras lhes fizeram: deveriam dizer que não caso lhes perguntassem se queriam ir ter com a sua mãe.
Após a libertação, as duas crianças foram enviadas para a Checoslováquia e depois para Inglaterra, onde acabariam por descobrir que os pais tinham sobrevivido. O reencontro familiar aconteceu em dezembro de 1946, mais de dois anos depois da deportação.
"Já não sou pequenina agora, já tenho mais de 80 anos e gostaria que todas as crianças do mundo possam ser velhas como eu sou velha hoje”, disse, emocionada. A sua intervenção terminou com um minuto de silêncio no Parlamento Europeu em homenagem às vítimas do Holocausto.
Na mesma sessão, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, sublinhou que o Holocausto “não foi algo que aconteceu de um dia para o outro”, mas “passo a passo, lei a lei, comboio a comboio”, alertando para a importância da memória e da responsabilidade coletiva para evitar que tragédias semelhantes se repitam. “É por isso que o Parlamento Europeu irá sempre recordar e falar [sobre o Holocausto]. A memória não é passiva, impõe-nos uma responsabilidade a todos”, disse.
Veja aqui o discurso completo de Tatiana Bucci.