«Muitos sul-africanos têm dificuldade em encontrar trabalho, sendo que o país apresenta a taxa de emprego mais baixa e a taxa de desemprego mais elevada entre as economias do G20». Esta é uma das principais conclusões do estudo económico da OCDE de 2025 sobre a África do Sul. A taxa de desemprego situou-se nos 31,4% no último semestre de 2025, depois de registar uma ligeira descida em relação aos semestres anteriores. O número é preocupante, principalmente quando comparado com o da segunda economia do G20 que apresenta a taxa de desemprego mais elevada depois da África do Sul - Espanha, que está nos 10,83%. Isto, aliado a um PIB que está praticamente estagnado naquela que é a maior potência económica do continente, causa alguma convulsão social.
E esta revolta está a ser canalizada para a população imigrante, algo que não é novidade no país. De acordo com a Reuters, «grupos de defesa dos direitos dos migrantes afirmam estar a ser usados como bodes expiatórios pelos sul-africanos, que os culpam pelos problemas económicos do país, nomeadamente o elevado desemprego, que (…) afeta de forma desproporcional a população negra». As preocupações quanto a ataques xenófobos contra a população estrangeira na África do Sul - que, na capital, Pretória, foi instada a manter uma «vigilância redobrada» durante um uma marcha anti-imigração, segundo a BBC - são, hoje, um tema inescapável quando se trata do continente africano. No mesmo sentido, a agência de notícias Garowe escreveu que «em Pretória, centenas de manifestantes marcharam pelas ruas entoando slogans anti-imigrantes. Os organizadores, que afirmam ter como alvo a imigração ilegal, argumentam que os cidadãos estrangeiros competem injustamente pelos empregos locais e sobrecarregam os serviços públicos já sobrecarregados».
O dono de uma loja em Joanesburgo, citado pela Garowe na mesma peça, diz que «a situação está a tornar-se insuportável» porque estão «a ficar em casa e a manter as nossas lojas fechadas, mas não sabemos se estaremos seguros quando o sol se puser». Este é o sentimento generalizado da população imigrante na África do Sul. Por isso, não surpreende que a Garowe tenha utilizado a expressão «Viver com Medo», seguida de «Os Migrantes Africanos Enfrentam Ameaças Xenófobas Crescentes na África do Sul», como título para o seu artigo. De facto, segundo esta reportagem, a situação escalou ao ponto de existirem «relatos de que vários cidadãos etíopes foram mortos em ataques distintos», com nigerianos também a perderem a vida.
Pressão dos vizinhos
Naturalmente, esta situação fez soar os alarmes de outros países africanos, principalmente daqueles cujos cidadãos estão na situação acima descrita, recomendando-lhes que se resguardem. A Nigéria, através de Kimiebi Imomotimi Ebienfa, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, já disse que o país «procura plena cooperação na disponibilização de relatórios de autópsia, documentação pós-morte e processos relevantes, bem como na facilitação do acesso aos procedimentos legais por parte das famílias dos falecidos» e, ao mesmo tempo, criou um programa de repatriamento ao qual já concorreram pelo menos 130 nigerianos, de acordo com as informações dadas por Bianca Odumegwu-Ojukwu, a ministra dos Negócios Estrangeiros nigeriana.
O Gana também tem sido bastante vocal, denunciando a situação à União Africana (UA). No documento enviado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do país à UA, pode ler-se que o «Governo do Gana continua profundamente preocupado com a recorrência de incidentes xenófobos na República da África do Sul, os quais resultaram, lamentavelmente, na perda de vidas humanas, na destruição de investimentos e continuam a representar sérios riscos para a segurança e o bem-estar de muitos cidadãos africanos residentes na África do Sul» e que é «particularmente preocupante que manifestações de xenofobia, incluindo ataques violentos contra outros africanos, tenham persistido nos últimos anos. Este desenvolvimento é especialmente alarmante quando analisado à luz da solidariedade duradoura demonstrada pelos Estados africanos em apoio à luta contra o Apartheid e à subsequente transformação democrática da África do Sul».
A reação sul-africana
O Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, condenou os ataques e mencionou também a importância dos países vizinhos na luta contra o regime do Apartheid, mas não deixou de considerar que algumas das manifestações dos seus cidadãos são fundamentadas e compreensíveis.
Então, com toda esta repulsa em relação à presença de imigrantes em território sul-africano que gera tensão e estabelece um clima de medo, seria de esperar que os níveis de imigração fossem consideravelmente elevados. Mas os dados do governo da África do Sul mostram uma realidade diferente. Independentemente de ter registado «um crescimento constante nas últimas décadas», a população imigrante representa 3,9% da população total do país de acordo com os números de 2022. Assim, o clima está de cortar à faca e, vindo de um país com um histórico de incidentes, muitas vezes mortais, deste tipo, o cenário não é animador.