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Gisèle Pelicot, a francesa que foi vítima de abusos sexuais durante vários anos a mando do próprio marido, decidiu tornar pública a sua história fora dos tribunais. Num livro e nas primeiras entrevistas que concede desde o julgamento, a autora descreve o percurso de sofrimento, resistência e reconstrução pessoal que culminou no processo judicial iniciado em 2024, que levou à condenação do ex-companheiro.
No livro intitulado “E a alegria de viver?”, com lançamento marcado para 17 de fevereiro em França, Pelicot afirma que escrever foi um passo decisivo para recuperar o controlo da sua narrativa. “Durante todo o processo, fui rotulada como vítima. Hoje, não quero mais esse status”, declarou ao jornal francês Le Figaro, sublinhando a vontade de ser reconhecida para além da violência que sofreu.
O caso ganhou projeção internacional depois de se revelar que o marido a drogava para permitir que dezenas de homens a agredissem enquanto permanecia inconsciente. A dimensão dos crimes e o impacto social do julgamento transformaram Pelicot num símbolo da luta contra a violência sexual — um rótulo que encara com alguma ambivalência. “Isso incomoda-me bastante”, admitiu, embora reconheça a importância do debate público gerado.
Uma das decisões mais marcantes foi a recusa de um julgamento à porta fechada. Para a autora, "o silêncio apenas protege os agressores". “A vergonha tem de mudar de lado”, defende, explicando que quis permitir que os crimes fossem expostos e que outras mulheres se sentissem menos isoladas.
No livro, descreve também o momento em que tomou consciência da dimensão do abuso, ao ser confrontada pela polícia com imagens recolhidas durante a investigação. “Não conhecia os homens. Nem aquela mulher”, escreve, citada pelo Le Monde, relatando a dificuldade em reconhecer-se nos vídeos apresentados.
Para além da violência, a narrativa revisita a vida familiar anterior à revelação dos crimes. Pelicot recorda um casamento que acreditava estável e feliz, iniciado ainda na juventude, do qual nasceram três filhos. “Sempre achei que acabaria a minha vida com o Sr. Pelicot”, contou, sublinhando o choque ao descobrir uma realidade totalmente diferente.
A autora optou também por abordar o percurso do ex-marido, com o objetio de mostrar que nunca suspeitou do lado oculto revelado mais tarde por especialistas. Paralelamente, dedica espaço ao impacto da tragédia na filha do casal, que vive com a angústia de não saber até que ponto também terá sido vítima. “A dúvida condena-a a um inferno perpétuo”, lamenta.
Seis anos após ter cortado contacto com o ex-marido, a escritora admite que pretende voltar a encontrá-lo. “Preciso que ele me responda pessoalmente (…) Por que fez isto connosco?”, disse, reconhecendo que a pergunta continua a marcar o seu processo de recuperação.