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Aterrámos na Venezuela numa sexta-feira, 26 de junho, e começámos a trabalhar, as primeiras equipas, sábado, logo pela manhã. No sábado, ainda não sentíamos esse ambiente tão pesado, apesar de em alguns sítios particulares já se sentir, mas ainda não era muito intenso. A partir de domingo, sim, o próprio calor e a humidade aceleravam a decomposição dos corpos que estavam nos escombros. A partir de domingo, quatro dias depois dos sismos, já se sentir um forte odor a cadáver junto aos escombros. E depois começaram a surgir os abutres no ar». O relato é do capitão da GNR Fábio Zuada, responsável pela equipa cinotécnica – composta por seis binómios homem/cão – que esteve no teatro de operações, na Venezuela.
Um relato duro de quem esteve durante 10 dias na busca por sobreviventes após o duplo sismo que sacudiu aquele país da América Latina ao final da tarde de uma quarta-feira, 24 de junho, feriado nacional dedicado à Batalha de Carabobo, na Venezuela. Passavam quatro minutos das seis da tarde quando a terra tremeu pela primeira vez, com uma intensidade de 7,2 na escala de Richter. 38 segundos depois surgiu o segundo abalo, mais forte, a marcar os 7,5. O fenómeno é chamado de ‘duplo sismo’, ao qual se seguiram centenas de réplicas. A zona costeira de La Gaira foi a mais afetada, embora Caracas também tenha sido bastante atingida. «Houve edifícios que colapsaram por completo, outros parcialmente e outros ficaram de pé. Por exemplo, nos bairros de lata, que são muitos, não houve danos», descreve João Ferreira, sapador e engenheiro civil, que acompanhou a equipa portuguesa com a missão de verificar a estabilidade dos escombros e dos edifícios e as condições de segurança para que os restantes elementos pudessem trabalhar.
Quanto às diferenças entre os prédios que caíram e os que ficaram de pé há várias explicações, de acordo com o engenheiro. «Uma delas é o tipo de solos onde estes edifícios estão implementados. Pode haver um solo mais rochoso, outro mais arenoso, e que pode provocar fragilidade, essencialmente nas fundações destes edifícios, e que depois leva ao colapso. A fragilidade nota-se, por exemplo, quando fazemos um castelo de areia e não dura muito. Já a rocha tem tendência a ter maior rigidez e tem um melhor comportamento para as estruturas que lá estejam», afirma João Ferreira. E prossegue: «Outras razões podem ser também na questão construtiva, no processo construtivo. Além disso, por vezes há sobrecarga dentro dos edifícios. A colocação, por exemplo, de depósitos de água. Como há falta de água na rede, a população tem tendência a colocar depósitos de água nos apartamentos. Isso cria sobrecarga e o edificado não está preparado».
Na Venezuela, João Ferreira ficou ainda a saber que foram feitas construções em locais indevidos, depois de outra catástrofe natural: deslizamentos de terras há 29 anos. «Lá fala-se nessas terras que ficaram acumuladas na zona da costa e onde foram construídos novos edifícios. Esses edifícios, agora, colapsaram».
‘MEXE MUITO CONNOSCO’
João Ferreira não esconde a comoção que sentiu ao deparar-se com aquelas cidades em escombros. «Aquele primeiro impacto, quem sai do avião e está a ir para a área de operações, por muito que se treine, por muitas imagens que se veja de outros locais, uma coisa é vermos e outra é estar no local e assistir», comenta. É nestas ocasiões que a robustez psicológica daqueles que salvam vidas é posta à prova. «Ganhamos essa robustez nos treinos que vamos fazendo ao longo de todo o ano. Ganhamos aquela perfeita consciência do que é que temos de fazer, as formas como é que o temos de fazer e, a partir daí, a adrenalina entra no corpo e começamos a executar o trabalho».
Ainda assim, é praticamente impossível ficar indiferente. «Claro que mexe sempre connosco, porque somos seres humanos, e pomo-nos no papel daquelas pessoas. Vemos coisas nos escombros, fotografias de crianças, vemos bens pessoais, toda uma vida que as pessoas tinham. É impossível não nos colocarmos nesse paralelo. Mas pronto, a missão é procurar vidas humanas, e acabamos por nos abstrair um bocadinho disso quando estamos em missão», partilha, por sua vez, o capitão da GNR Fábio Zuada.
Há quem consiga manter um maior distanciamento. É o caso de Filipa Mendes, uma das militares da GNR que faz binómio com a cadela Alessi. «Quando vou meto na cabeça que estou em missão e preparo-me para isso. E à noite consigo dormir descansada porque sei que fiz o que tinha de ser feito», refere a militar, que já tinha estado na Turquia, aquando do devastador terramoto de 2023. Na Venezuela, o mais marcante foi a facilidade de entendimento entre o castelhano e o português. «Poderá ser a mais impactante a nível pessoal, porque nós percebemos o que eles dizem. Eles falam espanhol e nós, como portugueses, irmãos muito próximos, nós percebemos exatamente o que eles estão a dizer, quando se dirigem a nós e quando pedem ajuda, o que não acontecia na Turquia».
Foram muitas as abordagens feitas por populares à equipa cinotécnica da GNR. Filipa Mendes recorda: «As pessoas começavam a assobiar. Nós, como tínhamos a carrinha com os cães, e por causa do calor acabávamos por ir com a porta lateral aberta, as pessoas chamavam-nos com muita aflição. Claro que íamos ver o que é que se passava e era, muitas vezes, para tirar o irmão, que estava morto. Só que a nossa prioridade eram os vivos. E eles não estavam a aceitar bem». E quanto mais tempo passava mais tensão havia. «Já tinham passado alguns dias, o desespero estava a instalar-se, a esperança estava a desaparecer… Creio que eles pensavam que não tirávamos os corpos por má vontade mas não era nada disso», reforça.
UM MILAGRE CHAMADO HÉRNAN
Ao quinto dia – a força conjunta portuguesa esteve dez dias no terreno – aconteceu o milagre. Hérnan Gil, segurança de um parque de estacionamento, 43 anos, foi salvo após sete dias debaixo dos escombros. Este foi, naturalmente, o momento mais feliz para as equipas de busca e resgate. Cristiano Jesus, sapador, nunca mais esquecerá este salvamento. «Foi, de facto, o momento mais feliz, até porque foi a única vida que conseguimos resgatar ao longo daquela missão. E depois de tantas horas e tentativas para o tirar de lá, ver o objetivo final cumprido foi muito gratificante».
Hérnan estava ao virar da esquina da rampa do parque de estacionamento mas essa zona estava repleta de escombros. Foi a cabine onde trabalhava que o protegeu. Para o alcançarem, as equipas de resgate tiveram de aceder pelas escadas laterais até ao piso -3. Dois cadáveres estavam pendurados nos escombros, mesmo ao lado de Hernán. Com o sangue-frio necessário, os bombeiros taparam os corpos «para manter o devido respeito» e focaram-se em quem estava vivo.
Foi um cenário difícil e que outras equipas internacionais chegaram a abandonar. «Aliás, o cenário já tinha sido fechado várias vezes. Era difícil chegar lá e havia um grande risco associado. Não sabíamos se iríamos conseguir retirar o Hérnan com vida. No fim, quando conseguimos, foi uma sensação indescritível».
Carlos Amaro, subchefe principal e coordenador da equipa do RSB, ainda se emociona ao recordar Hérnan e a resiliência da equipa portuguesa neste salvamento, que durou mais de 100 horas. «O resgate do Hernán foi um bónus e é muito gratificante. Aliás, ajuda imenso à recuperação psicológica de todos», comenta Amaro. Ainda assim, o sapador conta que, nestas ocasiões, as expectativas devem estar em baixa, para não haver deceções. «Mesmo que não houvesse resgate acho que deveríamos estar todos felizes na mesma porque conseguimos ajudar o povo de Venezuela, especialmente os descendentes e os portugueses imigrantes. Do ponto de vista humano acho que foi muito importante. Aliás, qualquer resgatador que se preocupe só com a parte técnica do resgate e não tem se preocupe com a parte psicológica, ou com o ponto de vista humano, essa pessoa já não deve ser um resgatador».
Houve outro caso que também tocou Carlos Amaro. «Houve um senhor português, imigrante de 60 e muitos anos, que sabia que a filha e o neto de 10 anos estavam mortos no edifício ao lado [daquele onde foi salvo Hernán]. Ele disse que pagava tudo o que fosse preciso para alguém tirar os corpos mas não era possível. Havia um grande risco naqueles edifícios e não é admissível correr esse risco para retirar os corpos que podem ser retirados mais tarde com máquinas. Mas sentimos a dor dele e ele compreendeu-nos mas não foi fácil».
‘FOMOS OS MENSAGEIROS DA MORTE’
O tenente-coronel Carlos Pereira, segundo-comandante do RSB de Lisboa, também ficou impressionado com o zelo que a população tinha pelos seus mortos. «Mesmo sabendo que já nada havia a fazer as pessoas permaneciam junto aos escombros, quase que a fazer uma guarda de honra aos cadáveres. E, naturalmente, tinham receio que depois, quando chegassem as máquinas, os seus mortos fossem misturados no entulho», explica.
Muitas vezes, os socorristas acabavam por também ter o papel de anunciar a morte. E isso chocou muito Fernando Pereira, outro dos militares da GNR em binómio com a cadela Caia. «A dada altura fomos os mensageiros da morte. Três familiares abordaram-nos, pediram-nos para verificarmos um local, em La Gaira, nós verificámos e não encontrámos qualquer tipo de sinal de vida. Foi difícil ver aquelas pessoas a depositar, em nós, uma última esperança de vida».
Tiago Duarte, um dos elementos mais jovens dos sapadores, já tinha estado na Turquia onde, na sua opinião, havia ainda mais destruição apesar de mais edifícios se terem mantido em pé. «Na Venezuela aconteceu outra coisa, que foi os prédios caírem por completo e ficarem em panqueca. Isto tornava mais perigoso o nosso trabalho», recorda. Tal como se lembra de «muito trânsito, muito caos. Nós a querermos fazer o nosso trabalho, com o sonar, a marcar o terreno e as pessoas a passar na rua ao lado e a fazerem marcações falsas. Foi muito difícil trabalhar na Venezuela».
Para estes cenários, o bombeiro afiança que acaba por ir preparado para tudo, devido aos diversos casos que vai encontrando no seu dia a dia. «Apanhamos um pouco de tudo o que são ocorrências. Nunca é igual mas vai-nos preparando para estes cenários, pelo menos psicologicamente», conclui.
Duarte é outro jovem sapador e define o sentimento geral: «Lá, quando a gente encontra aquela destruição, é um bocado complicado. Uma coisa é vermos nas televisões ou nos filmes; outra é viver a realidade».
E QUANDO ACONTECER EM PORTUGAL?
De acordo com a Ciência, um sismo de grandes dimensões atingirá Portugal. Lisboa e o sul do país serão as zonas mais afetadas. Só a data é uma incógnita. «Como é do conhecimento público, Lisboa encontra-se numa zona de risco sísmico e, como tal, tem algumas vulnerabilidades. O município de Lisboa, onde o RSB de Lisboa está incluído, tem estado a fazer um trabalho muito contínuo de preparação, que é o que podemos fazer nesta altura; preparação e prevenção», salienta Carlos Pereira, segundo-comandante do RSB de Lisboa.
O programa ReSist é um dos grandes pilares da preparação para a eventualidade de um terramoto de larga escala. «Este programa assenta em medidas que estão a permitir reduzir o risco. Por exemplo, identificar os edifícios ou o edificado que possui algumas vulnerabilidades do ponto de vista sísmico, intervencionar esses edifícios, para que a probabilidade risco associado ao colapso seja reduzido e, simultaneamente, reduzir o número de mortes. Este é o grande objetivo desta medida».
Outra das medidas aposta na sensibilização da população. «Esta sensibilização é feita junto dos cidadãos, junto da escola e junto das unidades hoteleiras. Trata-se de haver aqui uma educação do que é que serão os melhores procedimentos a fazer em caso de ocorrência de um sismo. Portanto, este é o grande trabalho que está a ser feito em termos de ocorrência de um sismo, em termos da prevenção, em termos de resposta. Além disso, o RSB está continuamente a participar em exercícios tanto nacionais, como internacionais, com os restantes elementos da proteção civil, para que haja aqui um encontro de procedimentos e que seja identificada a melhor forma de resposta para um sismo».
Os cães de busca e salvamento terão um papel muito importante. Rui Mateus, que chefia a equipa cinotécnica do RSB de Lisboa, repara: «Esta equipa foi criada, há 26 anos, já na perspetiva de atuar em zonas colapsadas. Aproveitamos a capacidade olfativa do cão para potencializar o trabalho». Estes animais têm características que reforçam o trabalho de toda a equipa. «Um cão é muito mais ágil do que qualquer ser humano. Um cão é muito mais rápido do que qualquer ser humano. A sua capacidade olfativa consegue-nos indicar, se não for de forma exata, muito próxima daquilo que é o exato, onde poderá estar uma vítima que não consegue responder aos chamados das equipas iniciais ou da própria população», explica Rui Mateus. «Numa situação destas o que queremos é ganhar tempo. Porque aqui o tempo é a vida e o relógio está sempre a contar. Um binómio cinotécnico, ou seja homem/cão, rapidamente consegue fazer uma passagem e perceber onde está ou não alguém para salvar e por onde vamos começar a trabalhar».
O major Filipe Costa, que chefiou a equipa da GNR integrada na Força Operacional Conjunta Portuguesa na Venezuela, também acredita que os exercícios nacionais e internacionais serão a chave para uma resposta adequada. «É muito importante termos este trabalho constante. Nós sabemos que já aconteceu, portanto, isso poderá voltar a acontecer, só não sabemos é quando. Esta preparação é sempre muito importante e principalmente o trabalho de coordenação e de cooperação com outras equipas, nacionais e internacionais. Daí a importância destes exercícios ser vital, porque é nestes exercícios que nós percebemos e conseguimos identificar oportunidades de melhoria bem como procedimentos que nós podemos adotar que se calhar não são os melhores e que faz sentido nós alterarmos».
A atualização das equipas tem de ser permanente mas, todos garantem, há preparação. «Felizmente em Portugal, não havendo muitas situações reais, só através do treino e da preparação é que nós conseguimos manter as nossas equipas prontas a reagir numa situação real», remata Filipe Costa.