quarta-feira, 13 mai. 2026

A lua tem mesmo um lado escuro. Na verdade, nem tudo é escuro

A Artemis II foi um sucesso e as implicações estendem-se para além do campo científico. No contexto de uma nova corrida pelo espaço, a missão americana marca 'uma nova era dos voos espaciais tripulados e da exploração do espaço profundo', escreve a cientista da NASA Lori S. Glaze.
A lua tem mesmo um lado escuro. Na verdade, nem tudo é escuro

«Decidimos ir à Lua», disse o então presidente americano John F. Kennedy num discurso proferido na Universidade de Rice, em 1962, que ficaria para a história, «nesta década e realizar os outros objetivos, não porque sejam fáceis, mas porque são difíceis». Um objetivo que serviria para «mobilizar e avaliar o melhor das nossas energias e competências, porque esse desafio é um desafio que estamos dispostos a aceitar, que não estamos dispostos a adiar e que pretendemos vencer, assim como os outros». Como diz o clichê popular, o resto é história. Foram estas icónicas palavras de Kennedy que, menos de sete anos depois, permitiram a Neil Armstrong inscrever a seguinte frase na memória de todos: «É um pequeno passo para o Homem, um salto gigante para a humanidade». O homem pisava pela primeira vez a Lua e hasteava lá a bandeira à qual Kennedy jurou lealdade.

Cerca de seis décadas depois, e agora num contexto diferente, o espaço mantém-se como uma das fronteiras mais importantes da humanidade, seja em termos científicos, políticos ou geopolíticos. É precisamente neste contexto que a NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, levou a cabo mais uma missão lunar de magnitude superior. A Artemis II foi «a primeira aproximação tripulada à Lua da NASA em 50 anos», representando assim um «passo fundamental para o regresso a longo prazo à Lua e para futuras missões a Marte».

«A missão Artemis II», continua a NASA, «[levou] os astronautas mais longe da Terra e mais perto da Lua do que qualquer ser humano esteve em mais de meio século. A partir deste ponto de vista e ambiente únicos, a tripulação da Artemis II colaborará com cientistas na Terra para facilitar investigações científicas que servirão de base para futuras missões espaciais tripuladas».

É desnecessário mencionar que se trata de uma missão de uma complexidade estratosférica. De qualquer forma, o objetivo principal, como explicou a própria agência norte-americana, era simples e claro: «um voo de teste tripulado no espaço lunar» que tinha cinco missões prioritárias. Primeiro, em termos de tripulação, demonstrando «a capacidade dos sistemas e das equipas para apoiar a tripulação de voo no ambiente de voo e durante o seu regresso à Terra». Depois, sobre os sistemas, evidenciando quais «os sistemas e operações essenciais para uma missão tripulada à Lua», abrangendo «desde os sistemas em terra até ao equipamento no espaço, bem como operações que vão desde o desenvolvimento até ao lançamento, voo e recuperação». Em terceiro lugar, no que diz respeito ao equipamento e aos dados, onde o objetivo foi «recuperar o equipamento de voo e os dados, avaliando o desempenho para missões futuras». Naturalmente, o teste também contemplou as operações de emergência, sendo uma das missões apresentar «as capacidades do sistema de emergência e validar as operações associadas, na medida do possível, tais como operações de interrupção e procedimentos de resgate, conforme necessário». Por fim, a última missão prioritária prendeu-se com os dados e com os subsistemas, tendo a finalidade de «concluir objetivos adicionais para verificar os subsistemas e validar os dados».

Uma questão de ousadia e precisão

«[S]e eu dissesse, meus concidadãos», explicou JFK na Universidade de Rice, «que vamos enviar para a Lua, a 386 000 km de distância da estação de controlo em Houston, um foguetão gigante com mais de 90 metros de altura, do comprimento deste campo de futebol, feito de novas ligas metálicas, algumas das quais ainda não foram inventadas, capaz de suportar calor e tensões várias vezes superiores às que alguma vez foram experimentadas, montado com uma precisão superior à do melhor relógio, transportando todo o equipamento necessário para propulsão, orientação, controlo, comunicações, alimentação e sobrevivência, numa missão inédita, a um corpo celeste desconhecido, e depois trazê-lo de volta em segurança à Terra, reentrando na atmosfera a velocidades superiores a 40 000 km/h, gerando um calor com cerca de metade da temperatura do sol - quase tão quente como está aqui hoje - e fazer tudo isto, e fazê-lo bem, e fazê-lo antes do fim desta década - então temos de ser ousados».

Ousados e indescritivelmente precisos. De forma resumida, «a missão realizou com sucesso uma aproximação à Lua na nave Orion, passando a cerca de 6 547 km da superfície lunar e atingindo uma distância máxima de aproximadamente 406 760 km da Terra, superando o recorde estabelecido pela Apollo 13 em 1970. Em seguida, seguiu uma trajetória de regresso livre que contorna a Lua e os leva de volta a casa», explicou, a escrever para a Eurasia Review, o analista e comentador especializado em segurança e assuntos internacionais Collins Chong Yew Keat.

Mas nem só a ida ao espaço é um processo complexo. O regresso é ainda mais exigente. Afinal, os astronautas entraram na Terra a Mach 30 - trinta vezes a velocidade do som - e enfrentando uma temperatura que ronda os 3 mil graus Celsius. De acordo com o engenheiro Chris James da Universidade de Queensland, Austrália, «a reentrada hipersónica a alta velocidade que ocorre quando a nave atravessa a atmosfera superior» constitui «[o] momento mais perigoso» da missão por dois motivos principais: primeiro, porque «é quando o aquecimento e as forças que atuam sobre a própria nave atingem o seu máximo, devido ao arrasto aerodinâmico que desacelera a nave a partir de velocidades hipersónicas de cerca de 11 km por segundo (superiores a Mach 30!)»; depois, porque «é também um momento assustador porque o gás que envolve a nave aquece tanto que se transforma num plasma eletricamente condutor - o que bloqueia a comunicação entre a nave espacial e o mundo exterior. Isto significa que os astronautas ficam impossibilitados de falar com alguém na Terra durante esse curto período de tempo». A manobra foi um sucesso e a tripulação da Artemis II caiu em segurança no Oceano Pacífico.

Mas a importância da missão não se esgota na ciência, como veremos adiante.

A importância geopolítica

O historiador escocês Niall Ferguson, Milbank Family Senior Fellow na Hoover Institution, tem defendido há já algum tempo que a nova realidade geopolítica é a de uma segunda Guerra Fria, tendo a China suplantado a defunta União Soviética na luta global contra os Estados Unidos da América. E se o espaço foi um dos terrenos cruciais da disputa que marcou a segunda metade do século XX, também o é agora, e talvez com mais importância, no século XXI.

Como escreveu Mary Guenther, diretora de Política Espacial no Progressive Policy Institute, num artigo escrito para a mesma organização (Competing for the Upper Hand in the Ultimate High Ground: The Modern Space Race Between the U.S. and China, abril 2025), o «principal objetivo da política espacial da China é usurpar a posição de liderança dos Estados Unidos no espaço até 2045 - e parece cada vez mais provável que esse objetivo venha a ser alcançado». Um eventual sucesso de Pequim «teria implicações graves para a segurança nacional, a posição global e o crescimento económico dos Estados Unidos. De facto, o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional afirmou que “as atividades espaciais chinesas irão corroer cada vez mais as vantagens em termos de segurança nacional, comerciais e de influência global que os Estados Unidos acumularam graças à sua liderança no espaço”». Estas declarações colocam em águas mais claras que o que está em jogo é extremamente importante.

É neste contexto que a Artemis II entra como missão crucial. E pode ser definidora porque, como escreveu Eli Glasner para a CBC News, «[u]ma nova corrida à Lua poderá decidir quem lidera a exploração espacial - e quem estabelece as regras para além da Terra». «Desta vez», continua o jornalista, «a corrida vai além das bandeiras e das pegadas. O país que chegar primeiro poderá obter uma vantagem na escolha do local onde construir a futura infraestrutura lunar, na definição de normas técnicas e na definição da próxima fase da exploração espacial».

É por isto que a NASA está a reunir esforços para voltar a colocar o Homem na Lua em 2028, até porque de Pequim, através de Wu Weiren, designer-chefe do programa lunar da China, já veio a informação, ou o aviso, de que «[a]té 2030, o povo chinês irá certamente conseguir pisar a Lua. Isso não é problema». Assim, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que falou com os astronautas quando ainda estavam no espaço, recorreu à rede social Truth para manifestar a sua satisfação: «Parabéns à incrível e talentosa tripulação da Artemis II. Toda a viagem foi espetacular, o pouso foi perfeito e, como Presidente dos Estados Unidos, não poderia estar mais orgulhoso! Espero vê-los em breve na Casa Branca. Faremos isso de novo e, depois, o próximo passo será Marte!».

Collins Chong Yew Keat afirma que a Artemis II «projeta um novo momento de avanço histórico para a humanidade», considerando ainda que «constitui uma das missões espaciais mais importantes da era moderna» e que «muda a psicologia [da competição entre os Estados Unidos e a China]». O especialista da Universidade da Malásia argumenta que a nova corrida espacial joga-se, essencialmente, em duas frentes: «A primeira continua a ser óbvia: quem conseguirá levar astronautas até lá e provar que é capaz de continuar a regressar. A segunda disputa é igualmente importante a longo prazo: quem conseguirá definir as regras, as parcerias e o sistema económico em torno da Lua, uma vez lá chegados, a longo prazo».

É nada menos que isto que está em jogo. E se a Artemis II nos brindou com imagens, declarações, brilhantismo científico e coincidências interessantes (como a que está na caixa de texto acima), também estabeleceu um novo e crucial marco num confronto superior. A administração americana sabe disto e deverá ter em mente as palavras de Kennedy no seu famoso discurso já citado: «A exploração do espaço irá avançar, quer participemos nela ou não, e constitui uma das grandes aventuras de todos os tempos; nenhuma nação que pretenda liderar as outras nações pode dar-se ao luxo de ficar para trás na corrida espacial». Mais: «prometemos que não permitiremos que seja governado por uma bandeira hostil de conquista, mas sim por uma bandeira de liberdade e paz».

Na conclusão do discurso icónico, John F. Kennedy foi buscar uma frase de George Mallory, explorador britânico que acabaria por morrer no Evereste: «[Quero escalar o Evereste] porque ele está lá». «Bem», concluiu Kennedy, «o espaço está lá, e vamos explorá-lo; a Lua e os planetas estão lá, e novas esperanças de conhecimento e paz estão lá. E, por isso, ao partirmos, pedimos a bênção de Deus para a aventura mais arriscada, perigosa e grandiosa em que o homem alguma vez embarcou».

Vemo-nos no lado escuro da lua

Durante a viagem em torno da Lua, a tripulação da Artemis II passou por um momento de tensão. Foi quando passavam pelo lado oculto da Lua e atingiam o ponto mais distante da Terra (cerca de 406 mil quilómetros) que perderam a capacidade de comunicar, um momento que durou sensivelmente 40 minutos. E é aqui que se dá uma coincidência interessante, notada pelos amantes de música.

Uma página de música online, Behind the Songs, alertou na sua conta de Instagram (@behindthesongscl) que a «Artemis II atravessou o lado oculto da Lua em 42 minutos e 50 segundos, a duração do álbum “The Dark Side of the Moon” dos Pink Floyd». «Às 18h44min20s», escreveu a página, «o mundo ficou em silêncio. Nas consolas da NASA, o ruído estático substituiu as vozes dos quatro astronautas quando a cápsula Orion deslizou para trás do imponente disco lunar». «Exatamente 42 minutos e 50 segundos depois», continua, «às 19:27:10, o sinal regressou (…). A Terra voltou a ouvir o pulso da missão precisamente quando o ‘relógio’ cósmico marcava a mesma duração exata do álbum “The Dark Side of the Moon” dos Pink Floyd. Foi como se o universo tivesse decidido colocar uma banda sonora ao silêncio. Enquanto na nave se vivia a tensão do ponto de não retorno, no vazio do espaço ressoava o eco imaginário de Great Gig in the Sky e Eclipse. No final, quando a Terra voltou a aparecer no horizonte lunar, ficou claro que a realidade e a arte se tinham alinhado: os astronautas terminaram a sua viagem pelo lado escuro precisamente quando se ouve a última frase no final de «Eclipse», enquanto se desvanecem alguns batimentos cardíacos: ‘There is no dark side of the moon really. Matter of fact it’s all dark’».

Para além do impacto científico, tecnológico, político e geopolítico, a missão Artemis II proporcionou ainda um momento capaz de provocar arrepios nos amantes de música, e em especial de Pink Floyd, com esta coincidência que acaba por ser difícil de acreditar.