sexta-feira, 15 mai. 2026

Picheleira. Os donos da droga

Na zona oriental de Lisboa escondem-se alguns dos bairros muito conotados com o tráfico de droga. É na zona da Picheleira que encontramos o Bairro Branco, o Portugal Novo ou a Quinta do Lavrado. Depois de uma grande intervenção policial as bancas de rua acabaram. O tráfico adaptou-se e evoluiu: agora vivem aqui os “senhores” da droga.
Picheleira. Os donos da droga

Foi num dia quente de verão, em julho de 2024, que uma das bancas de droga mais frequentadas de Lisboa foi desmantelada pela polícia. Baldomero Maia, Mero como era conhecido, alegadamente liderava uma associação criminosa que obrigava toxicodependentes a trabalhar, como vendedores ou vigias, a troco de droga. E os que não se portassem como Mero queria ficavam sem droga e eram severamente agredidos. Raramente era visto no local do crime mas tinha a banca segura por homens da sua confiança.

O corrupio era constante e a ‘loja’ estava aberta 24 horas por dia numa escadaria da rua Carlos Botelho, na Picheleira. Pelo menos três mil euros de lucro diário estavam garantidos, em sete ou oito fornecimentos de cocaína. Dezenas de pessoas trabalhavam para Mero, com funções e horários bem definidos. Aliás, em janeiro de 2025, foram constituídos 40 arguidos ligados ao mesmo processo. O líder recolhia o dinheiro e fazia vida de lorde; os toxicodependentes viviam só para a droga. Para muitos era o único ‘alimento diário’.

Crime organizado

Com este golpe no tráfico, a droga, aparentemente, acabou. Mas é só uma aparência. O tráfico apenas se transformou e, atualmente, aquela zona da Picheleira serve, sobretudo, para guardar droga nos apartamentos do bairro, que está a ser remodelado pelo município. «A dinâmica do Bairro Carlos Botelho [Bairro Branco], e de outros naquela zona, como a Quinta do Lavrado, é muito semelhante à do Bairro do Armador, em Chelas. Aí temos locais de venda, também com uma tipologia muito próxima do que acontece no Bairro do Armador. Mas já temos aí também alguma criminalidade, ligada ao tráfico, um pouco mais organizada», adianta o intendente Rui Costa, responsável pela Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Lisboa.

Foi precisamente para combater o fenómeno que a DIC criou a esquadra dedicada ao tráfico de droga. «Todas as equipas vieram para aqui trabalhar no dia 11 de março de 2025. Quando reestruturámos aqui a 4ª EIC [esquadra dedicada ao tráfico], fizemos algo completamente diferente: Dividimos a nossa estratégia que assenta em três níveis. Aquilo que nós chamamos de nível 1, que são as investigações à venda direta, aquilo que vulgarmente chamado de bancas. O nível 2, que são os abastecedores destas bancas. São as pessoas que fazem chegar a droga às bancas. E o nível 3, aquilo que vulgarmente, pela Europa fora, se chama de High Value Targets, mas que são aqueles alvos de importante interesse. Que são, no fundo, os gestores do negócio».

Quando a VERSA saiu em reportagem, com a PSP, num carro descaracterizado e passou em zonas como o Bairro Carlos Botelho ou a Quinta do Lavrado, pouco ou nada viu. Nem toxicodependentes, nem bancas. O tráfico modificou-se e subiu de escalão. «Na Quinta do Lavrado e nesses locais, na Picheleira, temos esse tipo de alvos que já referi», justifica o intendente da PSP.

«Quanto mais organizado, menos visível. Portanto, há esta lógica. E em algumas zonas da cidade isso acontece. Se lá for, não vai sentir qualquer tipo de insegurança. Quanto mais organizada é a estrutura de tráfico, menos visível, e menos sentimento de insegurança cria», afirma Rui Costa, que faz o contraponto: «Já se for à Quinta do Loureiro e vir os toxicodependentes, as bancas montadas, as pessoas em corrupio, vai sentir-se insegura. Portanto, quanto mais visível, mais sentimento de insegurança. Quanto menos visível, menos sentimento de insegurança».

Estas estruturas de tráfico estão bem oleadas. Funcionam na penumbra dos dias e das noites, fornecendo droga para as bancas situadas noutros bairros onde existe, sobretudo, venda direta. «A luta contra a venda de droga não se pode fazer só na venda direta. Ela é fundamental, mas quem abastece, que é o nível 2, e quem está acima de tudo isto, são os chamados High Value Targets, têm de ser investigados e condenados. Só assim é que nós debelamos a estrutura desde baixo até o fim».

Negócios de alto nível

Na zona da Picheleira, que incluí o Bairro Branco, Portugal Novo, Quinta do Lavrado e o Bairro João Nascimento Costa, estão este tipo de negociantes de estupefacientes. «Não são os importadores ou as pessoas que recebem em primeira mão a droga. São os indivíduos que, por conta própria ou em grupo, compram a esses importadores e depois revendem para as bancas».

No terreno, o comissário João Prisciliano começa por levar a VERSA à Quinta do Lavrado. A arquitetura é idêntica à da Quinta do Loureiro: o bairro só tem uma entrada e uma saída. A frente dos prédios, surpreendentemente, dá para as traseiras. Apenas conseguimos avistar dois suspeitos de venda direta ao consumidor. «Aqui os consumidores têm de entrar dentro do prédio. Eles estão ali a angariar», explica o comissário da PSP.

Do outro lado do vale fica o Bairro Branco, a nossa próxima paragem. João Prisciliano lembra-se bem da operação policial de abril de 2023. «Aqui tivemos um bom processo de droga em que eles se apoderavam mesmo dos halls de entrada e trancavam as portas por dentro com ferrolhos. Os moradores quase que tinham de fazer fé que eram moradores para poderem entrar nos prédios». A venda era feita ao postigo. «Os consumidores também não entravam. Eles faziam uma janelinha na porta, a pessoa punha a nota e recebia a droga». Tudo isto acabava por tornar os prédios à prova de polícias. Conta-se, aliás, que a polícia – à paisana – só conseguiu entrar num dos prédios, no dia da grande rusga, quando um dos moradores passou a porta.

Das facadas à droga escondida

Dali vamos para o Bairro Portugal Novo. «A primeira apreensão de droga quando cheguei à investigação criminal foi aqui no Portugal Novo», recorda João Prisciliano. Um acaso levou à apreensão de 14 quilos de droga. «Viemos por causa de um crime que não tinha nada a ver com droga. Foram umas facadas que aconteceram no McDonald’s do Estádio de Alvalade. Uma das pessoas que nós tínhamos visto tinha tido aqui uma casa que estava em obras», relata o comissário. «Nós pedimos buscas para vir buscar a roupa dessa pessoa. A casa efetivamente estava em obras, mas depois dentro da palete do cimento encontrámos 14 kg de haxixe».

A última apreensão de que há notícia, no Portugal Novo, data de 2023. A polícia chegou no dia 5 de abril. No Portugal Novo, à semelhança do que acontecia no Bairro Branco, os residentes estavam reféns dos traficantes. Autênticas fortificações erguiam-se nos prédios, para evitar a entrada súbita da polícia. Foram feitas, ao todo, nove detenções, e apreendidas 3 mil doses de cocaína, heroína e haxixe.

Durante esta visita ao bairro também não detetamos suspeitos à vista. «É mais difícil virem aqui comprar droga, é um bairro muito escondido. Mas pode acontecer», garante Prisciliano.

A VERSA voltou, mais tarde, ao Portugal Novo. Desta vez a pé, entrámos pelo Largo Roque Maia, junto à esquadra da PSP das Olaias. Ao pôr a lupa sobre o bairro já somos confrontados com os olhares de esguelha dos vigias, que controlam, precisamente, as entradas e saídas de pessoas do Portugal Novo. A droga continua a ser vendida, nos prédios, mas de forma muito discreta. Tal como na Quinta do Lavrado, é preciso entrar nos lotes.

O bairro assusta mais pelo aspeto do que pelos tais vigias, estrategicamente posicionados. Os prédios estão descarnados e há vigas à mostra. Os fossos de elevador ficaram abertos e acessíveis a quedas vertiginosas de mais de cinco metros de altura. Tudo ali cheira a miséria. Sente-se alguma tensão. Talvez seja das notícias do muito que já por ali se passou. «Uma vez mataram um velhinho para lhe ficarem com a casa», conta uma cigana simpática e de sorriso fácil. Das poucas pessoas que, por ali, vemos de cara aberta.

Grandes quantidades

De volta à visita que a VERSA fez com a PSP, estamos agora no Bairro João Nascimento Costa onde uma banda de prédios coloridos esconde, também, o flagelo do tráfico de droga. «Estes prédios tiveram uma grande intervenção, foram arranjados e são da Gebalis, também».

Aqui, tal como no vizinho Bairro Branco, os moradores estavam presos nas suas gaiolas urbanas. «Os prédios tinham portas em ferros e eles [traficantes] alteraram essas portas. Chumbaram as portas e as pessoas tinham de pedir por favor para entrarem nos seus próprios prédios».

À semelhança do Bairro Branco, o tráfico alterou-se e a maior parte do que aqui acontece já não é venda direta. «Aqui acredito que haja muita droga dentro de algumas casas. Depois é escoada para chegar ao consumidor final. É trazida para cá em grandes quantidades e depois há quem a venha cá buscar, para a venda direta. Há uns anos também apreendemos aqui muitos tipos de droga e armas», afirma o comissário João Prisciliano.

A última paragem volta a ser na rua Carlos Botelho – a que ladeia o Bairro Branco – numa zona de habitação privada. Aliás, desta ponta da rua nada faz prever o que está a acontecer mais ao fundo.

Fizemos uma segunda visita à Picheleira, desta vez para nos encontramos com Tiago Alves, da Associação de Moradores Viver Melhor no Beato. O homem, de 48 anos, assistiu a toda a evolução naquela zona da cidade. Morava nas barracas da Quinta dos Embrechados, um terreno próximo do atual Bairro Branco. «Este bairro é muito pobre. Agora estamos melhores, graças a Deus, porque o flagelo da droga desapareceu. Por exemplo, o ano passado, ou há dois anos, parecia a moda dos anos 90, quando eu era adolescente. Em termos de elevadores, escadas, andar na rua, chegou a ser perigoso. Houve vários assaltos».

«As pessoas eram prisioneiras nos prédios. Eles [traficantes] trancavam os elevadores, as portas, e as pessoas não podiam passar. E depois houve uma grande intervenção policial. A droga aqui aliviou um pouco, não há pontos de venda como havia antigamente», afiança Tiago, dando a entender que a droga agora estará fora das ruas mas ainda no bairro.

Questionamos diretamente: «Mas há droga aqui ou no Lavrado?». Responde a medo. «É capaz. Porque este pessoal vai muito às suas raízes. E eles, infelizmente, cresceram neste mundo da droga. Então, muitos deles voltam a traficar, a consumir». Insistimos: «É possível que haja ainda pessoas que tenham negócios em casas escondidas?». De novo uma resposta evasiva, talvez por receio de represálias. «É possível, sim. Claro que é possível».

Volta a reforçar que, pelo menos aparentemente, o bairro melhorou. «Há dois anos isto aqui era só seringas para um lado, pratas para outro. Todos os dias de manhã andávamos aí a limpar isso». Os moradores também passaram a viver com mais tranquilidade. «Nota-se que há um ar mais aliviado e a própria requalificação do bairro também ajuda. Agora, quando há essa população que consome, mete medo. As nossas crianças, os nossos idosos têm medo».

Rapariga vende-se por 10 euros

Certo é que houve um caso, em concreto, que não sai da cabeça deste colaborador da associação de moradores. «Uma vez ia a sair do trabalho, ia para casa, vem uma miúda e diz-me assim: ‘Ó tio, dás-me 10 euros e fazes o que quiseres comigo. Era uma miúda com idade para ser minha filha, não tinha mais de 18 anos e já andava na vida da droga. Fiquei a olhar para a miúda sem saber o que dizer. Ainda por cima, ela costumava vir aqui à associação comer e tomar banho. Não sei que é feito dela...’».

Depois da operação policial que virou o bairro do avesso e acabou, quase na totalidade, com a venda direta aos consumidores, Tiago conta que «muitos dos traficantes reformaram-se, com medo de irem presos. Outros foram presos. E há alguns que ainda vivem aqui. Na verdade, temos aqui uma grande mistura, porque também há gente que trabalha e que leva a sua vida com normalidade».

O isolamento dos bairros é, na opinião de Tiago Alves, outra questão que leva a que problemas sociais, como a venda e consumo de droga, aconteçam. «É bairro social, está escondido. Isso não ajuda em nada. Porque isto não se vê na Avenida de Roma, no bairro de Alvalade. Não há bairros sociais nesses sítios».

Com o isolamento e os problemas sociais chega, também, a discriminação. «Claro que somos discriminados por sermos do bairro. Aliás, mesmo da parte da Picheleira velha se nota isso em relação a nós. Mesmo o cuidado com estes bairros não é o mesmo. Temos aqui estes caixotes do lixo velhos, a deitar por fora, enquanto fora dos bairros já estão instaladas ilhas subterrâneas para a recolha do lixo».

A falta de patrulhamento policial é outra questão que preocupa este morador. «O policiamento devia ser normal, haver mais policiamento na rua. Haver mais iluminação no bairro, passadeiras, construir coisas».

Outra preocupação são as lojas fechadas, um problema que a VERSA já tinha encontrado noutro bairro associado à venda de droga, a Ameixoeira. Também por aqui, as lojas municipais do bairro estão todas encerradas. Quem aqui vem, só vem porque cá mora ou vem abastecer-se de droga. «As lojas estão fechadas e é uma pena até porque há pessoas que as queriam alugar. Não há uma mercearia aqui no bairro. Para qualquer pequena coisa as pessoas têm sempre de se deslocar. E na Quinta do Lavrado é a mesma coisa. Os moradores têm de sair de carro ou de autocarro até ao Alto de S. João para irem comprar pão».