Morrer na Praia
Leonardo Padura
Porto Editora
«— Que se foda...» é a primeira frase de Morrer na Praia, de Leonardo Padura. Paul Auster escreveu que «a frase mais importante de um livro é a primeira frase. Tudo o resto decorre dela». Padura nasceu em Havana, em 1955, e por lá continua, solidário com uma ilha mortificada pelo vizinho americano e por um regime que cai de podre há tantos anos que os cubanos deixaram de sentir o fedor – mas ainda há quem não se tenha resignado, «depois de tantos anos a viver entre a merda existencial e histórica, o fedor dos dejetos ainda o repugnava.» Quem espera encontrar em Morrer na Praia Mario Conde – o detetive que queria ser escritor, que sonhava escrever «romances esquálidos e comovedores»e que acabou a vender livros em segunda mão – vai encontrar Rodolfo Bermúdez, irmão do parricida Geni. E, mais uma vez, Padura constrói a ficção sobre a realidade – de uma história e de Cuba. Rodolfo, como Conde, é Padura a observar Cuba: o socialismo que perdeu o sentido, a amizade que se mantém de livro para livro, e uma comovente melancolia. «Que se foda...» AMS
Elena sabe
Claudia Piñero
Presença
Claudia Piñeiro nasceu em Burzaco, na província de Buenos Aires, em 1960, e é hoje a terceira autora argentina mais traduzida, depois de Borges e Cortázar. Publicado originalmente em 2007, Elena Sabe foi finalista do International Booker Prize em 2022 e adaptado para filme pela Netflix, em 2023.
Elena Sabe podia ser um policial convencional, mas não é, temos uma mãe que padece de Parkinson e de muitas outras dores, anteriores e posteriores à morte da única filha, Rita. Elena, com o corpo já a meio caminho de lhe pertencer, decide investigar sozinha a morte da filha, encontrada enforcada na igreja que costumava frequentar – porque a polícia já arquivou o caso como suicídio, e porque Elena sabe que não foi. O tempo da narrativa mede-se em comprimidos: ‘A manhã (segundo comprimido)’, ‘Meio-dia (terceiro comprimido)’, ‘A tarde (quarto comprimido)’ – a única forma de Elena manter algum controlo sobre as próprias pernas e sobre uma certeza que recusa deixar cair, até já não ter escolha. AMS
Autobiografia da minha mãe
Jamaica Kincaid
Alfaguara
O La Vanguardia já escreveu que «fontes bem informadas em Estocolmo sussurram há vários anos o nome de Jamaica Kincaid como séria candidata ao Prémio Nobel de Literatura». Kincaid é professora de Estudos Africanos e Afro-Americanos em Harvard. Publicado originalmente em 1996, Autobiografia da Minha Mãe é considerada uma das obras mais marcantes da escritora, nascida na ilha caribenha de Antígua e Barbuda.
«A minha mãe morreu no momento em que nasci e, por isso, em toda a minha vida, nunca houve nada entre mim e a eternidade; senti sempre um vento sombrio e negro nas costas». É assim que começa uma autobiografia impossível.
Kincaid é uma das escritoras mais profusa e profundamente elogiadas pela crítica – entre tantos, na Paris Review: «Não recordo nenhum outro escritor cuja voz contenha tamanha intensidade de raiva e de amor. É uma sonoridade mágica, litúrgica, cheia de música». AMS
Se guardasses os nossos pecados
Andrea Bajani
Alfaguara
Andrea Bajani nasceu em Roma, em 1975, e é autor de ficção, poesia, teatro e reportagem, com uma dezena de romances e uns quantos prémios. O Aniversário, publicado em 2025 (Alfaguara), foi a estreia de Bajani em Portugal. É a história de um afastamento – físico e emocional. «Faz dez anos que, nesse dia, vi os meus pais pela última vez. Desde então, mudei de número de telefone, de casa, de continente, construí um muro inexpugnável, coloquei um oceano entre nós. Foram os melhores dez anos da minha vida».
Se Guardasses os Nossos Pecados, publicado este ano, é, mais uma vez, uma história de abandono. Passa-se em Bucareste, onde Lorenzo refaz o percurso que, anos antes, levou a sua mãe, Lula, para longe – depois de um reencontro que não chega a acontecer, porque ela morre precisamente nesse momento.
Os dois livros partilham a mesma obsessão temática, o abandono: o filho que se afasta e o filho que tenta, tarde demais, aproximar-se – numa escrita que nos agarra e leva pela mão. AMS
Portofino Blues
Valerio Aiolli
Quetzal
O corpo de Francesca Vacca Agusta só foi encontrado 14 dias depois, a mais de 370 quilómetros de distância — sem que ninguém, ao longo de toda a costa da Ligúria, o tivesse avistado. Se estivesse a escrever uma notícia sobre o crime ocorrido em 2001, este seria provavelmente o lead. Mas foi o florentino Valerio Aiolli quem escreveu o livro que reabriu o mistério da condessa que caiu de um penhasco italiano.
Francesca desapareceu na noite de 8 de janeiro de 2001, por volta das sete horas, no jardim da Villa Altachiara, em Portofino. O corpo só foi devolvido pelas ondas a 22 de janeiro, em Cap Bénat, na Costa Azul francesa — a mais de 370 quilómetros de Portofino. Todas as perguntas feitas então continuam, 25 anos depois, sem resposta.
Um policial, obra de estreia do autor em Portugal, que atravessa três décadas de transformação profunda na sociedade e na estética italiana — dos anos 60 aos anos 80. AMS
Os Lázár
Nelio Biedermann
Bertrand Editora
Os Lázár é o segundo romance de Nelio Biedermann, escritor suíço nascido em 2003, com raízes na antiga nobreza húngara por parte do pai (os avós fugiram para a Suíça na década de 1950). O livro conta a história da família Lázár, do início do século XX até à revolução húngara de 1956, atravessando o colapso do Império Austro-Húngaro, as duas guerras mundiais e a sovietização do país.
Escrito quando o autor tinha apenas 21 anos, Lázár foi vendido a mais de 20 editoras internacionais ainda antes da publicação. Há quem considere que o hype editorial é justificado pela qualidade do texto, e quem suspeite que a idade do autor e a sua história familiar tenham pesado tanto, ou mais, na construção do sucesso do que o próprio romance. Estou do lado dos que comparam — com alguma excitação, admito — Os Lázár a Os Buddenbrook, de Thomas Mann, ou a Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. AMS
Estranhos
Belle Burden
Bertrand Editora
Um dia destes, reparei que Estranhos estava no top de não-ficção e, por instantes, fiquei surpreendida – mas o equívoco é meu, não dos livreiros.
Estranhos – Memórias de um Casamento é o fenómeno editorial de 2026, feito de elogio literário e de controvérsia sobre a veracidade dos factos. É o primeiro livro de Belle Burden. A Netflix já adquiriu os direitos para uma adaptação cinematográfica; Gwyneth Paltrow é a protagonista.
Burden é uma herdeira formada em Harvard, descendente dos Vanderbilt, e tem, inicialmente, o mesmo desconforto com o divórcio que, no século XIX, teria Alva Vanderbilt – que casou a filha, Consuelo, uma das célebres dollar princesses, com o 9.º Duque de Marlborough.
Jornalistas de investigação garantem que Burden nunca teve as dificuldades financeiras que conta no livro. E, naturalmente, também a ausência do ponto de vista do ex-marido (‘James’, pseudónimo de Henry Davis) tem sido lida por parte da crítica como um desequilíbrio narrativo deliberado. Mas quem lê Estranhos não fica muito incomodado com a falta de honestidade factual da autora – o livro não podia ser mais atual. AMS
Cervantes Íntimo
José Manuel Lucía Megías
Quetzal
«Mas, afinal, Cervantes era ou não homossexual?» A resposta, em quase 300 páginas, é feita de rigor e de ironia por um dos cervantistas mais relevantes da atualidade.
Cervantes Íntimo. Amor e Sexo Nos Séculos de Ouro é da autoria de José Manuel Lucía Megías, catedrático da Universidade Complutense de Madrid e autor de uma trilogia biográfica sobre Cervantes publicada entre 2016 e 2019.
«Os mitos necessitam de um relato numa única direção, de manchetes impactantes e incisivas e de uma estrutura perfeita em cada um dos seus argumentos. Exatamente ao contrário do que se passa na vida», escreve Lucía Megías. O livro é sobre o ‘Cervantes-homem’ que viveu quase setenta anos, entre os séculos XVI e XVII, os Séculos de Ouro – «aquele tipo que, além de grande escritor, comia, bebia, ria e, sem dúvida, fodia», como escreve, no prefácio, Alejandro Amenábar, realizador de El Cautivo (sobre o cativeiro de Cervantes em Argel, Lucía Megías foi o assessor histórico do filme).
E é um prazer de ler. AMS
Aliados em Guerra
Tim Bouverie
D. Quixote
«Só existe uma coisa pior do que lutar com aliados. É lutar sem eles». Winston Churchill, inevitavelmente citado a abrir Aliados em Guerra, e não por acaso: a relutância norte-americana em entrar na guerra exasperou e desesperou o primeiro-ministro britânico, que nunca confiou em Estaline.
A novidade está na obra de Tim Bouverie, historiador e ex-jornalista, formado em História pelo Christ Church, em Oxford, autor de Appeasing Hitler (2019) e Aliados em Guerra (2025), que combinam rigor de investigação arquivística com uma escrita fluida, atravessada de ironia.
Em Aliados em Guerra, a história sai dos domínios da Grande Aliança e fala-nos de parcerias moralmente incómodas: a versão simplificada de uma ‘resistência francesa’ cooperante com Londres e Washington e a irritação que De Gaulle suscitava tanto em Churchill como em Roosevelt; a atitude pragmática, mas moralmente duvidosa, da Polónia; o caos trágico da Grécia; a Espanha franquista; a maçada da Irlanda neutra; a confusão da Jugoslávia, divida entre monárquicos e os partisans comunistas de Tito; e o aliado menos previsível, a China Nacionalista de Chiang Kai-shek. AMS
Agente ZigZag
Ben Macintyre
D. Quixote
Vejo a estante e dou-me conta de que nem Ben Macintyre se cansa de escrever livros, nem eu me canso de os ler. Acontece com Macintyre o que acontecia com John le Carré: nunca íamos de férias sem ele. E acontece com Agente ZigZag, a inverosímil história de Eddie Chapman – ‘Fritzchen’ para os nazis, e ‘Zigzag’ para o MI5 –, que o NYT diz ser uma mistura das intrigas de espião contra espião típicas de John le Carré com a farsa elegante de Evelyn Waugh. Está tudo dito (escrito). AMS
A Península das Casas Vazias
David Uclés
D. Quixote
Se tivesse de recomendar UM livro, a escolha seria A Península das Casas Vazias, de David Uclés (D. Quixote) – 15 anos de trabalho para um livro feito «de camadas e camadas», em mais de 700 páginas, que, mais do que recontar factos históricos, procura o «luto partilhado» de um trauma que Espanha ainda não processou, a dez anos de se assinalarem os 100 anos do início de um conflito dilacerante (1936). AMS
Escrever
Stephen King
Bertrand
Não se esperem do mestre do terror palavras bonitas de motivação. Escrever (On Writing: A Memoir of the Craft, no original) apresenta-se em dois momentos. No primeiro, um relato sem retoques da vida e formação de King enquanto escritor. Este percurso de estrondoso sucesso – centenas de milhões de exemplares vendidos – não foi isento de dramas e acidentes. E é isso que o torna tão interessante.
Depois, há uma janela para a oficina do escritor. Uma espécie de curso rápido de escrita, com conselhos para o principiante. Dos mais técnicos – ritmo, construção de personagens, descrições, diálogos, etc. – aos mais práticos. Como este: «É aconselhável para qualquer escritor, em especial para o iniciante, eliminar todas as distrações possíveis. Se continuar a escrever, começará a filtrar as distrações naturalmente. No início, porém, é melhor tomar providências para as afastar antes de começar».
Caberá depois a cada leitor decidir o que fazer com estes conselhos, tendo apenas uma certeza em mente: um sucesso como o de King não se repete. JCS
Espelho Partido
Mercè Rodoreda
D. Quixote
Iniciado em 1968 no exílio em Genebra, cidade que Rodoreda considerava aborrecida e por isso propícia à escrita, e terminado em 1974 já no seu chalé catalão, Espelho Partido atravessa vidas e gerações. Romance pessimista, acompanha a ascensão e declínio de uma linhagem na Barcelona anterior à Guerra Civil. Não são porém os acontecimentos a parte excecional da obra, mas a captação dos ambientes – a escrita de Rodoreda confere encanto até ao banal – e as nuances psicológicas das personagens.
Rosa Montero definiu de forma certeira as qualidades deste romance. Demos-lhe a palavra: «Rodoreda precisou de viver e fruir e sofrer a quase totalidade da sua existência para chegar a escrever esta obra-prima. Um livro tão impregnado de dor e de melancolia, tão atravessado pelo sentimento agudo da perda, não se pode improvisar. É preciso tê-lo sentido, é preciso tê-lo vivido de alguma forma. Os manuais e as enciclopédias costumam indicar, com fastidiosa e míope unanimidade, A Praça do Diamante como a melhor obra de Rodoreda. E sim, claro que se trata de um belíssimo romance, de uma história cruel e comovente; mas para mim não tem comparação com Espelho Partido, que é um livro muito mais ambicioso, muito mais complexo e mais arriscado. Infinitamente mais profundo e mais tremendo. Digamos que, para mim, A Praça do Diamante é uma belíssima sonata; ao passo que Espelho Partido é uma sinfonia». JCS
Showa – Uma História do Japão
Shigeru Mizuki
Devir
Quando o imperador Hirohito assumiu o trono imperial sucedendo ao seu pai (morto no dia de Natal de 1926), escolheu para título da nova era dois caracteres que significavam ‘paz iluminada’ – Showa. Não podia estar mais equivocado. Na realidade, este seria um dos períodos mais turbulentos, se não o mais turbulento, da história do Japão, que conheceu em poucas décadas uma expansão acelerada e uma não menos acelerada queda no abismo.
É o retrato deste período em toda a sua violência e absurdo, numa perspetiva pessoalíssima, que Shigeru Mizuki faz na série Showa – Uma História do Japão, de que saiu agora o segundo de quatro volumes. O fio condutor desta narrativa em banda desenhada é a própria vida do autor.
Nascido em Osaka em 1922, Mizuki foi veterano da Segunda Guerra Mundial, tendo sido colocado na Papua Nova Guiné. Regressou ao Japão devastado pela experiência e totalmente convertido ao pacifismo. Teve vários empregos antes de começar a carreira como artista de mangá, incluindo condutor de riquexós e vendedor de peixe. Em Showa, junta ao puro talento – já reconhecido desde cedo pelos professores – a força da experiência. Este segundo volume, dedicado aos anos 1939-1944, cobre justamente o início da guerra e a comissão de Mizuki na Papua Nova Guiné. JCS
Toda a beleza do mundo
Patrick Bringley
Minotauro
No seu interior, o Museu Metropolitano de Nova Iorque contém um templo egípcio de 800 toneladas, sarcófagos romanos, um autorretrato de Vincent Van Gogh e uma sala desenhada por Frank Lloyd Wright.
Patrick Bringley, um vigilante de museu cheio de talentos, oferece-nos uma visita guiada aos bastidores desta arca de tesouros, sob a perspetiva de quem lá trabalha diariamente e tanto se extasia perante as obras-primas como tem de lidar com as questões mais comezinhas do quotidiano.
«As manhãs são de calmaria. Chega ao meu posto quase meia hora antes de abrirmos e não há ninguém que me faça descer à Terra. Sou só eu e os Rembrandts. Só eu e os Botticellis. Só eu e estes fantasmas e vibrantes que quase consigo acreditar que são de carne e osso. Se pensarmos na Ala dos Velhos Mestres do Met como uma aldeia, tem quase nove mil habitantes pintados (8496 quando fiz a minha contagem anos mais tarde, uma galeria de cada vez).»
O sucesso deste relato, que começa com uma tragédia pessoal, foi tão grande que Bringley acabou por ser convidado a levá-lo ao palco num one-man-show. JCS
O Alienista
Machado de Assis
Guerra & Paz
Num longo artigo publicado em maio de 1990, Susan Sontag enaltecia um autor de que a esmagadora maioria dos leitores da New Yorker, mesmo os mais cultos, jamais tinha ouvido falar: um tal Machado de Assis. Sontag achava espantoso que um autor «de tal grandeza» não ocupasse ainda o lugar que merecia na história da literatura.
O Alienista é mais uma demonstração cabal do génio – humorístico, heterodoxo, sarcástico, por vezes inconveniente – de Assis. Ambientado numa vila fictícia da região do Rio de Janeiro, Itaguaí, fala-nos de Simão Bacamarte, um médico «ativo e sagaz em descobrir enfermos» que decide conduzir uma experiência científica. O seu alvo: os loucos, que encerra compulsivamente na Casa Verde.
«Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão», ouvimo-lo explicar com eloquência. «Por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia». Mas é justamente aí que reside o busílis da questão: no equilíbrio… JCS
Sete Rios
Vanessa Taylor
Temas & Debates
Eis uma nova e refrescante forma de recapitular a história da humanidade, dos faraós à Guerra Fria e do Neandertal às alterações climáticas: através de sete rios localizados em quatro continentes – o Nilo, o Danúbio, o Ganges, o Tamisa, o Mississípi, o Níger e o Yangtzé (o Amazonas foi deixado de fora).
«Os rios são uma espada de dois gumes, especialmente para os residentes», escreve Vanessa Taylor, historiadora dos rios, da água e do ambiente. «Fornecem água às pessoas, aos animais e à agricultura, uma via de transporte para o comércio e os exércitos, e um certo grau de defesa. Contudo, na qualidade de fronteiras naturais, são também o local evidente para travar combates. E o Danúbio, que atravessa a Europa ao longo de mais de dois mil e oitocentos quilómetros, foi um íman para partes em conflito».
Esse passado tumultuoso continua a emergir à superfície: por estes dias quentes de agosto, a seca e o decorrente baixo nível do Danúbio revelaram destroços de navios nazis afundados durante a Segunda Guerra Mundial. JCS
Pão de anjos
Patti Smith
Quetzal
Em finais do século XIX, os impressionistas valorizavam na obra de arte uma qualidade acima das outras: a sincerité, a sinceridade. Os quadros que faziam podiam ser mais ou menos bem conseguidos, muito ou pouco bonitos, mas desde que fossem sinceros, genuínos – ao contrário da arte dos académicos, que consideravam afetada e artificial – tinham validade.
A escrita de Patti Smith transpira essa honestidade de quem não procura fazer boa figura, mas apenas contar as coisas tal como as viveu. Nestas páginas acompanhamos a infância e a fase de formação da artista, as particularidades do círculo familiar, a descoberta de um novo mundo, as conquistas e as fragilidades, a amizade com celebridades como Robert Mapplethorpe, William Burroughs e Bob Dylan.
Recentemente – não consta do livro –, a cantora foi recebida pelo Papa Leão XIV no Palácio Apostólico (e já antes tinha sido recebida pelo Papa Francisco), o que não deixa de ser curioso tratando-se de alguém que escreveu numa das suas canções: «Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus»). À luz da inquietação espiritual manifestada neste Pão de Anjos, esse encontro entre o Papa e a sacerdotisa do punk deixa de causar estranheza. JCS
A Cada Um o Seu
Leonardo Sciascia
Presença
«Li o teu policial, que não é um policial, com a paixão com que se leem os policiais», escrevia Italo Calvino a Sciascia em 1965, nas vésperas da publicação de A Cada Um o Seu.
O romance abre com um bilhete anónimo que vem agitar a pacatez da vida rotineira numa vila da Sicília: «Vais morrer pelo que fizeste». O destinatário – o respeitável farmacêutico, acerca de quem correm rumores de que gosta de namoriscar as clientes – pouco se preocupa com o teor da ameaça. Mas dias depois aparece brutalmente morto no local onde tinha ido caçar, juntamente com o seu amigo médico.
Afinal seria o bilhete uma ameaça ou uma manobra de diversão? O discreto e solitário Laurana, professor de liceu, investe o seu tempo e capacidades intelectuais na tentativa de decifrar a enigmática mensagem e inicia uma investigação por conta própria. As suas indagações levam-no ao meio eclesial – afinal, o bilhete fora recortado do L’Osservatore Romano, o diário da Santa Sé, cujo lema, impresso em latim abaixo do cabeçalho reza ‘Unicuique suum’, ‘A cada um o que é seu’, uma máxima romana a que S. Agostinho deu conotações religiosas – o que permite a Sciascia mostrar o seu anticlericalismo apurado.
Levam-no também à esfera política, para descobrir que a morte do farmacêutico, longe de ser um crime circunstancial, pode ter raízes mais profundas no tecido social e no agreste solo siciliano. JCS
Cartago – O império que desafiou Roma
Eve MacDonald
Bertrand
Em outubro de 202 a.C., os dois maiores comandantes militares daquele tempo encontraram-se frente a frente para uma conversa. Embora ambos dominassem o grego, cada um falou na sua língua materna. Cipião liderava as forças de Roma, Aníbal as de Cartago. Uma década e meia antes, aproximadamente, o general cartaginês, que era comparado a Hércules, atravessara os Alpes com o seu exército de elefantes e ocupara a capital dos Taurinos, a atual Turim. Estivera às portas de Roma, mas, sem meios para impor o cerco, retirara para o sul da Itália.
Agora os dois exércitos enfrentavam-se no Norte de África, em Zama. Já não era Roma, mas Cartago, que estava sob ameaça.
Cartago – O império que desafiou Roma descreve os mais de seis séculos entre a ascensão e a queda deste império norte-africano, bem como as complexas relações no Mediterrâneo, incluindo a Península Ibérica. Com rigor, clareza e abundância de detalhes – e, não menos importante, sem erudição desnecessária. JCS