quinta-feira, 11 jun. 2026

Guerras nas concelhias agitam PS e expõem divisões

Apesar dos apelos à unidade de José Luís Carneiro, as disputas em Cascais, Sintra e Coimbra abrem brechas profundas pelo controlo territorial do partido.
Guerras nas concelhias agitam PS e expõem divisões

Apesar dos esforços do líder socialista, José Luís Carneiro, em ter em cada estrutura local do partido uma imagem de unidade, o SOL sabe que há casos em que não tem sido possível fazer acordos para listas únicas para as eleições internas nas concelhias e federações socialistas, marcadas para os dias 19 e 20 de junho.

Ao que o nosso jornal apurou, a intenção do secretário-geral era evitar batalhas ou possíveis frações internas, mas há casos em que estas divisões falaram mais alto. Em Cascais e em Sintra estas disputas continuam a aprofundar-se após os resultados das últimas eleições autárquicas, alimentando a perceção de que o partido poderá caminhar para uma perda crescente de influência política nos dois concelhos.

Nos bastidores socialistas, cresce a ideia de que os grupos derrotados continuam a lutar pelo controlo das estruturas locais, enquanto novas figuras procuram ocupar o espaço político deixado vazio pelo desgaste das antigas lideranças. «Estamos perante poderes instalados que foram derrotados nas últimas eleições contra o outro grupo que quer ocupar o espaço», diz fonte socialista ao Nascer do SOL.

Em Cascais, João Ruivo, atual presidente da concelhia e que foi o candidato do PS à Câmara de Cascais nas eleições de outubro de 2025, recandidata-se à liderança da estrutura local para um novo mandato, mas Ricardo Pires apresenta-se como o rosto da lista opositora. «Tinha-se demitido da concelhia meses antes e conta agora com o apoio político de figuras como o deputado Miguel Costa Matos», explica a mesma fonte.

O cenário repete-se em Sintra entre Carlos Vieira e João Cabral. Carlos Vieira, antigo diretor delegado dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Sintra foi o primeiro a formalizar a sua candidatura - já liderava a secção de Sintra do PS desde julho de 2024, surge associado à estrutura que apoiou Ana Mendes Coutinho, de quem foi diretor de campanha, sendo politicamente próximo de Bruno Parreira - propõe uma estratégia de união interna e proximidade. No entanto, o nome de João Cabral, o atual presidente da União de Freguesias de Massamá e Monte Abraão, começa a ganhar peso entre os setores que defendem uma renovação do partido.

A comparação entre Cascais e Sintra começa, assim, a ser inevitável dentro do próprio PS, uma vez que são dois concelhos estratégicos onde as rivalidades internas parecem estar a impedir uma reconstrução política sólida. «Nestes casos, o principal risco para o PS passa por continuar centrado em conflitos internos e disputas de aparelho, afastando-se das preocupações dos eleitores. A consequência poderá ser a transformação do partido numa força politicamente residual em dois dos mais importantes concelhos da Área Metropolitana de Lisboa», admitem fontes socialistas ao SOL.

Também em Coimbra vão-se intensificado estas disputas internas. A eleição do próximo líder distrital do PS/Coimbra deverá ser disputada por Américo Baptista - que conta com apoiantes como António Campos (co-fundador do PS, antigo governante e ex-deputado ao Parlamento Europeu) - eJoão Portugal, o atual presidente da federação. Ao que o SOL apurou, o apoio de António Campos à candidatura de Américo Batista é visto como um sinal claro de alinhamento dos setores históricos do partido contra a atual liderança federativa. Vários militantes interpretam esta movimentação como uma tentativa de recuperação de influência por parte de antigos quadros e estruturas tradicionais do PS de Coimbra. Já do outro lado está João Portugal, dirigente associado à ala próxima de Pedro Nuno Santos. O atual presidente da Federação integrou, durante os últimos anos, o núcleo político mais próximo do antigo líder socialista, sendo considerado um dos quadros emergentes da nova geração ligada ao pedronunismo dentro do distrito. «A disputa interna em Coimbra acaba por refletir uma tensão mais ampla dentro do PS nacional: o confronto entre estruturas tradicionais do partido e dirigentes associados ao ciclo político mais recente», reconhecem fontes socialistas.

Mais tranquilo poderá ser o destino no Porto, em que Luís Catarino deverá avançar como candidato à concelhia do PS no Porto para suceder a Tiago Barbosa Ribeiro - chegou a ser vice-presidente do grupo parlamentar e é atualmente presidente da Comissão Parlamentar de Trabalho, Segurança Social e Inclusão - que foi candidato à autarquia em 2021, derrotado, com 18% dos votos, frente a Rui Moreira. Já Nuno Araújo, presidente da federação distrital do Porto desde 2024, vai recandidatar-se para o mandato 2026-2028 por acreditar que «ainda há muito por fazer no distrito e no partido».

O mesmo caminho deverá ser seguido em Lisboa. Davide Amado é o atual presidente da Concelhia de Lisboa do Partido Socialista (PS), tendo regressado ao cargo após um período de afastamento por questões judiciais e assim deverá continuar. Recorde-se que, em fevereiro de 2023, Davide Amado demitiu-se temporariamente da liderança da concelhia após ser acusado pelo Ministério Público de participação económica em negócio e abuso de poder num processo relacionado com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Durante o seu afastamento, a liderança foi assumida transitoriamente por Marta Temido.

Também é certo que existirão vários fins de ciclo, já que os mandatos para estes órgãos não podem ultrapassar as quatro eleições, ou seja, oito anos.

Concelhias mais decisivas nas disputas à liderança

Nos últimos anos, as estruturas concelhias do PS estão a assumir um papel cada vez mais determinante nas disputas internas pelo controlo do partido, numa altura em que muitos militantes consideram que o verdadeiro poder de mobilização deixou de estar nas secções e passou para os presidentes das concelhias. «As concelhias transformaram-se no principal ponto de contacto entre as lideranças e as bases do partido, ganhando uma importância estratégica tanto para atuais dirigentes como para futuros candidatos à liderança nacional do PS», alertam fontes socialistas ouvidas pelo SOL. E lembram que, quando decorrem eleições internas, os candidatos fazem questão de divulgar os apoios dos presidentes de federação e, sobretudo, dos presidentes das concelhias. A lógica é simples: cada apoio concelhio representa influência direta sobre os militantes ativos de um determinado território, já que ao contrário das federações distritais, que abrangem vários concelhos e têm uma estrutura mais distante das bases, os presidentes das concelhias mantêm uma relação mais próxima com os militantes locais. Em muitos casos, são eles que conhecem diretamente os quadros ativos, os dirigentes intermédios e os setores mais mobilizados.

Vários socialistas defendem mesmo que as concelhias são hoje mais influentes do que as próprias federações. A transformação organizativa do partido nas últimas décadas terá contribuído para essa realidade. As antigas secções locais, tradicionalmente o núcleo da atividade partidária, perderam capacidade de mobilização e presença no terreno. «Hoje em dia, os militantes ativos já não vão às secções como antigamente», refere uma fonte socialista. «Quem controla uma concelhia consegue chegar mais facilmente às bases do partido», salienta.

Em muitos concelhos, as concelhias acabaram por substituir na prática o papel político que anteriormente pertencia às secções. Em vez de depender de várias estruturas locais dispersas, um presidente de concelhia consegue hoje concentrar influência através de equipas representativas das diferentes freguesias do município.

Aliás, esta evolução está a alterar também a forma como se constrói poder interno dentro do PS. Para muitos dirigentes, controlar federações já não chega. O objetivo passou a ser assegurar o apoio das concelhias, consideradas fundamentais para mobilizar militantes, organizar campanhas internas e consolidar futuras candidaturas nacionais.

E, apesar de as mesmas fontes reconhecerem que internamente o partido tem vindo a assistir a uma crescente atividade nos bastidores, as mesmas fontes sublinham que ainda não existe uma coordenação efetiva entre os vários setores que se estão a reorganizar. O cenário atual é descrito como um período de afirmação individual e preparação estratégica, mais do que uma operação concertada. «Há pessoas a posicionarem-se para o futuro. Há grupos a preparar aquilo que pode vir a acontecer. Mas ainda não existe uma coordenação efetiva», referem.