quarta-feira, 09 set. 2026

Guerra no Médio Oriente e falta de aviões cortam lucros das companhias aéreas para metade

A IATA alerta que a guerra no Médio Oriente e a falta de novas aeronaves deverão cortar para metade os lucros da aviação comercial mundial em 2026. As companhias enfrentam custos recorde de combustível e desvios de rotas, enquanto a Ásia ganha peso no setor
Guerra no Médio Oriente e falta de aviões cortam lucros das companhias aéreas para metade

A aviação comercial mundial deverá ver os seus lucros reduzidos para metade em 2026, pressionada pelo conflito no Médio Oriente, pelo aumento dos custos operacionais e pelos atrasos nas entregas de novas aeronaves.

O alerta foi deixado pela Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA), através do gestor regional para Hong Kong e Macau, Erik Chan, durante uma sessão organizada pela Câmara de Comércio França-Macau.

Segundo as projeções apresentadas, as companhias aéreas deverão obter este ano cerca de 23 mil milhões de dólares (19,7 mil milhões de euros) de lucros líquidos, o equivalente a uma margem de apenas 2%.

Antes do conflito no Médio Oriente, as previsões apontavam para uma rentabilidade aproximadamente duas vezes superior.

“A guerra é realmente o ponto de rutura que reduziu os valores e as projeções, afetando a todos”, afirmou Erik Chan.

Custos sobem mais do que as receitas

Apesar da pressão sobre os resultados, a indústria aérea deverá continuar a crescer em termos de receitas.

A IATA estima que a receita total do setor alcance 1,17 biliões de dólares (cerca de 998 mil milhões de euros) em 2026, mais 9,5% do que no ano anterior.

O problema está nos custos. As despesas operacionais deverão aumentar 13,1%, para 1,12 biliões de dólares (957 mil milhões de euros), crescendo mais rapidamente do que as receitas e comprimindo as margens das companhias.

O conflito no Médio Oriente, a pressão económica dele decorrente e a escassez de aeronaves são, segundo a IATA, os três principais fatores que explicam a deterioração das perspetivas.

O crescimento do número de passageiros terá abrandado de 5% para 2%, enquanto o crescimento do transporte aéreo de carga está próximo de zero.

Petróleo e guerra pressionam preço do combustível

Um dos principais problemas está relacionado com o trânsito de energia no Médio Oriente, nomeadamente através do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo bruto mundial.

Segundo Erik Chan, cerca de 80% desse petróleo segue para os mercados asiáticos. Qualquer interrupção nos principais corredores de transporte pode retirar do mercado cerca de 10 milhões de barris de petróleo por dia, provocando fortes aumentos dos preços.

A margem de refinação, que habitualmente varia entre 15 e 25 dólares, chegou aos 80 dólares em abril, um valor recorde, de acordo com o responsável da IATA.

O combustível para aviação em Singapura ultrapassou posteriormente os 230 dólares por barril.

Desvios aumentam custos dos voos Europa-Ásia

As restrições ao espaço aéreo provocadas pelos conflitos obrigam também as companhias a alterar as rotas.

Nos voos entre a Europa e a Ásia, os desvios podem aumentar entre 5% e 20% a distância percorrida e entre 2% e 10% os custos, segundo a IATA.

“Cada hora extra a queimar combustível” representa uma pressão adicional significativa sobre as transportadoras.

“Somos nós [setor da aviação] que suportamos os custos no final do dia, e as companhias aéreas sofrem efetivamente devido a estas várias razões decorrentes da guerra”, afirmou Chan.

Falta de aviões limita crescimento

A indústria enfrenta ainda um problema estrutural: a escassez global de novas aeronaves comerciais.

Segundo o representante da IATA, o setor contava receber cerca de 5.600 aviões que acabaram por não ser entregues.

Ao mesmo tempo, a carteira mundial de encomendas pendentes ronda os 18 mil aviões, o equivalente a aproximadamente 12 anos de produção.

Esta limitação impede as companhias de aumentar rapidamente a capacidade para responder à procura, mesmo quando o mercado continua a crescer.

China ganha peso na aviação mundial

Apesar das dificuldades, a procura por viagens aéreas continua robusta, sobretudo na Ásia-Pacífico, que deverá assumir um papel cada vez mais importante na indústria.

A China representa atualmente 29% do tráfego aéreo doméstico mundial, medida em passageiros-quilómetro pagos, apenas atrás dos Estados Unidos, com 37%.

A mudança é significativa face ao início do século, quando os Estados Unidos representavam 65% do tráfego doméstico mundial e a China apenas 6%.

“Pode ver-se a força gigantesca da China a acontecer no mercado doméstico chinês, que está a crescer imenso”, afirmou Erik Chan.

A China é atualmente o segundo maior mercado mundial de aviação em contribuição para o PIB nacional, gerando 253,6 mil milhões de dólares (217,4 mil milhões de euros) através do impacto direto, indireto e do turismo associado.

No primeiro semestre de 2026, o país registou 380 milhões de viagens individuais, mais 1% do que no mesmo período do ano anterior.

As companhias aéreas chinesas operavam, em julho, rotas internacionais regulares de passageiros para 177 cidades em 80 países, segundo dados da Administração Estatal de Aviação Civil da China.

Nos primeiros seis meses do ano, as viagens internacionais de passageiros operadas por companhias chinesas ultrapassaram os 40 milhões, num crescimento homólogo de 5,7%.

Ásia deverá ser o novo centro da aviação

A IATA considera que a importância da Ásia deverá continuar a aumentar nas próximas décadas, tanto no transporte de passageiros como na produção de Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF).

A associação prevê que o tráfego aéreo mundial mais do que duplique até 2050, atingindo 21 biliões de passageiros-quilómetros pagos.

“A transição da América para a Ásia já aconteceu no espaço de 25 anos”, afirmou Erik Chan, antecipando que a mesma tendência deverá manter-se.

“Acima do horizonte, o centro de gravidade deste setor está a mover-se para a região da Ásia-Pacífico”, concluiu.