A desinformação sobre alterações climáticas aumentou na Europa em julho, com o negacionismo e as teorias da conspiração a ganharem espaço nas redes sociais, segundo o segundo relatório mensal do Observatório Europeu dos Media Digitais (EDMO).
O documento, elaborado com a participação de 30 organizações de verificação de factos da União Europeia e da Noruega, identifica ainda um novo aumento do recurso à inteligência artificial (IA) para criar ou manipular conteúdos desinformativos.
No total, as organizações que contribuíram para o relatório publicaram 1.397 artigos de verificação de factos durante julho.
Alterações climáticas sobem ao terceiro lugar
A desinformação sobre a guerra na Ucrânia e a imigração continuou a ser a mais frequente, representando, respetivamente, 8% dos conteúdos de verificação analisados.
A imigração deverá, contudo, ganhar ainda maior peso no relatório referente a agosto, devido à crise migratória em Ceuta, iniciada no final de julho.
As alterações climáticas surgem logo depois, com 104 artigos de fact-checking, equivalentes a 7% do total. A proporção aumentou três pontos percentuais face ao mês anterior.
O EDMO relaciona este crescimento com um padrão habitual dos meses de verão, marcados por ondas de calor e outros fenómenos meteorológicos extremos.
Grande parte dos conteúdos falsos identificados recorreu ao negacionismo climático e a teorias da conspiração, mas também à utilização de imagens verdadeiras retiradas do contexto para exagerar os efeitos das temperaturas elevadas.
A desinformação relacionada com a União Europeia representou 6% dos conteúdos analisados, enquanto a relativa à saúde, excluindo a covid-19, correspondeu a 7%.
IA já representa 18% dos conteúdos de desinformação analisados
Outro dos sinais destacados pelo relatório é o aumento do recurso à inteligência artificial na produção de desinformação.
Dos 1.397 artigos de verificação publicados em julho, 253 (18%) identificaram a utilização de IA como estratégia de manipulação.
O valor representa uma subida depois da descida observada em abril e maio e aproxima-se dos máximos registados no início do ano. Em janeiro e março, o recurso à IA esteve presente em cerca de 20% dos artigos analisados.
A tecnologia foi utilizada em julho para criar conteúdos destinados, entre outros objetivos, a atacar figuras políticas, incluindo o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
Também foram identificados conteúdos gerados ou manipulados com IA de natureza anti-LGBTQ+, nomeadamente durante o período associado ao Pride.
Crise em Ceuta provoca nova vaga de conteúdos falsos
Nas últimas 48 horas de julho, o cenário da desinformação europeia sofreu uma alteração significativa com a crise migratória em Ceuta.
Segundo o EDMO, a chegada de migrantes provenientes de Marrocos ao enclave espanhol desencadeou uma forte vaga de conteúdos falsos, amplamente alimentada por publicações que circulavam no próprio país africano.
O observatório salienta que a crise não terá sido provocada por um único agente com o objetivo deliberado de criar instabilidade na Europa.
No entanto, vários atores terão aproveitado rapidamente a situação para promover narrativas alinhadas com os seus interesses, nomeadamente para semear divisões, promover o extremismo ou atacar adversários políticos.
O EDMO considera que uma infraestrutura baseada na cooperação entre verificadores de factos de diferentes países e numa capacidade robusta de monitorização poderia permitir detetar mais cedo fenómenos deste tipo e, em alguns casos, ajudar a evitá-los.
O próximo relatório mensal deverá analisar em maior detalhe a evolução da desinformação durante agosto.
Ucrânia continua entre os principais alvos
Apesar do aumento da desinformação climática, a guerra na Ucrânia continuou a ser o tema mais visado em julho, com 119 artigos de verificação, correspondentes a 8% do total.
A imigração representou igualmente 8%, com 109 artigos, enquanto a saúde foi responsável por 97 artigos, ou 7%.
Foram ainda identificados 87 artigos relacionados com desinformação sobre a União Europeia, 39 sobre a Palestina, 25 sobre questões LGBTQ+ e de género, 22 sobre a covid-19 e outros 22 relativos à guerra entre Israel/EUA e Irão.
O relatório conclui que a desinformação tende a concentrar-se em acontecimentos que dominam a atualidade e que, por isso, recebem grande atenção nas redes sociais, aproveitando momentos de elevada exposição pública para amplificar narrativas falsas ou enganadoras.