sexta-feira, 13 mar. 2026

Chernobil. Lobos mutantes sobrevivem a comer animais radioativos e resistem ao cancro como nenhum outro mamífero

Investigadores de Princeton descobrem que lobos cinzentos na zona de exclusão, em Chernobil, desenvolveram mecanismos biológicos únicos de resistência tumoral, que podem abrir a porta a progressos no tratamento de cancros.
Chernobil. Lobos mutantes sobrevivem a comer animais radioativos e resistem ao cancro como nenhum outro mamífero

Quatro décadas após a catástrofe nuclear de Chernobil, uma descoberta surpreendente está a chamar a atenção da comunidade científica internacional. Os lobos cinzentos que habitam a zona de exclusão, uma área de cerca de 2600 km² evacuada e vedada após o desastre, não só sobrevivem como prosperam num ambiente altamente contaminado, mostrando uma densidade populacional superior à de reservas naturais vizinhas.

A revelação, recuperada pela publicação ECOticias, a partir de um estudo da Universidade de Princeton publicado na revista Cancer Research levanta uma questão fundamental: como é possível que estes animais resistam a níveis de radiação que seriam letais para a maioria dos mamíferos?

Um laboratório natural de adaptação extrema

A equipa liderada pela bióloga Cara N. Love e pelo investigador Shane Campbell-Staton tem vindo a acompanhar estes predadores através de coleiras equipadas com GPS e dosímetros. Estes dispositivos permitem medir com precisão a exposição à radiação que cada animal acumula no seu quotidiano.

Os resultados preliminares, apresentados em congressos científicos e entrevistas, sugerem que alguns lobos desenvolveram alterações biológicas compatíveis com uma maior tolerância ao dano celular provocado pela radiação. Estas incluem vias relacionadas com a resposta imunitária contra tumores — um mecanismo que pode representar uma verdadeira revolução no combate ao cancro.

"Não se trata de afirmar que não há risco", esclarece a equipa. "O que observamos é que estes animais podem estar a adaptar-se melhor do que o esperado num cenário tão extremo."

Precedentes no território abandonado

Desde a explosão do reator número 4 em 26 de abril de 1986, a zona de exclusão transformou-se, involuntariamente, num campo de estudos sobre vida selvagem sob stress crónico. Sem presença humana permanente há quase quatro décadas, este território tornou-se um refúgio paradoxal para diversas espécies. Investigações anteriores já tinham documentado fenómenos semelhantes noutras espécies.

A rã-de-árvore-oriental (Hyla orientalis), por exemplo, apresenta uma relação entre radiação e melanismo, uma pigmentação mais escura da pele que pode funcionar como proteção. Também os cães que vivem nas proximidades da central apresentam populações geneticamente distintas, embora os cientistas alertem que nem todas as diferenças podem ser atribuídas exclusivamente a mutações induzidas pela radiação.

Predadores no topo da cadeia trófica

No caso dos lobos, o interesse científico é redobrado. Como predadores de topo, estes animais acumulam radiação através da cadeia alimentar — ao consumirem presas que já estão contaminadas. Além disso, a sua elevada mobilidade significa que a exposição varia consoante as zonas que frequentam e as estações do ano.

Com os dados recolhidos pelos colares, Love e a sua equipa comparam perfis de células imunitárias e marcadores de stress celular entre os lobos de Chernobil e populações de referência. O objetivo é identificar uma "assinatura biológica" específica associada à exposição prolongada à radiação.

Cautela científica necessária

Apesar do entusiasmo, os investigadores sublinham que estes resultados ainda não foram publicados em artigos científicos revistos por pares. A maioria das evidências provém de apresentações em congressos e entrevistas, o que significa que a investigação está em curso mas ainda não atingiu o nível de validação necessário para alterar paradigmas científicos.

"Isto não é um antídoto nem uma receita direta para aplicação em humanos", advertem os cientistas. Entre a descoberta preliminar e eventuais aplicações médicas medeiam anos de verificação, comparações com outros animais e estudos que consigam separar os efeitos da genética, ambiente, dieta e ausência de pressão humana.

Implicações para a investigação oncológica

Se confirmadas, estas descobertas poderão abrir novos caminhos na compreensão dos mecanismos de resistência ao cancro. Compreender quais as vias biológicas que permitem aos lobos manterem a sua funcionalidade apesar da exposição crónica pode inspirar novas abordagens terapêuticas.

O estudo pode ser publicado na revista Cancer Research.

Fora de Chernobyl, a pressão humana sobre as populações de lobos continua a ser uma variável crítica. Desde abates em Cantábria até discussões na União Europeia sobre o estatuto de proteção da espécie, a relação entre humanos e lobos permanece tensa. Perceber como uma população selvagem se adapta exige olhar tanto para a biologia como para o contexto em que vive — incluindo a forma como nos relacionamos com ela.