quarta-feira, 22 jul. 2026

ADN de bebés enterrados há 2.700 anos revelou um segredo sobre os antepassados dos portugueses

Fenícios, gregos e cartagineses passaram pela Península Ibérica, comerciaram, influenciaram, deixaram rastos. Mas o ADN dos povos ibéricos quase não mudou. Um novo estudo explica porquê.
ADN de bebés enterrados há 2.700 anos revelou um segredo sobre os antepassados dos portugueses

Tinha tudo para contar uma história de encontros e fusões. Portos movimentados, ânforas gregas, joias fenícias, a sombra crescente de Cartago. Os povos ibéricos viveram durante séculos no cruzamento de civilizações. E, no entanto, o seu ADN ficou quase intacto.

É essa a conclusão surpreendente de um estudo publicado na revista iScience, liderado por investigadores da Universitat Autònoma de Barcelona. A equipa analisou os restos de 54 recém-nascidos enterrados há entre 2.700 e 2.100 anos em três sítios arqueológicos da atual Catalunha, e o que encontrou contraria décadas de especulação sobre as origens dos povos que habitavam a península que hoje partilhamos entre Portugal e Espanha.

A pista estava nos bebés

Há uma razão para a investigação se centrar em recém-nascidos: os povos ibéricos cremavam os seus mortos adultos. Esse ritual, profundamente enraizado na cultura da época, deixou muito poucos restos humanos aptos para análise genética. Os bebés, enterrados sob habitações e espaços de trabalho, tornaram-se assim uma janela única para o passado dos antepassados dos portugueses.

De 54 bebés analisados, 22 forneceram dados genómicos suficientes para estudos detalhados. O retrato que emergiu foi inesperado: geração após geração, a composição genética das populações manteve-se estável. Os antepassados destes povos eram os mesmos de sempre, caçadores-recolectores ocidentais, agricultores vindos da Anatólia durante o Neolítico e grupos da estepe ligados às migrações da Idade do Bronze.

A cultura ibérica, com toda a sua sofisticação, não nasceu de uma invasão nem de uma substituição de povos. Nasceu de dentro.

Contacto sim, mas com limites

Isso não significa que estes povos vivessem isolados. Os arqueólogos sabem que não. O estudo também o confirma: alguns indivíduos apresentam marcadores genéticos do Mediterrâneo oriental ou do norte de África. Mas são casos pontuais, não uma transformação de fundo.

Um dos exemplos mais curiosos surge em Sant Miquel d'Olèrdola, no Penedès. Um recém-nascido ali encontrado tinha um perfil mitocondrial raro na Península Ibérica, provavelmente ligado ao mundo púnico ou cartaginês. A localização do sítio, com acesso relativamente direto à costa mediterrânica, ajuda a explicar esse contacto.

Dois bebés enterrados juntos nesse mesmo local tinham sido considerados durante anos possíveis gémeos, pela forma como os esqueletos estavam dispostos. O ADN desfez a teoria: não eram gémeos, nem sequer familiares próximos.

Quando Roma chegou, tudo mudou

A grande transformação genética só aconteceu com a chegada de Roma. Os dados de El Camp de les Lloses, em Tona, mostram uma população notavelmente mais diversa do que a dos séculos anteriores. É precisamente quando o poder romano se consolida na região que começam a aparecer com mais frequência marcadores do Mediterrâneo e do norte de África.

Mesmo assim, o legado ibérico não desapareceu. A romanização sobrepôs-se a uma base genética local que persistia há séculos, a mesma que está na raiz do que hoje reconhecemos como o povo português.

O que este estudo mostra, no fundo, é que a história raramente se faz por grandes ruturas. Durante 600 anos, os povos ibéricos absorveram ideias, técnicas e produtos vindos de fora. A sua cultura transformou-se. O seu ADN, quase não.