A participação da Peugeot nas 24 Horas de Le Mans deste ano esteve carregada de simbolismo. Os Hypercars 9X8 que alinharam à partida assinalaram uma relação única entre a marca francesa e Le Mans, que dura há um século e tem 44 participações, com 39 carros diferentes e 47 pilotos oficiais. Para Emmanuel Esnault, esta presença ultrapassou o âmbito desportivo. «Participar na edição que marca o centenário da primeira corrida em Le Mans deu maior significado ao nosso compromisso. Somos os guardiões desse património, com o desejo de o manter vivo e de assegurar o seu lugar no presente e no futuro», salientou o diretor desportivo da Peugeot.
Antes de se aventurar em Le Mans, a marca francesa tinha lançado o primeiro carro de corrida verdadeiramente moderno: o L76. Dispunha de um motor de 7,6 litros (184 cv), com um inovador sistema de distribuição. Era extremamente veloz e ganhou as famosas 500 Milhas de Indianápolis, em 1913, com Jules Goux, a uma média de 122,2 km/h. A fama e o sucesso da Peugeot na resistência tinham começado.
No dia 12 de junho de 1926, dois Peugeot 174 S, com motor de 3,8 litros (90 cv), alinharam à partida do Grande Prémio de Resistência de 24 Horas – era assim que a prova se chamava na altura. A meio da corrida (82.ª volta), os comissários técnicos detetaram que o 174 S que ocupava o segundo lugar tinha o para-brisas partido e desclassificaram a equipa, pois, segundo o regulamento da época, os carros deviam estar em perfeito estado de funcionamento e permanecer conforme a sua descrição no catálogo comercial e isso não acontecia. Apesar desta contrariedade, foi o começo de um compromisso que iria atravessar o século.
Nos anos 30, a Peugeot envolveu-se no desporto automóvel para promover os seus modelos. Em 1937, alinhou com três roadsters 302 DS (Darl’mat Sport), que viriam a terminar a prova nos 7.º, 8.º e 10.º lugares. Um excelente desempenho, especialmente se considerarmos que 65% das equipas que alinharam à partida desistiram. No ano seguinte, o 402 Speciale Sports terminou na quinta posição e ganhou a categoria 2,0 litros: foi o primeiro triunfo da Peugeot em Le Mans.
Nas décadas de 60, 70 e 80, a Peugeot manteve vivo este sonho de diferentes formas, seja através do fornecimento de motores ou do apoio técnico a equipas privadas. A saga das 24 Horas de Le Mans construiu-se com base na inovação tecnológica, mas também em recordes impensáveis para a época. O ponto mais alto continua a ser o recorde de velocidade obtido na longa reta das Hunaudières pelo WM P88, com motor Peugeot V6 2.6 biturbo de 500 cv, que atingiu os 405 km/h, estávamos em 1988…. O carro construído pela equipa Welter e Meunier (WM) foi primeiro a ultrapassar oficialmente a barreira das 250 milhas (400 km/h) em Le Mans, registo que é praticamente impossível de bater devido às modificações introduzidas no circuito para aumentar a segurança, coisa que não existia na altura. O recorde anterior pertencia a Jackie Oliver, que alcançou uma velocidade máxima de 386 km/h, em 1971, com o Porsche 917LH.
Carros míticos
O início da década de 1990 foi o período mais próspero para a Peugeot nas corridas de resistência. Dominou a edição de 1992 com o 905. Em colaboração com a empresa francesa Dassault, especializada em projetos de aeronaves, construiu um chassis com materiais compósitos e carroçaria em fibra de carbono com uma apurada aerodinâmica, onde colocou o motor V10 3.5 atmosférico que, na versão mais potente, tinha 750 cv. Era um carro muito equilibrado, com uma fantástica aderência e grande fiabilidade. Após dois anos de aprendizagem e aperfeiçoamento, o 905 tornou-se um carro imbatível e a referência na categoria de sport protótipos.
Além das potencialidades do carro e da qualidade dos pilotos, houve outro fator determinante para o sucesso que foi Jean Todt, diretor desportivo, que conduziu com mestria o projeto Peugeot na resistência. O piloto Éric Hélary resumiu o nível atingido de forma muito assertiva: «a maioria das equipas de F1 estava menos bem estruturada do que a Peugeot».
Foi com uma equipa de luxo composta por Yannick Dalmas (quatro vitórias em Le Mans), Mark Blundell e Derek Warwick que venceu, pela primeira vez, as 24 Horas de Le Mans, em 1992. Os três tiveram carreiras mais ou menos longas na Fórmula 1 e foram brilhantes nesta prova. No ano seguinte, a marca francesa ainda fez melhor ao conquistar os três primeiros lugares após uma longa luta com a Toyota. A equipa Geoff Brabham/Éric Hélary/Christophe Bouchut num 905 mais evoluído venceu a corrida. O terceiro e último sucesso da Peugeot aconteceu em 2009 com o 908 HDi FAP, equipado com motor V12 5,5 biturbo diesel, após um duelo épico com a Audi. A marca tinha regressado às corridas de resistência dois anos antes e conquistado a pole position nas edições anteriores, com Pedro Lamy integrado na equipa oficial. A equipa Marc Gené/Alexander Wurz/David Brabham foi claramente superior e deu a terceira vitória à Peugeot. Mas não houve só momentos de glória. Em 2011, a Peugeot foi derrotada por apenas 13 segundos (!) numa das corridas mais disputadas da história. No entanto, a menor diferença de sempre entre os dois primeiros aconteceu em 1966, quando os dois Ford GT40 terminaram separados por 20 metros! Na altura, a organização forçou uma chegada alinhada dos dois carros, não havendo registo eletrónico oficial da diferença em segundos.
O mais recente capítulo da história da Peugeot em Le Mans está a ser escrito com 9X8, um protótipo com uma silhueta radical, mas apenas isso. Uma abordagem pouco convencional ao regulamento técnico dos Hypercars resultou num carro extremamente bonito, mas difícil de conduzir devido à ausência da asa traseira, que seria introduzida no ano seguinte, mas o mal já estava feito. É a negação do conceito de ganhar que a marca francesa sempre teve.