quinta-feira, 05 mar. 2026

Venda do Novo Banco ao grupo BPCE não retira coleção de arte de Portugal

Prestes a ser vendido ao franceses do BPCE, o Novo Banco tem no seu património cultural um ativo valiosíssimo cujo futuro ainda é incerto. Só se sabe que fica no nosso território.
Venda do Novo Banco ao grupo BPCE não retira coleção de arte de Portugal

A venda do Novo Banco pelo fundo americano Lone Star ao grupo francês BPCE por 6,4 mil milhões de euros – venda anunciada em agosto do ano passado, vista como positiva pela comissão de trabalhadores e aprovada em dezembro último pela Comissão Europeia por não implicar riscos para a concorrência no mercado bancário, aguardando agora por luz verde do Banco Central Europeu, a fim de se concretizar dentro de dois meses – veio levantar dúvidas sobre o destino das quatro coleções de arte que eram propriedade do falido Banco Espírito Santo.

Será que as coleções, que hoje representam um importante ativo do Novo Banco e que em tempos foram até descritas como um dos tesouros da instituição que Ricardo Salgado liderou, correm o risco de sair do país ou de serem desmanteladas e vendidas?

A resposta é negativa, embora o futuro das coleções seja ainda nebuloso neste momento.

Numa visita recente ao conhecido Espaço Novo Banco, galeria de arte e depósito do respetivo acervo de fotografia artística contemporânea, localizado na Praça Marquês de Pombal, em Lisboa, o Nascer do SOL ouviu do diretor de comunicação do banco que os franceses estão obviamente cientes de que as quatro coleções representam um «ativo de enorme valor». Mas «o tema da venda nem sequer está colocado».

Segundo Paulo Tomé, «estas são coleções fechadas e não há nenhuma dimensão transacional em relação às obras». O que significa que os futuros donos do Novo Banco não tencionam desfazer-se dos acervos.

Mas estes continuarão em Portugal? Resposta afirmativa. «Estas coleções têm sede em Portugal, os acervos são portugueses e estão cá, não vão sair. Estamos num processo de transição acionista. O mais importante é que o património cultural do banco está, de forma clara, a cumprir a sua missão, que é estar aberto e à disposição dos públicos», explicou-nos Paulo Tomé.

Não é certo que o acordo da Lone Star com os franceses tenha ou venha a ter cláusulas específicas sobre esta matéria.

Acompanhado por Alexandra Conde, coordenadora e conservadora da fotografia do Novo Banco, o diretor de comunicação fez-nos uma visita guiada às maravilhas que se encontram no Marquês de Pombal. É considerada «uma das 80 melhores coleções corporativas do mundo» e das «mais importantes do género», lê-se no catálogo raisonné (completo) dado à estampa há poucos meses.

A coleção de fotografia teve início em 2004 com a aquisição de uma caixa de luz de Jeff Wall, um autorretrato de Cindy Sherman, uma vista de Xangai de Thomas Struth e uma imagem de uma biblioteca de Candida Höfer. Expandiu-se rapidamente nos anos seguintes. Hoje inclui Robert Frank, Marina Abramovic, Helena Almeida, John Baldessari, William Eggleston, Nan Glodin, Wolfgang Tillmans, Gilbert & George. São 1.084 obras de 304 artistas de 38 nacionalidades.

Segundo Alexandra Conde, «a coleção caracteriza-se pela diversidade, tanto na visão dos artistas que a englobam, como na origem geográfica e nas idades», e oferece «uma visão panorâmica do melhor da arte contemporânea após o ano 2000».

 

Novo espaço para notas e moedas

Além da fotografia, o património cultural do Novo Banco inclui uma coleção de pintura, coleções de numismática e a Biblioteca de Estudos Humanísticos de José Vitorino de Pina Martins, desde 2017 depositada na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Todas estes acervos estão parados, sem novas aquisições, desde a queda do BES em agosto de 2014.

A coleção de numismática foi alvo de um processo de classificação em 2015, que lhe teria dado proteção legal especial, mantendo-a indivisa. Por «discrepâncias entre o catálogo e os itens propostos», a classificação não prosseguiu, segundo o Ministério da Cultura. Com 113 peças e uma importância de escala mundial, vai dar origem a um novo espaço expositivo na Rua Castilho, que abre portas já em abril.

Sobre as outras três coleções não recaem quaisquer pedidos de classificação, transmitiu-nos o gabinete da ministra Margarida Balseiro Lopes.

A coleção de pintura conta obras de portugueses e estrangeiros dos séculos XVI a XX. Foi constituída em 2017 a partir de um conjunto disperso que não tinha sido pensado como coleção, antes servia para decoração de gabinetes e salas de reuniões na antiga sede do Banco Espírito Santo, na Avenida da Liberdade.

Um acordo entre o Estado e o Novo Banco, em 2018 – depois da venda pelo Estado de 75% ao fundo Lone Star – levou a que as pinturas fossem emprestadas por largos períodos a museus públicos portugueses de norte a sul. É por isso que, por exemplo, uma natureza morta de Josefa de Óbidos, de 1660, está hoje no Museu Rainha D. Leonor, em Beja. Que Pássaros de Júlio Resende, de 1983, foi para o Museu da Covilhã. E que Festa de Casamento, de Pieter Bruegel, O Jovem, de 1620, pode ser vista no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora.

Um dos motivos pelos quais o Novo Banco garante já hoje que as coleções não saem de Portugal tem que ver com estes protocolos de cedência.

É quase certo que a prometida venda do Novo Banco ao grupo francês BPCE vai ter alguma influência no futuro das coleções. Se não implica a saída do nosso país nem a venda de peças, que influência terá?

«A existir tal influência, será no sentido de valorizar este património», respondeu Paulo Tomé. «Será o acionista a determinar o caminho e a ambição para as coleções. É um tema que ainda há de ser discutido». É por enquanto incerto se o banco terá futuramente algum orçamento para novas aquisições.

Leia sem distrações! Navegue sem anúncios em todos os sites do Universo IOL e receba benefícios exclusivos!
TORNE-SE PREMIUM