quinta-feira, 14 mai. 2026

Turismo de Lisboa ainda não sofre com conflito no Médio Oriente

António Valle reconhece que os operadores ainda estão ‘na expectativa’ para saber se haverá consequências. ATL vai reforçar, pelo menos, 6% do orçamento para promoção internacional
Turismo de Lisboa ainda não sofre com conflito no Médio Oriente

Ainda é prematuro perceber qual o impacto que o conflito do Médio Oriente irá ter no turismo em Lisboa. A afirmação é de António Valle, diretor-geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), ao Nascer do SOL. «Ainda estamos todos na expectativa em relação ao impacto que o conflito pode ter na área metropolitana de Lisboa e no país, pelo menos, esse é o sentimento que tem sido transmitido pelos operadores que são mais de 900. É verdade que também seria cauteloso em relação à leitura de que poderá ser uma grande oportunidade para o país, até porque não sabemos vai ser a sua duração do conflito e esta é uma variáveis que tem influência», salientou.

António Valle dá como exemplo o que se verificou na Páscoa, que foi o pico mais recente em termos de captação de turistas. «Nessa altura, até aconteceu um fenómeno curioso, que ainda estamos todos a tentar perceber o que se passou, no sentido de que houve uma reação imediata de alguns cancelamentos de última hora, mas, curiosamente, também se verificaram marcações de última hora».

Ainda assim, o diretor-geral da ATL admite que deve haver «alguma cautela» nesta fase, por entender que um conflito com esta dimensão «nunca é bom nem para o setor do turismo, nem para a economia, nem em termos sociais». E não hesita: «É algo que nos ultrapassa e neste setor temos de ser muito pragmáticos e com capacidade de ler, objetivamente, o contexto geopolítico. Se fosse o setor do turismo a ser responsável por uma decisão mais politizada seguramente que isso não aconteceria».

É certo que, segundo o responsável, as perspetivas para este ano continuam a ser de crescimento, apesar de acenar para uma estabilidade em termos de aumento. «O ano de 2025 foi um ano de crescimento, mas de crescimento acentuado. As perspetivas para 2026 são de um crescimento, no entanto, a expectativa é que haja uma estabilidade nesse crescimento e isso pode ser reflexo já do conflito que existe no Médio Oriente. Nos primeiros meses deste ano registámos crescimentos na Área Metropolitana de Lisboa muito interessantes do ponto de vista dos objetivos estratégicos que assentam pela captação de turistas do longo curso, ou seja, visitantes que ficam mais tempo na cidade e que tenham, objetivamente, maior capacidade até de contribuir para a nossa economia local».

Reforço da promoção e aposta na inovação

Ao mesmo tempo, a estratégia passa por captar turistas de locais mais longínquos. Uma aposta que o diretor-geral do Turismo de Lisboa garante que já está a dar frutos. «Estes primeiros dois meses do ano refletem que esse caminho está a dar alguns resultados. Os mercados internacionais que mais cresceram foi Brasil, China e Estados Unidos. É certo que os destinos de proximidade crescem, mas a um ritmo menor, como é o caso de Espanha, França, Itália e Alemanha».

E o objetivo é claro: «Lisboa está num patamar em que hoje já é um destino consolidado e está identificado como uma short break, o desafio nos próximos anos é que Lisboa possa ser mais do que isso e passe a ser um destino de maior estadia do visitante. Isso também permite diversificar a nossa oferta na Área Metropolitana. Costumo dizer que Lisboa é Cascais, Lisboa é Sintra, Lisboa é Oeiras, Lisboa é Almada, Lisboa é Setúbal. Lisboa é a sua grande área metropolitana porque em cada um dos seus concelhos há produtos muito diversificados. E mesmo em relação à questão do short break, em que vimos para Lisboa durante três dias, nesse período qualquer visitante pode fazer cinco ou seis viagens, pois estamos a 20 minutos da praia, a 20 minutos ou a 30 minutos do Cristo Rei, já que temos uma oferta muito diversificada num curto território».

Apesar de afastar, para já, alguma quebra em relação ao número de turistas que poderão chegar a Lisboa, o diretor-geral da ATL_lembra que, este ano, há duas áreas que foram reforçadas ao nível do orçamento. Por um lado, o organismo irá aumentar, pelo menos, em 6% a área de promoção internacional, apesar do montante final ainda não estar fechado. «Ainda estamos a retificar alguns valores precisamente para avaliar o impacto e a contribuição que a taxa turística pode trazer para esta área promocional, mas iremos ter ao longo de 2026 ações muito concretas de promoção em destinos e em mercados emissores que são estratégicos na qualificação do destino. Posso dizer que iremos apostar muito no México, na Argentina, reforçar os Estados Unidos, o Brasil e a Coreia do Sul».

E esclarece que a estratégia que tem sido seguida nessa área é para se manter, até porque «Lisboa apresenta-se como um destino seguro», um valor que, segundo António Valle, é necessário «acentuar e transmiti-lo internacionalmente até porque, que se diferencia, objetivamente, do outro lado do mundo». E acrescenta: «As pessoas encaram o destino de Lisboa como um destino seguro e, nesse sentido, até pode ser visto como uma oportunidade».

Quanto às campanhas em si, o diretor-geral da ATL reconhece que algumas estão ainda em estudo, mas também lembra que muitas são levadas a cabo de forma discreta. «Neste caso são feitas, nomeadamente com operadores e com companhias aéreas, já que também têm de ser, muitas vezes, atualizados em relação ao destino Lisboa», refere. Mas chama a atenção para o facto da cidade ser um dos locais que irá receber o Mundial 2030. «É um caminho que também tem que se ir preparando», explica.

A par da promoção, a Associação de Turismo de Lisboa reforçou ainda o orçamento na área da inovação e do digital.

Turismo de negócios é para crescer

Outro pilar para o aumento da captação de turistas passa por reforçar o turismo de negócios e congressos. O responsável lembra que atualmente Lisboa está em número dois a nível mundial, de acordo com o ranking ICCA, mas a ideia é passar a liderar a tabela. «Essa é outra área da promoção internacional que também, de alguma forma, conjuga objetivamente com a estratégia da qualificação porque o turismo de negócios e de congressos é um turismo qualificado», em que muitas vezes representa o primeiro contacto com a cidade, abrindo depois as portas para o seu regresso.

«Os equipamentos que Lisboa oferece são únicos e diferenciadores e se essa primeira experiência corre bem, depois a ideia pode passar por voltarem à cidade ou à Área Metropolitana com mais tempo» e, nessa matéria, o Reino Unido e a Alemanha são vistos como mercados em que necessário continuar a apostar.

Também os cruzeiros são importantes, segundo o responsável, para a contribuição dessa qualificação do destino. «Havia uma questão relacionada com os cruzeiros que era a poluição e que está a ser resolvida com a criação do carregamento elétrico. Mas mais do que isso é a relevância de Lisboa ser um porto em que as pessoas vêm para saírem de Lisboa ou para ficarem em Lisboa. E esse é um desafio que sei que a direção de quem gera o porto de cruzeiros está muito empenhado em fazer. Ficar mais tempo é, muitas vezes, chegar um ou dois dias antes da partida do cruzeiro para os destinos que vão fazer ou quando chegam ficarem mais um ou dois dias», conclui.