quarta-feira, 22 jul. 2026

Trabalho. Verão aquece procura e expõe falta de mão de obra

Setores como a restauração e a hotelaria veem os problemas da falta de mão de obra agravar-se nesta altura. Empresas mostram-se receosas mas há atividades menos ‘asfixiadas’.  
Trabalho. Verão aquece procura e expõe falta de mão de obra

Setores como a restauração e a hotelaria veem os problemas da falta de mão de obra agravar-se nesta altura. Empresas mostram-se receosas mas há atividades menos ‘asfixiadas’.  

As regras da imigração estão mais apertadas e as alterações levadas a cabo pelo Governo vão agora colidir com a entrada em vigor na Europa do Pacto sobre Migração e Asilo que irá restringir ainda mais a contratação de trabalhadores estrangeiros, numa altura, em que há setores que continuam a deparara-se com falta de mão-de-obra, principalmente com a chegada do verão e com a procura a aumentar, como admitem vários responsáveis ouvidos pelo Nascer do SOL. 

Um desses casos é a restauração. Ao nosso jornal, Ana Jacinto, secretária-geral da AHREP acena com «dificuldades significativas de recrutamento», sobretudo em funções operacionais ligadas à cozinha, mesa/bar, housekeeping e atendimento ao cliente, embora reconheça que não se trata de um problema recente. «O que os empresários nos transmitem é que continua a ser difícil encontrar trabalhadores disponíveis para estas funções e, sobretudo, substituir aqueles que, entretanto, abandonam as empresas», afirma. 

No entanto, também chama a atenção para o facto de a realidade variar muito entre regiões, tipologias de negócio e épocas do ano, daí defender que que qualquer estimativa nacional deve ser encarada com prudência. E dá como exemplo, os sinais que chegam à associação. Os dados mais recentes do INE mostram que o canal HORECA – restauração e hotelaria – atingiu, no primeiro trimestre de 2026, o valor de emprego mais elevado dos últimos 11 anos, com 343.100 trabalhadores, mais 26.400 do que no período homólogo de 2025, o que corresponde a um crescimento de 8,3%. 

Mas também é certo, de acordo com a responsável, que este aumento do emprego não elimina as dificuldades de recrutamento reportadas pelas empresas, sobretudo para funções operacionais. «Com a chegada do verão, estas necessidades tornam-se mais visíveis, particularmente nos destinos com maior procura turística, onde o reforço temporário das equipas é essencial para responder ao aumento da atividade. É nestes períodos que as dificuldades de contratação e substituição de trabalhadores tendem a sentir-se com maior intensidade», salienta. 

Peso no turismo 

Ana Jacinto recorda que, de acordo com os últimos dados revelados pelo Banco de Portugal, revelam que em 2023, os trabalhadores estrangeiros representavam cerca de 31% do emprego no alojamento turístico e na restauração – praticamente um em cada três trabalhadores. 

«Quando uma parte tão significativa da força de trabalho depende de trabalhadores imigrantes, qualquer redução dos fluxos de entrada ou aumento das saídas gera apreensão entre as empresas. Na verdade, o próprio Banco de Portugal documentou uma aceleração das saídas de trabalhadores imigrantes a partir de junho de 2024, coincidindo com a revogação da manifestação de interesse, ao mesmo tempo que diminuía a entrada de novos trabalhadores estrangeiros», acrescentando que há outros indícios que merecem atenção: segundo dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, o número de trabalhadores por conta de outrem com contribuições para a Segurança Social diminuiu em cerca de mil pessoas entre 2025 e 2026, contrariando a tendência de crescimento observada desde 2015. 

A somar há que contar com os desafios demográficos que Portugal enfrenta, daí a secretária-geral da AHRESP referir que setores como a restauração e o alojamento turístico dependem, em parte, da capacidade de atrair e integrar trabalhadores estrangeiros, tornando «a previsibilidade dos processos e a rapidez das respostas administrativas» como fatores determinantes. «É essencial que os mecanismos de recrutamento internacional funcionem de forma ágil, garantindo processos administrativos com tempos de resposta adequados e uma aposta continuada na formação e integração dos trabalhadores. A AHRESP não defende a ausência de regras. Defende uma imigração organizada, regulada e articulada com a qualificação profissional, assente em mecanismos previsíveis que permitam responder às necessidades reais da economia, das empresas e dos próprios trabalhadores», acrescenta. 

Também a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) defende que é necessário ter «canais legais, previsíveis e ágeis de contratação», apesar de compreender a necessidade de ter uma imigração controlada, mas também lembra que é uma das atividades mais expostas em relação à falta de mão-de-obra. 

Uma questão que ganha maiores contornos durante a época alta. «Esta dificuldade torna-se ainda mais visível nesta época: aumenta a ocupação, cresce a pressão sobre as equipas e torna-se mais urgente assegurar profissionais em áreas como alojamento, limpeza, cozinha, copa, manutenção, receção, F&B [comidas e bebidas] e funções técnicas», diz ao Nascer do SOL, Cristina Siza Vieira vice-presidente executiva da AHP. 

A responsável afirma da que o desafio não está apenas em encontrar pessoas, mas em conseguir contratar em tempo útil, integrar, formar e reter colaboradores. «A pressão sobre as equipas é grande e pode ficar em causa a qualidade da experiência do hóspede», chama a atenção. 

E, tal como a restauração, também a hotelaria refere que as necessidades variam por região, época do ano, dimensão da unidade e segmento. Ainda assim, Siza Vieira destaca uma necessidade estrutural de milhares de trabalhadores. «A AHP já tinha sinalizado, em anos anteriores, uma escassez de cerca de 15 mil trabalhadores só na hotelaria, num contexto em que o turismo, no seu conjunto, precisava de dezenas de milhares de profissionais. Neste momento, não temos dados atualizados que nos permitam dizer quantos trabalhadores são precisos, mas a realidade mantém-se: a falta de trabalhadores continua a limitar a capacidade de resposta das empresas», refere. 

Como solução para estas dificuldades, a vice-presidente da AHP aponta para a necessidade de criar um modelo mais simples e mais rápido para a contratação legal de trabalhadores estrangeiros, «sem abdicar da segurança e da fiscalização». Por outro lado, aponta para várias medidas que poderiam ajudar: «Reforçar a capacidade de resposta da AIMA e dos postos consulares; criar vias específicas para setores com necessidades comprovadas de mão-de-obra; acelerar vistos de trabalho quando exista contrato ou promessa de contrato válida; melhorar a articulação entre empresas, Estado e entidades formadoras; e simplificar a renovação documental de trabalhadores que já estão integrados no mercado», assim como apostar na formação, na valorização das carreiras e na retenção de talento em Portugal. 

Constrangimento à atividade empresarial 

Para o presidente da AEP, a escassez de mão-de-obra é um dos fatores que limita o crescimento económico no país e afirma que a dificuldade em recrutar trabalhadores com as competências adequadas é um dos principais constrangimentos à atividade empresarial. Perante este cenário, Luís Miguel Ribeiro não hesita: «O país encontra-se em pleno emprego, com níveis máximos de emprego e um mercado de trabalho bastante resiliente, pelo que um maior crescimento do emprego dependerá, numa parte significativa, da manutenção de um saldo migratório positivo». 

Ainda assim, o responsável lembra que a falta de mão-de-obra não se trata apenas do número de trabalhadores, mas também das suas competências, daí apontar para «a importância da requalificação e da formação ao longo da vida como veículos para a reintegração e qualificação de ativos no mercado de trabalho e, simultaneamente, dar resposta às reais necessidades das empresas». 

E a contagem decrescente para a finalização do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) poderá exigir um reforço maior de trabalhadores. «A necessidade de acelerar a execução dos projetos financiados pelo PRR, que terminará ainda este verão, poderá contribuir para uma pressão adicional sobre o mercado de trabalho», esclarece ao Nascer do SOL. 

De acordo com Luís Miguel Ribeiro, a integração e a formação de imigrantes são aspetos essenciais para combater esta falta de mão-de-obra, dando como exemplo, o projeto MOVER levado a cabo pela AEP. «O projeto centra-se na capacitação de migrantes e intervenientes locais, no desenvolvimento de ações de sensibilização e formação, e na preparação de empregadores portugueses para processos de recrutamento éticos e informados. Paralelamente, apoia entidades públicas e o próprio Governo na melhoria de procedimentos e ferramentas ligados à gestão da mobilidade laboral», acrescenta. 

Salvação para a agricultura 

Para Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), a imigração continua a ser ‘salvação’ para uma atividade que também se depara com problemas de mão-de-obra, tendo já sido passados mais de três mil vistos e a estimativa é chegar ao fim do ano entre os quatro e os cinco mil, tal como estava previsto. No entanto, reconhece que a atribuição do número da Segurança Social e do número de identificação fiscal tem sofrido atrasos e sem esses documentos não é possível uma conta no banco. 

Também a habitação continua a ser um problema grave. «Já apresentámos algumas propostas e estamos a trabalhar em soluções que têm de envolver as empresas, as autarquias e Governo, mas agora tem de se concretiza»r as coisas. Não é só discurso e conversa. É preciso fazer», refere, lamentando o que se verificou em Odemira. «As empresas quiseram fazer construções em tijolo, a Câmara de Odemira e o Governo Central não permitiram porque diziam que iria criar guetos e quiseram dez anos para fazerem esse desenvolvimento nas aldeias e nas vilas para acolher essas pessoas. Já passaram sete anos desde que isso foi acordado e ainda não foi feito fizeram nada», acusa. 

Impacto limitado no setor TVDE 

A nova legislação portuguesa sobre imigração poderá ter reflexos no setor dos transportes em veículo descaracterizado a partir de plataforma eletrónica (TVDE), mas o impacto deverá ser limitado, segundo Ivo Fernandes, da Associação Portuguesa de Transportadores em Automóveis Descaracterizados (APTAD). 

O responsável sublinha que os trabalhadores estrangeiros têm um peso relevante na atividade, representando atualmente metade dos motoristas TVDE em Portugal. Os dados resultam de uma plataforma criada pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), que reúne informação sobre operadores e motoristas do setor. «Reportando-me a números de maio, exatamente 50% da mão de obra no TVDE é de origem estrangeira e 50% é de mão de obra portuguesa», afirmou. 

Segundo Ivo Fernandes, a plataforma permitiu obter uma visão mais detalhada da evolução do setor e mostra que tanto o número total de motoristas como o número de condutores estrangeiros tem vindo a aumentar de forma consistente. 

Apesar disso, diz não existirem sinais de que os estrangeiros estejam a enfrentar dificuldades acrescidas no acesso à atividade. «Os dados mostram-nos que ainda não temos essa perceção de qualquer limitação no acesso à atividade TVDE por parte dos estrangeiros», referiu. 

Questionado sobre as possíveis consequências do fim dos mecanismos de regularização que permitiam a legalização de imigrantes já presentes em território nacional, o dirigente admite que uma diminuição dos fluxos migratórios poderá reduzir, por consequência, a entrada de trabalhadores estrangeiros no setor. 

«Claro que se entram menos estrangeiros, a probabilidade de entrarem motoristas estrangeiros para o setor TVDE também é mais limitada», afirmou. 

Contudo, considera que existe uma perceção errada sobre a forma como os imigrantes chegam à atividade. De acordo com o responsável, a legislação já impõe vários requisitos que dificultam uma entrada imediata no setor. «Há um bocadinho aquele conceito de que o estrangeiro chegava a Portugal e no mês seguinte já estava a conduzir um TVDE. Isso é praticamente impossível», disse. 

Para exercer a atividade é obrigatória uma carta de condução portuguesa, o que implica a regularização da situação no país e a conversão da carta de condução estrangeira. Só esse processo pode demorar entre dois e três meses. Além disso, os candidatos têm ainda de frequentar a formação obrigatória para motoristas TVDE. 

Por essa razão, a maioria dos trabalhadores estrangeiros que entram no setor já reside em Portugal há algum tempo e transita de outras atividades económicas. «O setor TVDE vive mais de estrangeiros que já estão em Portugal e que mudam de setor do que propriamente estrangeiros que vêm para Portugal especificamente para o setor TVDE», salientou. 

Ivo Fernandes refere que muitos destes profissionais trabalham inicialmente em áreas como a restauração ou os serviços de entrega, acabando por optar posteriormente pelo transporte de passageiros através de plataformas eletrónicas. 

Quanto aos motoristas estrangeiros que já se encontram em atividade, o responsável da APTAD não antecipa mudanças significativas, embora reconheça que cada caso dependerá da situação individual de cada trabalhador. Por outro lado, sustenta que uma eventual redução da entrada de imigrantes não deverá comprometer o funcionamento do setor, que atravessa atualmente uma fase de excesso de oferta. 

«O setor TVDE neste momento está até com um claro excesso de oferta», afirmou, acrescentando que mesmo uma redução entre 10% e 20% da entrada de trabalhadores estrangeiros dificilmente teria impacto relevante nas operações. 

Relativamente à composição da mão de obra estrangeira, cerca de metade dos motoristas estrangeiros são oriundos de países de língua oficial portuguesa. Os brasileiros representam aproximadamente 20% desse total, enquanto cerca de 5% correspondem a cidadãos de países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. 

Para Ivo Fernandes, o peso dos trabalhadores estrangeiros no TVDE é inegavelmente relevante, mas o próprio enquadramento legal da atividade funciona como um mecanismo de filtragem à entrada direta de imigrantes recém-chegados ao país. «A mudança para a carta portuguesa e a necessidade de fazer o curso TVDE são restrições que têm esse filtro», concluiu. 

E a comida em casa? 

Muito se diz que, sem trabalhadores estrangeiros, não teríamos comida à nossa porta mas também por aqui parece não haver grandes preocupações com a nova lei, pelo menos para já. Ao nosso jornal, a Glovo começa por referir que o trabalho em plataformas «é flexível e acessível a todos, independentemente da nacionalidade» e que os estafetas «são trabalhadores independentes e podem inscrever-se na plataforma desde que tenham toda a documentação legalmente exigida para exercerem a atividade no país». Assim sendo, entende que as operações «estão a decorrer com normalidade e, até ao momento, não notamos nenhum impacto». 

Também fonte oficial da Uber Eats, admite que as políticas de imigração têm registado alterações significativas nos últimos anos, «com um impacto que se tem vindo a acumular em múltiplos setores da economia por via de restrições à entrada e permanência de imigrantes», no entanto, admite que, de acordo com estimativas feitas a partir de inquéritos ao setor, cerca de um terço dos estafetas que trabalham com plataformas digitais em Portugal será de naturalidade portuguesa, sendo a vasta maioria dos restantes originários de países fora da União Europeia, destacando-se o Brasil, seguido de países asiáticos. Mas deixa um alerta: «Todos os estafetas que utilizam a plataforma Uber Eats em Portugal têm de ter títulos de residência válidos para desempenhar a atividade, pelo que o impacto que poderá vir a existir estará relacionado com eventuais dificuldades na renovação desses títulos».