quarta-feira, 22 jul. 2026

Tempestade Kristin continua a afetar setor do pinho. Escassez de madeira ameaça empregos e Governo cria regime excecional

Cinco meses após a tempestade Kristin, o setor do pinho alerta que perdeu metade da matéria-prima necessária por ano e teme impactos durante pelo menos mais dois anos. Governo criou um regime excecional para armazenar madeira e acelerar a limpeza das áreas florestais
Tempestade Kristin continua a afetar setor do pinho. Escassez de madeira ameaça empregos e Governo cria regime excecional

A tempestade Kristin continua a provocar fortes consequências na floresta portuguesa e na indústria da madeira. O setor estima que os impactos se prolonguem durante pelo menos mais dois anos, devido à escassez de matéria-prima, enquanto o Governo aprovou um regime excecional para facilitar o armazenamento da madeira derrubada e acelerar a gestão das áreas afetadas.

Segundo o presidente do Centro Pinus, João Gonçalves, a tempestade destruiu cerca de dois milhões de metros cúbicos de madeira, o equivalente a aproximadamente metade das necessidades anuais da fileira do pinho.

"Esta fileira já se depara com uma escassez de oferta muito grave", afirmou o responsável, durante uma visita ao perímetro florestal da Alva de Pataias, no concelho de Alcobaça.

A associação, que representa mais de 300 produtores e transformadores ligados ao setor, alerta que a falta de matéria-prima poderá colocar em risco 88% dos postos de trabalho da indústria florestal, sobretudo nas cerca de 250 serrações existentes em Portugal.

Tempestade agravou dificuldades do setor

O Centro Pinus recorda que a fileira do pinho ainda recuperava dos efeitos dos grandes incêndios de 2015 e 2017 quando foi atingida pela tempestade Kristin, no final de janeiro deste ano.

De acordo com João Gonçalves, a dimensão da área afetada ultrapassa a capacidade operacional atualmente disponível.

"Vai demorar pelo menos um ano até conseguirmos fazer a gestão das árvores caídas. Os operadores estão a trabalhar na medida do possível, mas não existem recursos suficientes para responder à dimensão dos estragos", explicou.

Segundo a agência Lusa, o responsável lamenta ainda que a criação de parques temporários para armazenamento de madeira apenas tenha sido autorizada cinco meses após a tempestade.

Segundo defende, se essas infraestruturas tivessem sido disponibilizadas mais cedo, grande parte da madeira poderia ter sido conservada durante quatro ou cinco anos, reduzindo significativamente as perdas económicas.

Governo cria espaços temporários para armazenar madeira

Precisamente para responder a este problema, o Ministério da Agricultura publicou esta sexta-feira uma portaria que cria um regime excecional e temporário para a instalação de Espaços Temporários de Acondicionamento de Material Lenhoso (ETAM).

O diploma, publicado em Diário da República, altera o regime criado após a tempestade Kristin e pretende acelerar a remoção da madeira derrubada, minimizar perturbações no mercado e reduzir os riscos fitossanitários e de incêndio antes do período mais crítico do verão.

Os ETAM poderão funcionar ao ar livre ou em espaços cobertos e destinam-se ao armazenamento temporário de madeira e biomassa resultantes das operações de limpeza das áreas afetadas.

A criação destes espaços poderá avançar dez dias após a comunicação à câmara municipal respetiva e ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), através de um procedimento simplificado.

Os custos serão suportados por investimento privado e por verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

O regime excecional vigorará até 30 de junho de 2027.

Reflorestação beneficia de elevada produção de pinhas

Apesar dos prejuízos provocados pela tempestade, o Centro Pinus identifica um sinal positivo para o futuro da floresta.

Em colaboração com o ICNF, a associação conseguiu recolher 10 toneladas de pinhas, correspondentes a cerca de 300 quilos de sementes, uma quantidade equivalente à produção média anual.

Segundo a associação, este material permitirá reforçar a reflorestação natural das áreas afetadas e contribuir para a recuperação dos povoamentos de pinheiro-bravo nos próximos anos.

Criado em 1998, o Centro Pinus reúne produtores florestais, empresas de transformação da madeira, prestadores de serviços, entidades públicas, instituições de ensino superior e representantes do setor financeiro, tendo como objetivo promover a valorização económica, ambiental e social do pinheiro-bravo em Portugal.