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O prazo para a entrega de propostas não vinculativas para a privatização da TAP termina em menos de uma semana e já há a ameaça de um dos potenciais interessados ficar pelo caminho. O grupo IAG, dono da British Airways e da Iberia, tem estado reticente pelo facto de a companhia aérea ser apenas privatizada em 44,9% do capital, com 5% reservado aos trabalhadores, ficando qualquer participação não subscrita sujeita ao direito de preferência do futuro comprador.
De acordo com fontes citadas pela Bloomberg, a IAG considera que a opção de Portugal vender apenas uma participação minoritária da companhia aérea não se enquadra na estratégia do grupo. Ainda assim, tem referido que «de acordo com o processo, tem até ao dia 2 de abril para submeter uma oferta».
Ao Nascer do SOL, fonte ligada ao processo estranha estas dúvidas, uma vez que as regras do jogo estavam definidas desde o início e que essa condição «até aqui, nunca tinha sido colocado como um entrave». E há quem diga que poderá ser bluff para levar os seus concorrentes – Lufthansa, Air France-KLM – a reduzirem os valores que irão apresentar e ganhar desta forma terreno.
Sérgio Palma Brito, especialista em aviação, lembra que o IAG não tem a flexibilidade do grupo Lufthansa e chama a atenção para a maioria do Parlamento ser contra o negócio. «E algures no Parlamento está o ‘ministro bolivariano’ (como Pedro Nuno Santos ficou conhecido em Bruxelas) que ainda mexe. Ter esta gente como sócio maioritário não inspira confiança». Já quanto às críticas por o Governo ter avançado com a alienação da minoria do capital, afirma que teria sido «mil vezes mais fácil e mil milhões de vezes melhor para a TAP e para Portugal» privatizar na totalidade.
Mais pessimista está Pedro Castro, também especialista em aviação, ao afirmar que «há um risco real» de qualquer um dos três grupos não avançar. E apesar de reconhecer que a TAP, enquanto companhia, é interessante e conta com vários pontos fortes, admite que este modelo de privatização não é interessante e só tem pontos fracos na perspetiva do comprador. «Curiosamente, este modelo de privatização não é bom nem para os grupos ‘interessados’, nem para nós, contribuintes. É um modelo puramente político e partidário», afirma.
De acordo com o responsável, teria sido mais fácil existir um compromisso com uma privatização a 100%, dando como exemplo o que aconteceu em companhias como a Swiss, a Brussels Airlines e, mais recentemente, a ITA Airways, que foram vendidas «com um plano coerente, previsível e calendarizado para uma aquisição total». Já sem esse compromisso – e tendo em conta o histórico governamental de reversão da venda privada, bem como a configuração política do Parlamento, onde a maioria pretende manter a TAP sob controlo estatal – diz que «estes grupos sabem que terão as mãos atadas ao que é politicamente aceitável em termos eleitorais, e não apenas ao que é economicamente viável».
Ao nosso jornal, Ricardo Penarroias, presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), admite que a atual conjuntura internacional poderá condicionar as propostas, nomeadamente a do grupo IAG, já que a Qatar Airways é o seu principal acionista. «A atual situação internacional pode ter dado um certo arrefecimento em termos de interesse, até porque não sabemos quanto tempo vai durar este conflito e que impacto terá no futuro».
E não hesita: «Posso discordar de todo o processo e de toda a falta de transparência que se verificou com os trabalhadores, mas a verdade é que todos sabíamos quais eram as intenções que o Governo tinha e os possíveis interessados sempre souberam disso desde o primeiro momento. Vir agora alegar que, afinal, preferia a questão dos 100% parece-me que é uma tentativa de uma saída airosa para dizer que vai sair do interesse da TAP», refere ao nosso jornal.
O que esperar
Sobre o que esperar desta entrega de propostas não vinculativas, Pedro Castro atira: «Em primeiro lugar, espero a verdade», lembrando que «foram meses e anos de muita propaganda política eleitoralista populista de quase todos à volta da TAP».
O especialista em aviação recorda que, «até à seleção oficial dos três grupos interessados realizada pela Parpublica em janeiro, não havia verdadeiro acesso às informações relevantes da companhia que, aliás, na tradição iniciada pela ex-CEO Christine Ourmières-Widener, deixou até de realizar conferências de imprensa para apresentação de resultados e ainda não apresentou os resultados de 2025 – ano relativamente ao qual nos foram prometidos dividendos, relembro».
Pedro Castro defende que os três grupos tiveram estes três meses para aceder aos dados da empresa, colocar perguntas, organizar cenários de investimento realistas, otimistas e pessimistas, e avaliar se esta consolidação arriscada é algo que acrescenta verdadeiramente aos seus grupos e se é algo que os acionistas e os mercados vão aprovar. «Perante o caderno de encargos e o pior modelo de privatização escolhido por este Governo, estou convencido de que os três grupos irão considerar o cenário pessimista como o mais provável e isso vai refletir-se diretamente no tipo de propostas que vão apresentar… incluindo a própria possibilidade de não ser submetida qualquer proposta», antevê. Mas deixa o alerta: «Obviamente, a situação atual de incerteza mundial exige maior cautela e prudência por parte das companhias. Mas, no meu entender, não é essa a questão central nesta privatização e nem foi esse motivo do rumor avançado pela Bloomberg».
Por sua vez, Ricardo Penarroias é da opinião de que, «provavelmente no final do dia teremos os três interessados a entregarem as propostas não vinculativas». O responsável acrescentou que, até lá, deverão também ser conhecidos os resultados da companhia, manifestando a expectativa de que sejam positivos e reforcem a ideia que tem defendido: «o timing para uma privatização era péssimo».
O dirigente sindical sublinha ainda que a atual conjuntura internacional, marcada por incerteza, poderá influenciar o processo, explicando que os valores apresentados poderão refletir reservas quanto ao futuro, nomeadamente devido à evolução dos preços dos combustíveis, à situação no Médio Oriente e à inflação. Nesse sentido, admite «algum receio» de que estes fatores possam ter impacto no valor das propostas, lembrando que, em contextos de inflação elevada, a aviação não é considerada um bem de primeira necessidade, apesar de desempenhar um papel essencial no transporte de bens.
O mesmo responsável defende também que o potencial da empresa sempre existiu, independentemente da natureza pública ou privada da gestão, sustentando que «os bons resultados» só dependem da «competência». Acrescenta ainda que os acordos de empresa, frequentemente vistos como custos, devem ser encarados como um investimento que contribuiu para a competitividade e para os resultados positivos da companhia.
Relativamente aos interessados, Ricardo Penarroias destaca que se trata de «três das maiores companhias, grupos da aviação dos mais importantes do mundo». Sublinha ainda que não se trata de «uma meia dúzia de curiosos», mas sim de grupos com experiência, know-how e capacidade, que poderão representar uma mais-valia para a TAP, caso seja apresentado um projeto claro que permita compreender qual será o posicionamento da companhia no futuro.
Ainda no que diz respeito aos três interessados, Sérgio Palma Brito entende que o grupo Lufthansa «é o que mais ganha com aquisição da TAP e aquele em que a TAP acrescenta mais valor, pelo Brasil e América do Norte via Lisboa que não canibaliza a procura por Francoforte».
Já Pedro Castro alerta: «Apenas três grupos se apresentaram na primeira fase de qualificação, o que, por si só, já é um número reduzido face ao modelo de privatização escolhido». E continua: «O péssimo modelo de privatização minoritária escolhido tinha uma única vantagem: abrir o leque de possíveis interessados a nível global, uma vez que não se aplicaria a restrição europeia de propriedade maioritária por um europeu», lembrando que apenas grupos europeus se interessaram.
Na sua opinião, «de um ponto de vista interno, terá melhores possibilidades o grupo que conseguir lidar com este Estado absolutamente disfuncional e populista, pois será esse o seu parceiro maioritário durante longos e exigentes anos». Já do ponto de vista externo, «terá vantagem o grupo que for sujeito a menos ‘remédios’ por parte das Autoridades da Concorrência envolvidas na aprovação do negócio».