quarta-feira, 09 set. 2026

Shein e Temu: preços devem estabilizar em níveis mais elevados

Os preços nas plataformas de fast fashion estão a subir e a diferença já é sentida pelos consumidores. Especialistas dizem que há razões mais profundas para o aumento.
Shein e Temu: preços devem estabilizar em níveis mais elevados

Os preços de produtos vendidos em plataformas de fast fashion – como a Shein e a Temu – têm vindo a aumentar nos últimos meses, numa tendência que tem gerado queixas de consumidores. Nalguns casos, há relatos de artigos que chegaram a duplicar o custo face ao valor praticado anteriormente.

Embora a entrada em vigor de novas medidas da União Europeia tenha contribuído para este cenário, esse não é o único motivo para a subida dos preços. João Cruz, analista da XTB, explica que «as novas taxas e o fim da isenção aduaneira para encomendas de baixo valor na União Europeia são um acelerador do aumento de preços, mas não o único fator», acrescentando que estas plataformas estão também a atravessar uma mudança na sua estratégia de negócio. «Sob a perspetiva de mercado, assistimos à transição de fase destas plataformas: inicialmente operaram com uma estratégia agressiva de subvenção de preços para ganhar quota de mercado e angariar utilizadores. Agora, na fase de consolidação e procura de rentabilidade financeira, somam-se a compressão das margens de lucro, o aumento dos custos logísticos de transporte global e, finalmente, a pressão regulatória e fiscal europeia».

João Cruz acrescenta ainda que «a eliminação de benefícios fiscais é apenas mais um dos fatores que já iria obrigar estas plataformas a uma revisão do modelo de negócio, refletindo-se inevitavelmente nos preços finais».

Por sua vez, Paulo Monteiro Rosa explica que, mesmo antes da entrada em vigor das novas taxas, plataformas como a Shein e a Temu «já vinham a aumentar gradualmente os preços, refletindo custos mais elevados de produção, transporte, salários e uma estratégia de melhoria das margens». O economista senior do Banco Carregosa frisa também que as novas taxas e o fim de algumas isenções fiscais «reforçaram essa tendência, sobretudo nos EUA, mas não são a sua única explicação». Ainda assim, recorda que, apesar destes aumentos, «estas plataformas continuam, em muitos casos, a apresentar preços inferiores aos dos retalhistas tradicionais, graças ao seu modelo de negócio de venda direta ao consumidor e à eficiente cadeia de abastecimento». 

Quem paga a subida de preços?

Quanto ao impacto destes aumentos, o analista considera que os custos estão a ser repartidos entre empresas e consumidores, mas com maior peso para quem compra. 

Do lado das empresas, explica que «plataformas como a Shein ou a Temu absorvem inicialmente uma fatia dos custos operacionais e de conformidade para evitar uma quebra abrupta na retenção de clientes. No entanto, operando com margens estruturalmente reduzidas, a sua capacidade de absorção é limitada».

Já para os consumidores, «parte substancial do custo é transferida diretamente para o consumidor, seja no preço unitário dos artigos, seja no aumento das taxas de envio e serviços adicionais».

Paulo Monteiro Rosa considera que, numa primeira fase, «é habitual as empresas absorverem parte do aumento dos custos para preservarem a competitividade e a quota de mercado». No entanto, à medida que essas pressões persistem, «uma parte crescente acaba por ser transferida para os consumidores». A repartição desse esforço «dependerá da concorrência, da sensibilidade dos consumidores aos preços e da capacidade de cada plataforma para continuar com margens reduzidas».

Regresso aos preços baixos é improvável

Questionado sobre a a possibilidade de os preços voltarem aos níveis anteriores, João Cruz considera que não se trata de uma situação temporária. «Trata-se de uma mudança estrutural e não de um pico temporário que ameaça o ciclo do ‘ultra-barato sem custos de fronteira’ que observámos até aqui». 

Embora admita que «possam ocorrer ajustamentos pontuais decorrentes de campanhas promocionais ou otimizações na cadeia de suprimentos», sublinha que «o patamar de preços base será permanentemente mais elevado». Na sua perspetiva, «a combinação de exigências de sustentabilidade, custos de conformidade regulatória na UE e a necessidade de apresentar resultados financeiros sólidos aos investidores impede um regresso aos preços historicamente baixos».

Uma opinião que é partilhada pelo economista do Banco Carregosa, para quem «parte dos aumentos resulta de fatores estruturais, como custos mais elevados de produção, transporte e salários, bem como da estratégia das plataformas de melhorarem as suas margens» e que a concorrência «continuará a limitar aumentos mais significativos e poderá haver ajustamentos pontuais, sobretudo em campanhas promocionais». No entanto, defende que «o cenário mais provável é de estabilização dos preços em níveis mais altos, e não de um regresso aos valores anteriores». 

Quanto ao objetivo das novas medidas europeias, João Cruz entende que existe um equilíbrio entre a proteção do mercado e o impacto nos consumidores. «É um equilíbrio delicado entre proteção concorrencial e perda de poder de compra».

Do ponto de vista do comércio europeu, afirma que, «sob a ótica do mercado financeiro e retalhista europeu, a medida procura repor a equidade concorrencial (level playing field). Empresas de retalho e moda a operar na Europa enfrentam custos regulatórios, laborais e fiscais muito superiores aos de intervenientes diretos do comércio transfronteiriço».

Já para os consumidores, alerta que, «em termos práticos, num contexto de inflação e pressão sobre os orçamentos das famílias, a medida traduz-se numa perda imediata de poder de compra, penalizando sobretudo os agregados de menor rendimento que recorriam a estas plataformas como alternativa económica».

 Para Paulo Monteiro Rosa, é certo que as novas taxas «procuram criar condições de concorrência mais equilibradas entre as plataformas asiáticas e os retalhistas europeus, sujeitos a regras fiscais, de trabalho e ambientais mais exigentes». Mas adianta que «uma parte significativa desse custo acaba por ser suportada pelos consumidores devido aos preços mais altos». O impacto final, na sua opinião,  «dependerá da capacidade das plataformas absorverem parte dos custos, da concorrência no setor e da reação dos consumidores aos novos preços».

daniela.ferreira@nascerdosol.pt